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Ela adorava o seu nome, dizia que sempre estaria “grávida” ou com muita, mas muita “fome de poesia”.

Lembro dela me falar, em algum ano de 1990, que havia vendido mais de 200 mil livros por uma grande editora brasileira, alguém vende isso hoje?

Seus livros eram requisitados em escolas de SP, RJ e outros estados.

Heliana Barriga pedia para eu abrir os seus shows com poemas de autoria dela: “O Velho Guarda-chuva” e o “Letícia Coça-Coça”.

E antes de começar o espetáculo eu lia um texto de minha autoria que apresentava a escritora para o público leitor e ouvinte.

Heliana tinha essa habilidade de transitar com muita facilidade entre a poesia e a música, – seu outro nome era “movimento” por isso era fácil enontrá-la nos  movimentos literários de Belém.

E como musicista impossível esquecer o seu legado de excelente qualidade como compositora para o também público infantojuvenil. Era muito emocionante assistir um show seu com o seu sobrinho-musical Diogo Rezende.

Lembro de um show em Marabá, praça lotada de criança, mais de três mil, ouvindo e cantado juntos “…brinco, brinco; brinco de ouro na orelha do céu…peguei o sol, peguei a lua, peguei a terra, preguei com clips: fiz um eclipse”.

Esse jogo de palavras, brinco de brincar e brinco de usar na orelha, Heliana Barriga sabia usar muito bem na sua literatura.

Sempre defendi Heliana Barriga como aquela escritora que escreve para o público mais exigente: a criança.

E para ser mais dificultoso ainda: para a criança que está aprendendo a ler.

Não tem como esquecer da Abelha Abelhuda que “usa óculos escuros, botas de veludo; flores no cabelo e flores na cintura” – parece que era uma abelha recém-chegada de Woodstock.

Essa rebeldia telúrica é o toque poético mágico que a Heliana Barriga nos transmite com muita simplicidade e uma melodia fácil de decorar e sair cantando ou assobiando por aí.

É assim que vou lembrar dela: inventiva e criativa – sempre com uma dose absurda de imaginação.

E mais assim com a Malta de Poetas (Antonio Juraci Siqueira, Heliana Barriga, Roseli Sousa, Onna Agaia, Edvandro Pessoato, Walber Pereira, Marcio Galvão e eu) – a Malta e as suas Hipnoses Poéticas, sob o luar, à beira do rio, no Ver o Peso, Mercado de São Brás, coretos e praças de Belém, cemitério da Soledade, Bosque Rodrigues Alves, terminal rodoviário, Bar do Gilson, Sesc, quintais das casas, palcos e…onde tivesse gente, criança, idoso, adulto pessoas…é como dizem o terceiro e quarto mandamentos da Malta “Conhecer o maior número de pessoas”/”Criar novas palavras e novas pessoas”.

Descanse em paz, minha querida poetisa da tantas e inesquecíveis peripécias musicais e poéticas.


Benilton Cruz



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Benilton Cruz
Benilton Cruz é doutor em Teoria e História Literária, professor de alemão e do Curso de Letras-Português e Letras-Libras da UFRA, Campus Belém, autor dos livros: Olhar, verbo expressionista – O Expressionismo Alemão no romance “Amar, verbo intransitivo de Mário de Andrade; Moços & Poetas – Quatro Poetas na Amazônia - Ensaios Sobre Antônio Tavernard, Paulo Plínio Abreu, Mario Faustino e Max Martins; Espólios para uma Poética – Lusitanias Modernistas em Mário de Andrade; pesquisador e perito forense, editor do blog Amazônia do Ben; editor do Canal de Poemas No Meio do Teu Coração Há um Rio, no Youtube. Diretor da Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará; e membro eleito da Academia Paraense de Letras.

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