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A realização do segundo turno presidencial previsto para domingo não acontecerá em Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, em Portugal. A decisão foi formalizada pela presidenta da câmara (prefeita), Clarisse Campos, que comunicou à Comissão Nacional de Eleições (CNE) que o concelho não reúne condições mínimas para receber os eleitores, em razão da calamidade provocada pelas cheias do Rio Sado.

Desde o início das inundações, na quarta-feira da semana anterior, 143 pessoas foram retiradas de suas residências. As cheias resultam do transbordamento do Rio Sado, associado ao mau tempo provocado pelas depressões Kristin e Leonardo, que alagaram a Avenida dos Aviadores e grande parte da baixa da cidade.

Erguida às margens do Rio Sado, Alcácer do Sal é uma das cidades mais antigas de Portugal, com ocupação humana que remonta a milênios, passando por fenícios, romanos e mouros, que deixaram marcas visíveis na arquitetura e na configuração urbana dominada pelo castelo no alto da colina. Historicamente ligada à navegação fluvial, à produção de sal e ao comércio, a cidade preserva um traçado que combina memória histórica e paisagem natural ampla, aberta sobre o estuário. O nome Alcácer tem origem árabe. Vem de “al-qaṣr”, que significa “o castelo”, “a fortaleza” ou “o palácio fortificado”. É um dos lugares preferidos desta que vos escreve em Portugal, onde teve oportunidade de aproveitar intensamente a vida cultural, gastronômica e as belas paisagens que a cidade proporciona.

A autarca de Alcácer relatou que a opção vinha sendo ponderada desde o dia anterior, em articulação com presidentes de junta, e foi concretizada após nova avaliação do cenário no terreno. Como explicou, há localidades isoladas onde funcionariam mesas de voto e a zona baixa da cidade permanece submersa, o que inviabiliza a logística do processo eleitoral.

Estrada submersa

A decisão foi determinada por causa da situação de calamidade decretada pelo Governo até domingo. Clarisse Campos afirmou que o quadro atual é mais grave do que o observado na semana anterior e reiterou que, nas circunstâncias presentes, seria impossível garantir a normalidade do ato eleitoral.

Durante visita às áreas alagadas, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reconheceu que municípios afetados podem adiar a votação quando não houver condições. Ao comentar o tema, declarou: “A palavra decisiva é do presidente de câmara, ou da presidente de câmara, não é nem do Presidente da República, nem do Governo, nem da Assembleia da República”, acrescentando que “não havendo condições, está lá previsto, em caso de calamidade, exercer esse poder e, portanto, permite, que as eleições sejam oito dias depois, sete dias depois”.

Questionada se as palavras do chefe de Estado influenciaram a deliberação, Clarisse Campos respondeu que a medida já estava praticamente tomada, embora tenha considerado correta a interpretação legal apresentada por Marcelo.

Pela legislação, uma nova data deverá ocorrer na semana seguinte, mas a autarca informou que aguarda a posição formal das entidades competentes.

Enquanto isso, a CNE mantém a orientação nacional para a realização das eleições, recomendando que eleitores confirmem seus locais de voto pelo número 3838 ou pelo site do recenseamento eleitoral. O órgão informou que ajustes pontuais de locais de votação foram feitos em alguns concelhos devido às intempéries e que medidas estão sendo adotadas para assegurar a votação onde for possível.

Ao percorrer Alcácer do Sal, Marcelo Rebelo de Sousa classificou o cenário como o mais severo em termos de inundações no território nacional. Disse tratar-se da situação mais grave do país e descreveu o contexto como um “teste à resistência”.

Do ponto mais alto da cidade, próximo à Pousada do Castelo, o presidente observou a extensão das águas e considerou a visão “é impressionante”. Destacou a preocupação com moradores retirados de suas casas, com comerciantes que perderam bens e com populações isoladas.

O chefe de Estado explicou que a sequência de dias e noites sob o mesmo quadro agrava o desgaste físico e emocional, sobretudo entre os mais idosos.

Marcelo afirmou que, apesar das consequências climáticas no país, poderá fazer uma comunicação ao país no sábado para incentivar o voto no domingo. O tema deverá ser discutido em reunião com o primeiro-ministro, Luís Montenegro.

Clarisse Campos relatou que a estrada para Grândola está submersa e que a ponte de pedestres praticamente desapareceu sob a água. Afirmou que equipes de ação social têm mantido contato com aldeias isoladas e que, em Santa Catarina, foi mobilizada uma moradora para garantir refeições a idosos assistidos em domicílio.

A presidenta da câmara corroborou com a fala de Marcelo e disse que o que mais a afeta é ver comerciantes e moradores perderem “os negócios de uma vida, as casas, as habitações, com tudo destruído”. Também relatou que já não é possível distinguir maré baixa de maré alta, pois o nível do rio permanece estável, enquanto barragens seguem descarregando.

Fotos: Câmara Municipal de Alcácer do Sal

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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