0
 




A Creche Municipal Dom José Luis Azcona Hermoso foi entregue à população de Soure, no Marajó, pelo programa “Creches Por Todo o Pará”, destinada a atender até 200 crianças, de 0 a 5 anos. O espaço colorido, batizado em homenagem ao amado bispo cujo corpo foi sepultado na igreja matriz local, tem nove salas de aula, sala multiuso, cozinha, despensa, lactário, berçário, sala de amamentação, trocadores, quadra, parquinho de areia e áreas de convivência. É a primeira e única no município e em todo o arquipélago só há três creches do programa: em Soure, Melgaço e Cachoeira do Arari.

Além de ser um universo de mais de meio milhão de almas, em 17 municípios, o Marajó tem população em situação de miséria, apesar de ser belíssimo e com potencial turístico extraordinário, e se ressente da ausência do Estado em setores cruciais. Com os menores Índices de Desenvolvimento Humano do Pará, da Amazônia, do Brasil e do planeta, não só merece como precisa urgentemente ter pelo menos uma creche em cada município, o que ainda seria insuficiente mas minoraria os perigos aos quais estão expostas as crianças marajoaras, desde que nascem: maus tratos, abusos sexuais, tráfico humano, abandono. Compromisso concreto com a primeira infância começa por garantir espaço seguro, saudável e confortável para os bebês, uma rede de apoio para as mães que precisam trabalhar ou estudar.

No Marajó, desde recém-nascidas as crianças sofrem todo tipo de violência. Sequestros, estupros, torturas, desaparecimentos e assassinatos de crianças e adolescentes são frequentes ao longo das décadas, mas, após a comoção inicial, caem no esquecimento e na impunidade. As famílias das vítimas, que sobrevivem em condições abaixo da linha da pobreza, só acreditam na providência divina. O modus operandi, de extrema violência, se repete. Era contra esse horror que Dom Azcona lutava.

A pequena Elisa Ladeira Rodrigues, de dois aninhos, sumiu no Igarapé do Zinco, zona rural de Anajás, em 16 de setembro de 2023. Continua um mistério e a investigação cheia de revezes. Renan, o homem que o cão farejador da PMPA identificou com o cheiro da bebê, disse que tinha vendido a menina por R$1 mil a Fabiano Ferreira Trindade, que a teria estuprado e matado. A polícia prendeu os dois. Fabiano logo foi solto. Renan fugiu durante a reconstituição do crime e após dias embrenhado na mata se entregou já com advogado, foi transferido para Belém e encontrado morto em circunstâncias até hoje não esclarecidas, logo no retorno ao estabelecimento prisional, depois da audiência de custódia. Fabiano, que estava solto mesmo tendo contra si mandado de prisão preventiva por estupro de vulnerável, foi preso novamente. Desde então o silêncio impera sobre o caso.

Amanda Julie Ribeiro, de 10 anos, desapareceu no dia 7 de junho de 2022 e foi encontrada morta quatro dias depois, amarrada em volta da cintura e do pescoço, sob o trapiche de um depósito de gás desativado, às margens do rio Anajás, com evidências de tortura e mutilações. As investigações apontaram como motivação do crime uma dívida de drogas do pai da vítima com traficantes locais, integrantes de facção.

Em 16 de março de 2024, Vanessa Maia, 14 anos, foi encontrada sem vida nos fundos de uma casa abandonada, em Melgaço, afundada em um poço, coberta parcialmente por mato, com sinais de enforcamento e violência sexual. O suplício a que a menina foi submetida é aterrorizante. Antes de ser brutalmente assassinada, ela ficou em cativeiro sofrendo tortura, com agressões físicas, psíquicas e sexuais. Foi espancada, estuprada, empalada nas partes íntimas, teve o pescoço torcido até quebrar, depois colocada em um saco preto e jogada no poço.

No dia 7 de setembro de 2024, mais um crime monstruoso no arquipélago do Marajó. Nas margens de um igarapé em Muaná, o corpo de uma bebê dentro de uma sacola plástica, em meio a lama, estava em estado de decomposição, com a cabeça separada do tronco e com todos os membros quebrados. Na cena terrível, grande número de urubus sobrevoando o lugar.

As crianças e adolescentes do Marajó precisam ter asseguradas as suas vidas, a dignidade humana e os mais comezinhos direitos de cidadania.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

Sairé de Alter do Chão ocupa o Museu de Arte Sacra de São Paulo

Anterior

Naufrágio de barco pesqueiro em Salinópolis

Próximo

Você pode gostar

Comentários