Publicado em: 14 de janeiro de 2026
As notícias explodiram nas telas em uma madrugada de janeiro de 2026: a “Operação Resolução Absoluta” estava em curso. Imagens de explosões em Caracas, a captura do presidente Nicolás Maduro e a declaração de Donald Trump de que os EUA assumiriam o controle do petróleo venezuelano.
O roteiro, embora chocante, soava familiar. Era mais um capítulo na longa história de intervenções norte-americanas desta vez na América Latina, agora justificada pela “guerra às drogas”, mas com um inconfundível cheiro de petróleo. Mas ok, o petróleo é uma droga mesmo, a COP30 em Belém deixou isso muito claro, é o principal causador da crise climática por ser a principal fonte de emissão de carbono na atmosfera.
No Brasil, incrível, a reação foi de prudência diplomática. Manifestações divididas e um calafrio na espinha de quem ainda pensa. A pergunta pensada, mas não dita. No máximo, sussurrada em conversas informais: e se, em vez da Venezuela, fosse o Brasil?
A questão longe de ser um mero exercício de imaginação, mergulha fundo na psiquê de uma nação cuja história econômica e política foi marcada pela humilhação de quase sempre ter a própria soberania submetida à cobiça externa por seus recursos. Para entender o que poderia acontecer, é preciso olhar para o espelho da nossa própria formação histórica e cultural.
Para começar, a suposta esperteza do jeitinho brasileiro, nos leva ao que ouvi muito nos idos de 70… Se o estupro é inevitável, relaxa e … como se fosse possível ter qualquer prazer ou satisfação em um estupro. Hoje, os mais espertos ainda, vão lá pedir que façam o que “tem que ser feito”, pela nossa salvação, já que somos incapazes. Só a História, para nos redimir.
O Brasil, ao contrário da Venezuela, construiu um complexo e diversificado parque industrial e institucional. A criação da Petrobras em 1953, fruto da massiva campanha popular “O Petróleo é Nosso!”, não foi apenas um marco econômico, mas um ato de afirmação da soberania nacional.
Getúlio Vargas, mesmo não sendo um democrata, ao sancionar a lei que estabelecia o monopólio estatal, respondia a um clamor popular que entendia os perigos de entregar um recurso estratégico a um mercado global então dominado pelas “Sete Irmãs”, as gigantes petrolíferas majoritariamente americanas. A Petrobras tornou-se mais que uma empresa; virou um símbolo da capacidade brasileira de autodeterminação e soberania.
Provavelmente, este processo acumulou vontades para que em 1964 os EUA orquestrassem e apoiassem o Golpe empresarial-militar de 1964, que se reproduziu em quase toda a América Latina, e nos enfiou 20 anos de violência, subordinação política e humilhação econômica, aniquilando nossa cultura e o orgulho de sermos o que somos. Mas eis que hoje, depois de 50 anos do glorioso Bye Bye Brasil, as inéditas vitórias do cinema brasileiro com “Ainda estamos aqui” e com “Agente Secreto”, não nos deixam mentir nem vacilar.
Essa memória histórica molda a percepção brasileira sobre intervenções como quase normais. Para alguns, foi bem feito, Maduro é um ditador. Sem se dar conta que os EUA apoiam em são apoiados por dezenas de ditaduras no Oriente Médio e na África. Aliás, nem se tocam que nos próprios EUA, não tem eleição direta e só se chega ao governo por dois partidos.
Outros dizem, ah, que bom, Maduro é traficante. Sem se dar conta que o maior mercado consumidor de drogas, como a cocaina, no mundo, são os americanos. E o que Trump tem feito? Nem se dão conta que mesmo que seja uma ditadura ou produzam drogas as leis internacionais estabelecem a autodeterminação. Trump se coloca fora da lei internacional e ameaça sair da ONU, o fio do equilíbrio possível desde a II Guerra.
Contudo, pesquisas de opinião recentes, realizadas no calor dos eventos na Venezuela, mostram que a esmagadora maioria dos brasileiros (cerca de 90%) acredita que as Forças Armadas deveriam resistir a qualquer tentativa de submissão aos interesses dos EUA. Essa quase unanimidade transcende o espectro político, unindo esquerda e direita em uma rara demonstração de consenso: a soberania não se negocia. Viva!
O governo brasileiro, seguindo essa corrente, adotou uma postura de defesa intransigente do direito internacional, condenando a violação da Carta da ONU, articulando uma resposta conjunta com outras nações latino-americanas e europeias, ainda que evitando uma confrontação direta e nominal com os líderes envolvidos. Sendo a resposta mais eloquente a conquista da assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Européia. Avançamos ainda mais, para além dos BRICS. É obvio que teremos respostas…
A História nos pede uma resposta, uma escolha, na verdade. Queremos exercer Protagonismo? É aqui que a ciência política clássica nos oferece uma lente para analisar o dilema. Recorri à escola realista, de Hans Morgenthau a Kenneth Waltz, que nos ensina que as relações internacionais são, em última instância, um jogo de poder. A “força do argumento”, representada pelo direito internacional e pela diplomacia, muitas vezes só encontra eco quando respaldada pelo “argumento da força” – dizem.
A soberania, nesse tabuleiro, não é um direito abstrato, mas uma capacidade concreta de defesa. O Brasil, com a maior economia e as forças armadas mais bem equipadas da América Latina, além de uma população de mais de 200 milhões de habitantes, se unida, apresenta um custo de intervenção drasticamente maior do que a Venezuela.
Uma invasão ao Brasil não seria uma operação cirúrgica. Seria uma guerra de proporções continentais, com consequências imprevisíveis para a estabilidade global. Além do poderio militar, o Brasil possui outras cartas. A parceria estratégica com a China, hoje seu principal parceiro comercial, cria um contrapeso geopolítico impensável décadas atrás. Uma agressão ao Brasil seria, indiretamente, uma agressão aos interesses de outra superpotência, elevando o risco de uma escalada internacional. Mas superpotências são superpotências, não somos nós. A questão não pode ser reduzida a quem puxa a coleira, mas em não admitir coleiras…
Contudo, a soberania, como aponta o debate contemporâneo, tornou-se um conceito relativo. A interdependência econômica, os fluxos financeiros e as pressões de atores não estatais corroem a autonomia absoluta dos Estados. O Brasil, apesar de sua força, não está imune a essas vulnerabilidades.
A história recente, marcada por crises institucionais e pela Operação Lava Jato, que manipulou a corrupção dentro da Petrobras, para “com supremo, com tudo” golpear a democracia, impeachimar uma presidente sem crimes e prender o líder da soberania nacional, dando asas ao facismo brasileiro, mesmo raso e decrápito, tal como a mior parte de nossas elites econômicas.
Na prática, de todo o processo ilegal da lava jato, que caiu de podre, a única consequência concreta é nos colocar como uma das poucas nações em que o produto mais exportado é o petróleo, mas como aniquilaram o refino, mesmo exportando petróleo, temos que importar gasolina e pagar em dólar, como hoje vivemos.
O cenário hipotético de uma invasão ao Brasil nos força, portanto, a uma reflexão complexa. Se, por um lado, nosso peso demográfico, econômico, militar e geopolítico torna o custo de uma agressão direta proibitivo, por outro, a história nos adverte que o imperialismo opera de formas sutis e multifacetadas, fazendo das nossas divisões fabricadas e da servidão de nossas elites suas maiores artilharias. A dependência econômica, a influência cultural e a pressão diplomática são armas tão ou mais eficazes que os porta-aviões. Confesso que como pesquisador e educador me sinto arrasado. Mas desistir, jamais.
E se fosse o Brasil? A resposta mais provável é que não seria da mesma forma. Não veríamos, talvez, uma invasão nos moldes clássicos. Veríamos, como já vimos, a intensificação de uma guerra híbrida, travada nos campos da informação, da economia e da política. O objetivo final, no entanto, permaneceria o mesmo que motivou a campanha de 1953 e que hoje paira sobre as vastas reservas do pré-sal: o controle sobre as riquezas que podem determinar o futuro da nação.
A crônica da nossa soberania é uma história de resistência contínua. A pergunta “e se fosse o Brasil?” não deve ser um convite ao medo, mas um chamado à democracia e ao protagonismo como nação.
A melhor defesa de um país não reside apenas em seus tanques e caças, mas na coesão de seu povo, na solidez de suas instituições e na clareza de seu projeto de nação. A lição que vem de Caracas é um eco de nossa própria história: sem conhecimento próprio nenhuma nação se torna livre, sem educação a partir do orgulho de ser o que somos, nem há pelo que lutar.
*João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo



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