Publicado em: 5 de abril de 2026
Manoel de Barros nasceu em Cuiabá no dia 19/12/1916, e com um ano de idade mudou-se com os pais para uma fazenda na zona rural de Corumbá. Cresceu no mato, sem medos urbanos, íntimo de rios, bichos, perebas e traquinagens. Foi um menino típico do Brasil interiorano do início do Século XX, lugar distante de tudo, recôndito pantaneiro imerso em silêncio, que clareava com o raiar do dia e escurecia com o cair da noite, cenário perfeito para gestar o gênio criativo do inventor das despalavras.
Vivendo ali os primeiros anos da infância, entre adultos majoritariamente desprovidos de escolaridade, muitos deles analfabetos dedicados à produção pecuária e à lida pesada do campo, o curioso infante desenvolveu uma enorme aptidão para enxergar além da realidade, percebendo no cotidiano simples as desconexões ilógicas e sensoriais que costumam resultar em poesia.
Como ele próprio descreveu: “Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens.”
É de se supor que na fazenda havia diferentes maneiras de falar, ouvir e compreender, e embora o português fosse preponderante, não se pode ignorar as influências do castelhano – dada a proximidade com a fronteira paraguaia e a intensa navegação fluvial entre os países platinos -, e dos dialetos indígenas e quilombolas presentes na região, tudo isso resultando em variações que certamente contribuíram para a formação do que, mais tarde, o escritor batizou de “idioleto manoelês archaico.”
“O lugar onde a gente morava era uma Ilha Linguística, no jargão dos Dialetólogos (com perdão da má palavra). Isto seja: que a gente morava em lugar isolado: núcleo de dez a vinte pessoas, onde poderia germinar um idioleto. (…) Os anos passavam por longe, ninguém enxergava. Nas campinas só havia trilheiros de anta. Quase toda extensão era tomada por frangos-d’água. O resto ia no invento. Pois que inventar aumenta o mundo. A gente aprendia coisas de sexo vendo os cachorros emendados, vendo os cavalos nas éguas e os touros nas vacas. Camões chamava a isso “Venéreo ajuntamento”. Mas a gente não sabia de Camões e nem de venéreos. De novidade tinha por lá uma simpatia para obter namoro. Era rabo de lagartixa torrado. O pó se jogava nos cabelos da moça. Na primeira poção a moça cede – diziam. Mas a Ilha Linguística para nós ainda era um desnome.”
Nos textos anteriores desta série (Partes I e II), vimos a importância de Manoel para a língua e as letras pátrias. Vimos de onde vinha sua poesia, tentando chegar ao nascedouro da desconstrução lexical que ele empreendeu com inimitável ternura, num lirismo tão identitário quanto a íris de seus olhos. Agora, na terceira parte da homenagem, o foco recai nos seus amigos, personagens que povoaram sua infância infinita, e que o acompanharam – eternas crianças – até o fim da vida, inspirando e vivenciando uma das mais prósperas aventuras literárias que esse país já produziu.
O primeiro deles parece ter sido o avô, influência perceptível na formação do poeta, ao que parece tão inveterado sonhador quanto o neto:
“Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra — meu avô começou a dar germínios. Queria ter filhos com uma árvore. Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir vender na cidade. Meu avô ampliava a solidão. No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro. Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato. Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.”
“Andar à toa é coisa de ave. Meu avô andava à toa. Não prestava pra quase nunca. Mas sabia o nome dos ventos. E todos os assobios para chamar passarinhos. Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam as tardes frequentando o seu ombro. Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para ser uma árvore. Lírios o meditavam. Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava bom-dia aos sapos, ao sol, às águas. Só tinha receio de amanhecer normal. Penso que ele era provedor de poesia como as aves e os lírios do campo.”
Daí em diante, a obra do trovador cuiabano destaca uma plêiade de tipos insólitos, desventurados e quase místicos, cambada mágica de pés-rapados e pobres-ninguéns dados a estranhezas e esquisitices, teóricos do desconhecimento e da desciência, acostumados a conversar com passarinhos, compreender árvores e confabular com formigas. Uma trupe de heróis infantis como Marvel alguma seria capaz de criar.
“Mário-pega-sapo, de noite, abria em casa todos os sapos que pegava durante o dia em banhados, nos barrancos, nos monturos, nos porões, nos terrenos baldios, debaixo de caixas d’água. Abria um por um de canivete os sapos para ler nas entranhas deles o seu futuro (do Mário). (…) Tentei descobrir na alma de Mário alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas.
Consegui não descobrir.”
“Bola-Sete é filósofo de beco. Marimbondo faz casa no seu grenho — ele nem zine. Eu queria fazer a biografia do orvalho – me disse (…)”
“Catre-Velho é um traste pessoal à toa. Nossa mãe falava: Não vale um cabelo. Não serve nem pra remendo. Só presta pra cantar e tocar violão. Catre-Velho ensinava: A voz de um cantador tem que chegar a traste para ter grandezas…”
“Seu Zezinho-margens-plácidas, célebre fazedor de discursos patrióticos, agora aposentado (…). Vendia passarinhos e demais produtos do sítio. A gente negociava: Seu Margens, dá duzentão de sabiá… Vinham 3 sabiás: 2 de quiçaça e 1 de laranjeira.”
“Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de pelos no pente. A gente pagava pra ver o fenômeno. A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra cima do umbigo. (…) Um senhor respeitável disse que aquilo era uma indignidade e um desrespeito às instituições da família e da Pátria! Mas parece que era fome.”
“Pote Cru é meu Pastor. Ele me guiará. Ele está comprometido de monge. De tarde deambula no azedal entre torsos de cachorro, trampas, trapos, panos de regra, couros de rato ao podre, vísceras de piranhas, baratas albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos, linguetas de sapatos, aranhas dependuradas em gotas de orvalho etc. etc. (…) Ele tinha uma voz de oratórios perdidos.”
“O rio cortava a tarde pelo meio. De um lado passeavam cavalos. De outro lado Passo-Triste, aves e borboletas. Passo-Triste tinha um gosto entre beato e bêbado. (…) Andava favorável para coisas. (…) Sua casa era guardada por aves do que ferrolhos. (…) Gostava de encantações do que de informações. Passo-Triste é meu Pastor. Ele me guiará.”
“Todos eram iguais perante a lua. Menos só Sabastião, mas era diz-que louco daí pra fora — Jacaré no seco anda? — preguntava. Meu amigo Sabastião. Um pouco louco.” (sic)
Dentre tantos parceiros, um se destacou pela sapiência e pela devoção com que o menestrel lhe distinguia, misto de companheiro e guru, presença constante no verso Manoelino: Bernardo, o homem que passou a vida a ouvir as vozes do chão, a escutar o perfume das cores, a ver o silêncio das formas e o formato dos cantos. Um poeta dos gestos e das desverdades, ermitão que toda manhã pegava seu regador e se punha a regar o rio, explicando à molecada que os peixes precisam de água para sobreviver.
“Desde criança ele fora prometido para lata Mas era merecido de águas de pedras de árvores de pássaros. Por isso quase alcançou ser mago. Nos apetrechos de Bernardo, que é o nome dele, achei um canivete de papel. Servia para não funcionar: na direção que um canivete de papel não funciona. Servia para não picar fumo. Servia para não cortar unha. Era bom para água mas obtuso para pedra.” (…) “Esse é Bernardo (…) Ele faz encurtamento de águas. Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros até que as águas se ajoelhem. (…) Tentou encolher o horizonte no olho de um inseto — e obteve! Prende o silêncio com fivela (…) Passarinhos aveludam seus cantos quando o veem.” (…) “Bernardo é quase árvore. Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe. E vêm pousar em seu ombro. Seu olho renova as tardes. Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho: 1 abridor de amanhecer 1 prego que farfalha 1 encolhedor de rios — e 1 esticador de horizontes.”
Era essa gente, enfim, que Manoel de Barros encontrava quando buscava seu reflexo no espelho, habitantes seletos de seu universo particular, homens e mulheres aparentemente rudes, situados à margem da lógica intelectual elementar, desimportantes por excelência e, por isso mesmo, partícipes diretos da construção do artista dos erros e das insignificâncias.
Manoel nunca se separou deles, jamais conseguiu tê-los distantes. Não à toa regressou do Rio de Janeiro para Campo Grande, após a conclusão dos estudos jurídicos, e lá optou por voltar ao mato, tornando-se pecuarista por profissão e sustento. O ambiente urbano, sua cultura e seu discurso estruturante não o seduziram. Seu descanso foi sempre o chão de terra, o ritmo natural das auroras e crepúsculos, ouvindo a oralidade sincera dos humildes e respirando o ar esverdeado que as árvores limpam, para então captar como ninguém a beleza poética das inutilidades.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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