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As eleições de 2026 no Brasil serão um grande teste contra a desinformação midiática. Em um cenário contemporâneo marcado pela velocidade da informação e pela crescente influência das redes sociais, a educação midiática configura-se como um dos pilares fundamentais para a preservação da democracia. Nesse contexto, a obra Democracia e Redes Sociais, de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, oferece relevantes reflexões acerca dos desafios impostos pela desinformação no ambiente digital, além de apontar possíveis caminhos para seu enfrentamento.
Ademais, em um mundo cada vez mais orientado por dados, a circulação de informações deixou de depender exclusivamente da ação humana direta, passando a ser mediada por sistemas automatizados. É sob essa perspectiva que a obra Algoritmos de Destruição em Massa, da matemática e cientista de dados Cathy O’Neil, evidencia os riscos invisíveis que os algoritmos representam para a sociedade, sobretudo no que concerne à propagação da desinformação.
Outrossim, em tempos de hiperconectividade, compreender os mecanismos de circulação da informação tornou-se uma habilidade indispensável para a vida em sociedade. No livro Nexus, o historiador Yuval Noah Harari analisa como as redes de informação moldaram o desenvolvimento das civilizações e como, na contemporaneidade, essas mesmas estruturas podem potencializar ameaças à democracia, especialmente por meio da disseminação de conteúdos enganosos.
Segundo Moraes, as redes sociais ampliaram o acesso à informação, mas também facilitaram a disseminação de conteúdos falsos ou manipulados, muitas vezes com impactos diretos sobre processos eleitorais, instituições e a opinião pública. Nesse contexto, a desinformação deixa de ser apenas um problema comunicacional e passa a representar uma ameaça concreta ao Estado Democrático de Direito.
É nesse ponto que a educação midiática se revela estratégica. Mais do que ensinar o uso técnico das tecnologias, ela promove o desenvolvimento do pensamento crítico, capacitando cidadãos a identificar fontes confiáveis, verificar informações e compreender os interesses por trás de determinados conteúdos. Trata-se de formar indivíduos menos suscetíveis à manipulação e mais conscientes de seu papel na construção de uma esfera pública saudável.
A obra destaca ainda que o combate à desinformação não deve ser responsabilidade exclusiva das instituições judiciais ou das plataformas digitais. Embora a regulação e a responsabilização sejam importantes, Moraes enfatiza que a solução mais eficaz e duradoura passa pela educação. Uma população bem informada e crítica é menos vulnerável à propagação de notícias falsas e discursos de ódio.
Além disso, a educação midiática contribui para o fortalecimento da cidadania digital. Ao compreender o funcionamento dos algoritmos, das bolhas informacionais e das estratégias de engajamento, o cidadão passa a atuar de forma mais consciente nas redes, reduzindo o compartilhamento impulsivo de conteúdos e promovendo debates mais qualificados.
No Brasil, iniciativas voltadas à educação midiática ainda são incipientes, mas vêm ganhando espaço em políticas públicas e no ambiente escolar. A incorporação desse tema nos currículos educacionais pode representar um avanço significativo na formação de cidadãos preparados para lidar com os desafios da era digital.
No livro, O’Neil descreve como modelos matemáticos, muitas vezes opacos e sem mecanismos de controle, podem reforçar desigualdades, distorcer a realidade e influenciar decisões em larga escala. Aplicados às redes sociais e aos mecanismos de busca, esses algoritmos priorizam conteúdos com maior potencial de engajamento — o que frequentemente favorece notícias sensacionalistas, polarizadoras ou falsas.
A lógica é simples e preocupante: quanto mais cliques, curtidas e compartilhamentos um conteúdo gera, maior sua visibilidade. Nesse ambiente, a veracidade da informação nem sempre é um critério relevante. Assim, a desinformação encontra terreno fértil para se espalhar de forma rápida e massiva, muitas vezes impulsionada por sistemas que operam sem transparência.
Diante desse cenário, a educação midiática emerge como uma resposta essencial. Mais do que ensinar a consumir informação, ela busca formar cidadãos capazes de compreender como funcionam os algoritmos que moldam o que vemos online. Isso inclui reconhecer que as plataformas digitais não são neutras, mas estruturadas para maximizar engajamento — ainda que isso implique amplificar conteúdos duvidosos.
A partir das reflexões de O’Neil, torna-se evidente que o combate à desinformação exige uma abordagem que vá além da checagem de fatos. É necessário desenvolver uma consciência crítica sobre os próprios mecanismos que selecionam e distribuem a informação. Sem essa compreensão, o usuário permanece vulnerável a manipulações sutis, muitas vezes imperceptíveis.
Outro ponto central abordado pela autora é a falta de responsabilização das empresas que desenvolvem esses sistemas. Ao operar como “caixas-pretas”, os algoritmos dificultam a identificação de vieses e erros, o que agrava os efeitos da desinformação. Nesse sentido, a educação midiática também deve incluir noções de ética digital e cidadania, incentivando a cobrança por maior transparência e regulação.
No Brasil e no mundo, iniciativas de alfabetização digital começam a incorporar essas discussões, ainda que de forma gradual. Especialistas defendem que o ensino sobre algoritmos, dados e plataformas digitais deve ser integrado aos currículos escolares, preparando as novas gerações para um ambiente informacional complexo e, muitas vezes, hostil.
Harari parte da ideia de que as sociedades humanas sempre se organizaram a partir de narrativas compartilhadas. Religiões, nações e sistemas políticos dependem de consensos construídos coletivamente. No entanto, com o advento das redes digitais, a velocidade e o alcance dessas narrativas se expandiram de forma sem precedentes, criando um ambiente em que informações falsas podem se espalhar com igual intensidade — ou até maior — força que fatos comprovados.
Nesse cenário, a desinformação não é apenas um erro ou distorção pontual, mas um fenômeno estrutural das redes. Plataformas digitais, ao priorizarem conteúdos que geram maior engajamento emocional, acabam favorecendo mensagens simplificadas, polarizadoras e, muitas vezes, enganosas.
É diante desse desafio que a educação midiática ganha relevância estratégica. Inspirado pelas reflexões de Harari, especialistas defendem que é preciso preparar os cidadãos não apenas para consumir informação, mas para compreender os sistemas que a produzem e distribuem. Isso inclui reconhecer padrões de manipulação, identificar fontes confiáveis e questionar narrativas que apelam mais à emoção do que à evidência.
A educação midiática, nesse contexto, vai além da alfabetização digital tradicional. Trata-se de desenvolver uma consciência crítica sobre o papel das redes na construção do conhecimento coletivo. Ao entender que as informações que circulam online são resultado de disputas por atenção e influência, o cidadão se torna menos vulnerável a campanhas de desinformação e mais apto a participar de debates públicos de forma qualificada.
Outro ponto destacado na obra é o impacto da desinformação sobre a coesão social. Quando diferentes grupos passam a acreditar em versões incompatíveis da realidade, o diálogo se torna difícil — e, em casos extremos, impossível. A educação midiática, ao promover o pensamento crítico e a valorização de evidências, contribui para a reconstrução de um espaço comum de entendimento.
No Brasil, onde o uso intenso das redes sociais se combina com desafios históricos na educação, a implementação de políticas voltadas à educação midiática é vista como urgente. Iniciativas em escolas, universidades e organizações da sociedade civil têm buscado preencher essa lacuna, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Diante do avanço tecnológico e da centralidade das redes sociais na vida contemporânea, investir em educação midiática não é apenas uma escolha pedagógica, mas uma necessidade democrática. Como aponta Alexandre de Moraes, a defesa da democracia, hoje, passa necessariamente pela capacidade da sociedade de reconhecer, questionar e combater a desinformação.
Ao evidenciar os perigos dos chamados “algoritmos de destruição em massa”, Cathy O’Neil reforça a urgência de uma sociedade mais consciente e preparada. Nesse contexto, a educação midiática não é apenas uma ferramenta de aprendizado, mas um instrumento de defesa democrática frente aos desafios da era digital.
A partir das ideias apresentadas em Nexus, Yuval Noah Harari reforça que o futuro das democracias dependerá, em grande medida, da capacidade das sociedades de lidar com a informação em um ambiente digital complexo. Nesse contexto, investir em educação midiática é investir na própria sustentabilidade do debate público e na preservação dos valores democráticos.
Em 2026, o processo eleitoral brasileiro será submetido a uma rigorosa prova diante do avanço da atuação, tanto dolosa quanto culposa, da indústria da desinformação midiática. Nesse contexto, torna-se imprescindível a união entre a advocacia, o Ministério Público, o Poder Judiciário e a sociedade civil organizada, com vistas à prevenção de irregularidades e à responsabilização dos envolvidos.
REFERÊNCIA
HARARI, Yuval Noah. Nexus: uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial.1ª ed.-São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
MORAES, Alexandre de. Democracia e redes sociais: o desafio de combater o populismo digital extremista. 1ª ed.- Barueri, SP: Editora Atlas, 2025.
O’NEIL, Cathy. Algoritmos de  destruição em massa: como o big data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia. 1ª ed.-Santo André, SP: Editora Rua do Sabão,2020.




* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Staël Sena
Stael Sena é advogado pós-graduado em Direito (UFPA) e presidente da Comissão Estadual de Defesa da Liberdade de Imprensa da OAB-PA.

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