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A participação brasileira nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026 representa um movimento iniciado há décadas e que, nesta edição, alcança novo patamar esportivo, simbólico e cultural.

A trajetória brasileira no gelo deixou de ser episódica para assumir caráter estruturado. O caso mais emblemático é o do bobsled, modalidade que tem em Edson Bindilatti sua principal referência. Aos 46 anos, após anunciar aposentadoria em 2022, o atleta , que é reconhecido por muitos como o maior nome dos esportes de inverno do Brasil, retornou para disputar sua sexta e alegada última Olimpíada, liderando a equipe nacional.

Ao seu lado, Davidson “Boka” Souza representa um capítulo de superação. Ex-competidor de atletismo com passagem pela seleção do Canadá, ele sofreu um grave acidente em 2024, com múltiplas fraturas, e quase encerrou a carreira. Recuperado, classificou-se para os Jogos e ainda compôs o hino motivacional da equipe. Rafael Souza, veterano olímpico, integra o grupo como liderança técnica e testemunha da transformação estrutural do bobsled brasileiro. Luís Bacca retornou ao alto rendimento após período afastado e reconquistou a vaga olímpica com disciplina. Gustavo Ferreira, o mais jovem do time, chega como expressão da renovação, com preparação moderna e rápida ascensão internacional.

O resultado brasileiro que mais impressionou pelo ineditismo, até a manhã desta quinta-feira (12) foi alcançado, vejam só, por um amazônida, Manex Salsamendi Silva, nascido no Acre e radicado na Espanha desde a infância. Ele conquistou a melhor marca da história do país no esqui cross-country olímpico, colocando o Brasil entre os 50 melhores do mundo na prova. O Acre, comumente alvo de piadinhas dos sudestinos brasileiros como “não existente”, literalmente reposicionou o Brasil no mapa da modalidade invernal.

Manex Salsamendi Silva (Foto: COB)

Eduarda Ribera também participou da competição após um ciclo completo de preparação internacional, diferente de sua estreia anterior, marcada por limitações estruturais. Sua presença em Milano Cortina é resultado de uma rotina de alto rendimento fora do Brasil. Seu sprint final, cheio de garra, que garantiu que não terminasse a prova na última colocação, emocionou o país. Bruna Moura protagonizou outra trajetória relevante: após um grave acidente de carro que quase encerrou sua carreira, passou por meses de reabilitação e retornou para sua estreia olímpica.

O snowboard halfpipe registrou outro momento relevante. Pat Burgener, músico e snowboarder suíço naturalizado brasileiro, figura entre os dez melhores do mundo e utiliza a música como parte de sua preparação emocional antes das descidas. Ele, entretanto, não se classificou para a final, ficando no “quase” ao conquistar o 14º lugar na fase eliminatória. Ao seu lado, Augustinho Teixeira, o Guga, disputou sua segunda Olimpíada com maior maturidade técnica, porém sem classificação, também. Surfista nas horas vagas, ele leva para a neve referências de equilíbrio e estilo desenvolvidas no mar.

No esqui alpino, o Brasil ocupa posição inédita no cenário mundial. Lucas Pinheiro Braathen, filho de mãe brasileira e pai norueguês, trocou uma das principais potências da modalidade para defender o país. Porta-bandeira na cerimônia de abertura, ele chegou a Milano Cortina entre os melhores do mundo nas provas técnicas, com pódios recentes na Copa do Mundo que colocaram o Brasil no centro das atenções do esqui internacional.

A delegação no esqui alpino inclui ainda Christian Soevik e Giovanni Ongaro, atletas formados na Europa que optaram por representar o Brasil a partir de suas raízes familiares. Soevik cresceu em centros europeus de formação de alto nível e integra a nova fase técnica da equipe. Ongaro também construiu carreira no circuito europeu antes de vestir o uniforme brasileiro, ampliando a presença nacional na elite da modalidade. No feminino, Alice Padilha, de 18 anos, que treina nos Estados Unidos, recoloca o Brasil no esqui alpino feminino após mais de uma década.

No skeleton, Nicole Silveira desponta como uma das atletas mais competitivas da delegação. Entre as cinco melhores do mundo na modalidade, chega aos Jogos como candidata real a um pódio inédito para o país. Nascida no Rio Grande do Sul e radicada no Canadá, divide a rotina entre treinos em alto nível e plantões como enfermeira em Calgary. Também atua como porta-bandeira do Time Brasil.

A participação brasileira em Milano Cortina 2026 gerou repercussão internacional, porém, fora das pistas. O desfile da delegação na cerimônia de abertura chamou atenção para os uniformes nacionais, desenvolvidos pela Moncler, em cocriação do brasileiro Oskar Metsavahat, transformaram as vestimentas em declarações de identidade cultural.

A proposta comunicou técnica e rigor no exterior da peça e incorporou a bandeira brasileira no interior, sinalizando alinhamento entre identidade e performance. O uniforme foi interpretado como um exemplo de branding, narrativa e coerência entre luxo, funcionalidade e contexto cultural. A parceria entre Moncler e Osklen estruturou um projeto que integrou sustentabilidade, repertório, origem e posicionamento estratégico. A repercussão ocorreu em um momento em que o chamado “brazilcore” circula globalmente (os biquinis com a bandeira brasileira foram os queridinhos do verão europeu em 2025), sem que o uniforme assumisse caráter caricatural.

A torcida tropical tupiniquim, que acompanha atentamente do outro lado do oceano, aguarda ansiosamente que esses uniformes sejam desfilados com muita ginga, pela primeira vez, em cima de um pódio olímpico de inverno.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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