Publicado em: 9 de fevereiro de 2026
A Universidade Federal do Pará não pode ser compreendida apenas como uma instituição administrativa ou um espaço físico de ensino superior. Ela é, antes de tudo, uma obra coletiva do tempo. Um processo histórico em permanente construção, tecido pela ação contínua de gerações que compreenderam o conhecimento como bem público, direito social e compromisso ético com a sociedade brasileira, especialmente com a Amazônia.
A universidade não nasce pronta, nem se esgota em gestões ou mandatos. Cada período histórico acrescenta camadas, tensões, avanços e contradições que moldam sua identidade. Cada gestão contribui com escolhas que deixam marcas duradouras, mas nenhuma delas, isoladamente, é a universidade. A UFPA é resultado de um acúmulo histórico construído por professores, estudantes, técnicos administrativos e pela comunidade, em um esforço coletivo de produção de conhecimento, formação humana e intervenção social.
Em um mundo cada vez mais orientado pela velocidade, pela lógica do imediatismo e pela mercantilização de todas as esferas da vida, a universidade pública afirma um outro tempo: o tempo da reflexão, da dúvida, da maturação do pensamento. Pensar exige pausa, exige método, exige disposição para o erro e para a revisão. A formação universitária não se limita à transmissão de conteúdos; ela forma sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade, questionar estruturas consolidadas e imaginar futuros possíveis.
Estar situada na Amazônia impõe à universidade um desafio singular e inadiável. Trata-se de um território marcado por complexidade extrema, por conflitos históricos, por disputas globais e por profundas desigualdades sociais. Aqui, natureza e sociedade não se separam de forma simples: entrelaçam-se em processos econômicos, culturais, políticos e simbólicos. A universidade amazônica não pode reproduzir epistemologias coloniais que reduzem o território a objeto de exploração ou a laboratório distante. Ela deve reconhecer, dialogar e aprender com os saberes que emergem da floresta, dos rios, das cidades e dos povos que habitam esse espaço geográfico.
O conhecimento produzido na universidade não é neutro. Toda teoria nasce situada; todo método carrega escolhas; toda pesquisa implica consequências. Pensar a Amazônia a partir da Amazônia significa assumir uma ciência implicada, crítica e socialmente responsável. Significa romper com a lógica extrativista do saber — aquela que coleta dados sem compromisso — e afirmar um projeto acadêmico comprometido com a vida, com a justiça social e com a sustentabilidade.
A universidade pública é também um espaço de contradições. Nela convivem projetos distintos de sociedade, disputas de poder, tensões institucionais e divergências legítimas. Essa pluralidade não é um obstáculo, mas uma condição fundamental da vida universitária. O dissenso, quando sustentado pela ética do diálogo, fortalece o pensamento crítico e amplia horizontes. Uma universidade que busca a homogeneidade empobrece; uma universidade que acolhe a diferença se fortalece.
Nesse contexto, o financiamento público da universidade não pode ser compreendido como gasto, mas como investimento estratégico. Investir em ensino, pesquisa e extensão é investir na possibilidade de futuro. Cada corte orçamentário compromete não apenas o presente, mas gera impactos profundos sobre gerações inteiras. Da mesma forma, cada política de fortalecimento da universidade reverbera para além de seus muros, alcançando comunidades, territórios e trajetórias de vida que dependem da produção de conhecimento público.
A formação universitária transforma sujeitos, mas também é transformada por eles. Os estudantes que ingressam carregam histórias, expectativas e desigualdades sociais; ao longo do percurso acadêmico, constroem consciência crítica, pertencimento e responsabilidade coletiva. A universidade é, nesse sentido, um espaço de travessia entre o indivíduo e o coletivo, entre o presente vivido e o futuro possível.
A crítica à universidade pública, quando ética e comprometida, é parte constitutiva de sua vitalidade. Questionar práticas, denunciar desigualdades internas e exigir coerência entre discurso e ação não enfraquece a instituição; ao contrário, fortalece-a. O verdadeiro risco está na indiferença, no silêncio e na naturalização das injustiças. Uma universidade viva é aquela que se permite revisar, repensar e reconstruir continuamente, sem abdicar de seus princípios fundadores.
A universidade amazônica é também um gesto de resistência: resistência ao apagamento histórico, à desvalorização da ciência, à mercantilização do saber e à negação do pensamento crítico. Ela afirma que conhecer é um ato profundamente humano e que educar é um compromisso ético com a dignidade.
Pensar a universidade pública é, portanto, pensar o próprio sentido de futuro — não como promessa abstrata, mas como tarefa coletiva que se constrói diariamente no território, na sala de aula, na pesquisa e na extensão. Defender a Universidade Federal do Pará é defender o direito de a Amazônia pensar a si mesma. É afirmar que o conhecimento público continua sendo uma das mais potentes ferramentas de transformação social, de justiça territorial e de construção de um país cada vez mais democrático.






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