Publicado em: 3 de fevereiro de 2026
Notas sobre o tempo precário, a engenharia do caos e o pulso democrático
O relógio do mundo não apenas girou; ele rangeu. Ao alvorecer de 2025, os ponteiros açoitaram as horas ao ritmo de tambores que não pediam marcha, mas obediência. Em Washington, a liturgia cívica foi um banquete de ouro e aço, onde promessas cintilavam como facas ao sol. A partir dali, a gramática do poder mudou seu tom: as tarifas agora soam como trombetas de bronze, as fronteiras tornaram-se cicatrizes erguidas no mapa, e a palavra oficial transformou-se em um teatro de espelhos onde a verdade é a primeira a se perder no labirinto. Giuliano da Empoli não foi apenas prenúncio: seus engenheiros do caos recitaram, linha a linha, o manual de um governo onde o ruído é método e a dúvida, um bisturi afiado. O palco foi global, mas a cenografia — como sempre — se armou nos circuitos de afeto, tecendo crença e identidade, convertendo ressentimentos em nervos de Estado, em fios de arame farpado na alma coletiva.
A inundação de dados não é mais notícia, é dilúvio. O que era tática tornou-se a própria pele do mundo: anúncios que rasgam a manhã como relâmpagos secos, ameaças que pesam sobre os vizinhos como nuvens de chumbo, recuos calculados, novas ordens, contestações às contestações. Na Europa, a velha Aliança tateia as fendas de sua própria armadura, sentindo o frio do ceticismo soprar do outro lado do Atlântico. Assinou na Haia um testamento de unidade, um pacto de gelo contra as fendas do mundo, enquanto a relação transatlântica oscilava entre o calor das exigências e o frio cortante do ceticismo. Entre o deserto e o mar, o Oriente Médio ensaiou um suspiro de paz — um gelo fino que estalou sob o peso de botas milenares. Com a China, o mundo não apenas se divide; ele se desencontra, escrevendo um poema de silício e rivalidade nas entranhas das máquinas. Semicondutores e cadeias críticas tornaram-se as novas metáforas do destino, e cada tarifa parecia escrever um verso no longo poema da rivalidade. No quintal continental, a fronteira sul seguiu erguida como altar identitário, uma cicatriz na terra. O USMCA, compêndio de interdependências, foi arrastado para o tribunal de revisões, lembrando que tratados, na era do transacionalismo, não são juramentos eternos, mas negócios com cláusulas de resgate, areia movediça sob os pés.
E então, janeiro de 2026 não chegou; ele irrompeu. Em um sábado onde a madrugada ainda guardava seus silêncios de orvalho, o véu do possível foi rasgado. Nicolás Maduro, o rosto de uma nação que aprendeu a comer a própria exaustão, foi capturado em um golpe de vento militar de duração breve e alcance sísmico. O impacto antecedeu a luz. O que se disse depois foi uma colcha de retalhos: mapas, imagens, cronologias, brados de legalidade e de ilegalidade, a ONU convocada às pressas, chancelarias perplexas, opositores destroçados entre o alívio e o medo, aliados buscando chão sob os pés que tremiam. Os engenheiros do caos sempre souberam que o impacto antecede a verificação, mas desta vez o impacto veio com selo e assinatura, um carimbo de fogo na história. As democracias, que já respiravam por aparelhos sob máscaras de dúvida, sentiram o chão fugir. Levitsky e Ziblatt, guardiões de um vocabulário de alerta, poderiam ter sublinhado: não foi uma erosão lenta; foi o grito do penhasco que desaba. Przeworski lembraria que a história tem capítulos que começam com tiros de partida e terminam com cartas de rendição, um eco de fatalidade; Runciman, que a vulnerabilidade é um traço estrutural do regime que depende de normas não escritas, fios invisíveis que se rompem; Mounk, que a corda bamba entre democracia e liberalismo range quando o povo é invocado para ungir a sua própria mordaça. E, com precisão cirúrgica, Jan‑Werner Müller apontaria a matriz populista que se repete: a pretensão de falar pela “verdadeira nação” e, portanto, de definir quem deve ser silenciado em nome dela, um silêncio imposto.
No Brasil, 2026 amanheceu com eleições gerais no horizonte, e o país, a duras penas, já dançava a coreografia da época, um balé de incertezas. O calendário do TSE enfileirou marcos como quem planta estacas em solo sujeito a vendavais, cada data um ponto de tensão. A disputa se adivinha como uma longa travessia por rios turbulentos: vídeos curtos que piscam como faróis na escuridão, mensagens cifradas que tecem teias invisíveis, enxames coordenados que zumbem na rede, denúncias premonitórias de fraude que ecoam como profecias, palavras de ordem que atravessam fronteiras como pássaros migratórios de inverno, trazendo consigo o frio da discórdia. A prática religiosa se encontra com a militância, o púlpito com a timeline, os consultores com as comunidades invisíveis que compõem as democracias de bolso, pequenos universos de fé e fúria. Castells teria dito que o poder hoje é a programação das redes — e as redes, programadas, respondem, um coro de vozes orquestradas. Snyder, com seu catecismo de vigilância cívica, chama ao gesto simples e mais difícil: proteger instituições como quem guarda um fogo sagrado, tratar a verdade como bem comum, desconfiar do que pede pressa, lembrar que a liberdade morre de anestesia, não apenas de choque, mas de um sono profundo. O jornalismo, esse ofício da paciência, tem a missão ingrata de reconstituir o fio dos fatos em meio ao novelo das versões, um labirinto de espelhos; a Justiça Eleitoral, a de manter o rito entre aplausos e vaias, um equilíbrio precário; a academia, a de explicar de novo o que parecia já explicado, desvendando véus; e a política, essa arte do possível, a de reencantar pela negociação o que foi enfeitiçado pelo confronto permanente, quebrando o feitiço.
Nos Estados Unidos, o ano corre até as midterms de 2026 com a respiração suspensa, um fôlego contido. A eleição de meio de mandato é o sismógrafo institucional que mede não apenas a popularidade do governo, mas a saúde do compromisso democrático — a disposição dos vencedores em respeitar os limites e a coragem dos perdedores em aceitar o veredito, um pacto silencioso. A América olha para si e para fora ao mesmo tempo: para a OTAN e seus compromissos, fios de uma teia antiga; para o USMCA e suas cláusulas, letras miúdas de um contrato; para o Oriente Médio e suas brasas, um fogo que nunca se apaga; para a fronteira e seus símbolos, cicatrizes na paisagem. Cada decisão é também um clarão no céu das democracias alheias, um sinal que viaja por cabos e crenças, reflete em algoritmos e volta como refrão, um eco amplificado. A política em voga não foi apenas uma sequência de atos de governo; foi uma partitura executada por instrumentos afinados na frequência do sentimento, uma melodia dissonante. Bannon, Surkov, Salvini e Morisi, Casaleggio e a memória espectral da Cambridge Analytica — personagens e métodos de uma tradição que se espalha como hera, agarrando as paredes de sistemas representativos fatigados, sugando sua seiva. Da Empoli nos lembraria que não há magia: há engenharia. E que o caos, com seu brilho hipnótico, só triunfa onde as instituições desaprendem a falar com voz serena e convincente, onde o silêncio se torna cúmplice.
É possível resistir à beleza letal do tumulto, ao canto de sereia do abismo. O antídoto exige menos heroísmo que obstinação: reconstituir o “nós”, abrandar o metal das palavras, reverenciar os fatos não porque sejam pedra, mas porque são o único chão possível, a única âncora. As democracias respiram mal quando se assustam com a própria sombra; respiram melhor quando reconhecem a fragilidade como parte de sua força, um músculo que se fortalece na aceitação. Ao fim, esse período nos ensinou, com a delicadeza áspera dos acontecimentos, que o futuro não é uma rampa inevitável: é um tecido que se faz no aperto das mãos que ainda aceitam perder sem destruir a mesa, e vencer sem incendiar a casa, um pacto de civilidade. Se tivermos aprendido isso, talvez possamos, enfim, voltar a falar mais baixo — e ser melhor ouvidos, não pelo eco, mas pelo coração.
Notas de Rodapé
(1) Este texto tem como inspiração principal o livro Os Engenheiros do Caos, de Giuliano Da Empoli, que investiga como estratégias de comunicação, dados e psicologia política foram mobilizadas para moldar percepções públicas e resultados eleitorais na última década.
(2) Outras referências: LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia. MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia. PRZEWORSKI, Adam. Crises da democracia. RUNCIMAN, David. Como a democracia chega ao fim. CASTELLS, Manuel. Ruptura: a crise da democracia liberal. MÜLLER, Jan‑Werner. O que é populismo. SNYDER, Timothy. Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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