Publicado em: 20 de março de 2026
Semana passada, a coluna reverenciou o escritor brasileiro Luiz Gama e sua magnifica trajetória de vida ao buscar a dignidade para negros escravizados. Nesta semana, traremos um assunto complexo e negligenciado por professores e pela sociedade.
A presença das línguas africanas no português brasileiro é um dos elementos estruturantes da nossa forma de falar. Jamais podemos entender como elemento periférico. Ao longo de mais de três séculos de escravização, milhões de africanos de diferentes regiões especialmente da África Centro-Ocidental, trouxeram consigo línguas como o quimbundo, o quicongo e o iorubá. Essas línguas não desapareceram, elas se misturaram ao português, produziram adaptações e deixaram marcas profundas na fonética, na sintaxe e no léxico do Brasil.
Quando observamos construções como “os menino”, frequentemente tratadas como “erro”, estamos diante de um fenômeno linguístico que pode ser melhor compreendido à luz do contato entre línguas. Em muitas línguas bantu, por exemplo, a marca de plural não se distribui da mesma forma que no português padrão. A pluralidade pode estar concentrada em um elemento da frase, (no caso, o artigo) sem necessidade de concordância redundante. Assim, ao dizer “os menino”, o falante já indica pluralidade no artigo, tornando desnecessária, dentro dessa perspectiva a marcação no substantivo.
Esse tipo de estrutura revela uma lógica interna consistente, não é uma ausência de conhecimento. A ideia de que há uma “falha” nessa construção frasal, nasce de uma perspectiva normativa da língua, que desconsidera os processos históricos de formação do português brasileiro. A linguística moderna, ao contrário, entende essas variações como sistemas legítimos, que seguem regras próprias e refletem trajetórias sociais específicas.
Outro exemplo significativo é a troca do “R” pelo “L”, como em “pranta” em vez de “planta” ou “craro” em vez de “claro”. Esse fenômeno pode ser associado a processos de adaptação fonológica comuns em situações de contato linguístico. Em diversas línguas africanas, os sons vibrantes e laterais não se organizam exatamente como no português europeu, o que leva a reconfigurações na pronúncia quando há aprendizagem de uma nova língua em condições adversas.
Essas marcas fonéticas e sintáticas são resultado de processos históricos concretos, atravessados por violência, resistência e recriação cultural. O português falado no Brasil, especialmente nas camadas populares, guarda essas memórias linguísticas como vestígios vivos de um passado que ainda se faz presente.
Nesse sentido, é fundamental compreender que a língua não é neutra. Ela carrega relações de poder. Ao estigmatizar formas como “os menino” ou “nós vai”, a sociedade está apenas julgando uma estrutura gramatical e consequentemente o sujeito que a utiliza. Trata-se de um mecanismo de exclusão que associa determinadas formas de falar a falta de instrução ou inferioridade social.
É justamente nesse ponto que o pensamento da intelectual Lélia Gonzalez se torna essencial. Ao propor o conceito de “pretuguês”, a autora chama atenção para a presença africana na constituição do português brasileiro. Para ela, aquilo que muitas vezes é visto como “erro” é, na verdade, expressão de uma herança cultural negra que foi historicamente silenciada.
O “pretuguês”, segundo Gonzalez, além de uma variação linguística, é um marcador de identidade. Ele evidencia como a língua portuguesa, no Brasil, foi africanizada. Palavras, ritmos, entonações e estruturas sintáticas revelam essa influência, mesmo quando não são reconhecidas como tal. É uma forma de resistência simbólica que sobreviveu à tentativa de apagamento cultural.
Além das construções já mencionadas, podemos observar outros exemplos dessa herança. O uso de “a gente” como pronome coletivo, a redução de concordâncias (“as coisa bonita”), a simplificação de tempos verbais e a preferência por estruturas mais diretas são traços que dialogam com padrões de outras línguas em contato. No plano lexical, palavras como “moleque”, “caçula”, “dendê” e “quitanda” são de origem africana e fazem parte do cotidiano brasileiro.
Estudiosos como Yeda Pessoa de Castro e Ataliba de Castilho têm demonstrado que o português brasileiro se desenvolveu em um contexto multilíngue. Não é somente uma “corrupção” do português europeu, são formas de uma língua que se constituiu a partir do encontro, muitas vezes forçado, entre diferentes sistemas linguísticos.
É importante considerar o contexto de transmissão dessas formas. Durante o período colonial, a população africana e afrodescendente teve acesso limitado à educação formal. O aprendizado do português ocorreu, em grande medida, de forma oral e em condições de desigualdade. Isso favoreceu processos de simplificação e adaptação, que hoje são parte constitutiva da língua falada no país.
Ao analisar essas construções com rigor, percebemos que elas obedecem a princípios de economia linguística. Marcar o plural apenas uma vez, por exemplo, torna a comunicação mais eficiente sem comprometer o entendimento. A língua tende naturalmente a esse tipo de ajuste, e isso não é exclusivo do português brasileiro.
Portanto, compreender a herança das línguas africanas no Brasil exige reconhecer influências pontuais. É necessário rever concepções arraigadas sobre “certo” e “errado” na língua. Não é apenas uma questão gramatical. Deve-se compreender histórias, culturas e identidades que contribuíram sobremaneira para a formação do país.
Ao final, estudar essas variações é um exercício de escuta das vozes que foram marginalizadas, mas que continuam a moldar o português brasileiro. Como nos lembra Lélia Gonzalez, o “pretuguês” não é desvio: é memória, é resistência e é, sobretudo, parte legítima da nossa língua.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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