Publicado em: 28 de fevereiro de 2026
Sustentabilidade como bússola moral, justiça social e base material para uma vida habitável
Há um brilho sedutor na promessa tecnológica, um evangelho do silício que nos sussurra que não existe abismo que a engenhosidade humana não possa atravessar. Seduzidos por essa luz, corremos o risco de uma amnésia coletiva: a de acreditar que a vida acontece principalmente nas telas, nos dados, na nuvem. Mas não somos códigos flutuando no éter. Somos criaturas de carbono, água e solo — e também de vínculos, trabalho, cuidado e fragilidade — atadas aos ciclos de um planeta que respira e às condições sociais que tornam uma vida possível.
A ideia de que a inteligência artificial nos redimirá é uma esperança antiga vestida com roupas novas. Dizem-nos que para cada ferida do mundo haverá um curativo digital; que o aquecimento global será “otimizado”, que o clima será ajustado como quem calibra um termostato, que a devastação será corrigida com a elegância de uma atualização de sistema. Mas o colapso das florestas, a exaustão dos oceanos e o silêncio crescente das espécies não são erros de código esperando por um patch. E tampouco a pobreza, o adoecimento mental, a insegurança alimentar e a violência cotidiana são falhas de interface. São fraturas na nossa forma de habitar o mundo, crises que exigem não apenas conserto, mas cultivo; não apenas técnica, mas uma transformação do olhar e das prioridades.
Não se nega a potência da máquina. Ela estendeu nossos braços, emprestou-nos velocidades e memórias antes impensáveis, ampliou diagnósticos, conectou distâncias. Ainda assim, sua grandeza é ambígua. O silício, por si só, não tem bússola moral: ele acelera a direção que escolhemos. A otimização, esse mantra moderno, não é sinônimo de uma vida boa. Um algoritmo pode encontrar o caminho mais curto entre dois pontos, mas é incapaz de perguntar quem será empurrado para fora da estrada: quem respira a fumaça, quem vive ao lado do lixão, quem mora na planície de inundação, quem não tem escolha a não ser aceitar o risco.
Por isso, é preciso desmontar a fantasia de leveza do mundo digital. A “nuvem” não flutua: ela tem peso, corpo e fome. É feita de aço e concreto, de quilômetros de cabos, de lítio e outros minérios arrancados das entranhas da terra. Ela bebe água para resfriar servidores febris e devora energia para manter o presente iluminado, cobrando seu preço em ar, água e chão. E essa conta raramente é paga por quem mais lucra com o conforto.
O resto — o que sustenta o “milagre” — quase nunca vira metáfora. Antes do brilho, há buraco, poeira, turno e risco. No meio, há estradas, portos e prazos que consomem tempo humano. Depois, há descarte: o lixo eletrônico mudando de nome para caber longe do olhar, como se jogar fora fosse apagar. O digital tem chão; e esse chão tem gente.
A crise climática, porém, não é só horizonte: é rotina, sobretudo nas cidades. Ela aparece como ilha de calor que transforma asfalto em febre e agrava doenças; como chuvas extremas que encontram encostas ocupadas, drenagem insuficiente e moradias frágeis; como mobilidade exaustiva, em que ônibus lotado e trânsito longo roubam horas de vida e ampliam a desigualdade do tempo; como saneamento incompleto, que mistura vulnerabilidade social e vulnerabilidade ambiental numa única ferida — água contaminada, esgoto a céu aberto, córregos transformados em valas, infância exposta. Sustentabilidade, então, deixa de ser ideia abstrata e vira uma pergunta simples e brutal: que cidade estamos construindo — e para quem ela é respirável?
É aqui que a sustentabilidade deixa de ser palavra administrativa e volta a ser o que realmente é: um ato radical de lucidez e justiça. Não um verniz verde para relatórios corporativos, nem um acessório moral para a continuidade do mesmo. Sustentabilidade é aceitar a finitude do mundo não como derrota, mas como mapa. É a engenharia moral aplicada ao chão áspero da realidade — e inclui decidir que qualidade de vida não é luxo, é critério. Vida boa não é apenas acesso à tecnologia; é ar respirável, água limpa, comida de verdade, cidade caminhável, trabalho digno, moradia segura, tempo para descanso, laços comunitários, proteção contra o adoecimento e a fome. Sem isso, falar de “futuro” é falar de um futuro seletivo.
A vida é uma dança de interdependências em que nada existe isoladamente. A biodiversidade não é um inventário de peças de reposição; é o sistema imunológico da Terra — e, por extensão, o nosso. Quando uma espécie se cala, o silêncio não é apenas ausência: é uma ruptura na música que mantém o mundo habitável. Mas também é uma ruptura social: a pesca que some, o alimento que encarece, a água que falta, a doença que avança, a migração forçada, o conflito por território. A natureza não entra em colapso “lá fora”; ela entra em colapso dentro da economia doméstica, dentro do corpo, dentro da infância, dentro do prato.
A verdadeira sustentabilidade é, portanto, uma política de dignidade e reconexão. Ela reconhece que não podemos construir ilhas de prosperidade tecnológica cercadas por oceanos de degradação biológica e miséria, porque a vida não se compartimenta. O ar que envenenamos é o mesmo que entra nos nossos pulmões; a água que contaminamos é a mesma que compõe nossos corpos. Tratar a Terra como almoxarifado é, no limite, tratar pessoas como descartáveis — e uma sociedade que aceita descartáveis não constrói futuro: administra ruínas.
O futuro não é um destino inevitável traçado por máquinas, nem uma linha reta rumo à automação total. O futuro é um território em disputa; é um jardim que precisa ser cultivado. A escolha decisiva não é entre tecnologia e natureza, mas entre dois modos de habitar o mundo: a arrogância de quem se acha proprietário da vida e a humildade de quem se reconhece parte dela — com responsabilidade sobre a casa comum e sobre quem vive nela. Sustentabilidade é a arte de manter a casa de pé, mas também de garantir que ela seja habitável por dentro: não apenas resistente por fora, e não apenas para alguns.
A Terra não é um apêndice da nossa máquina. Nós é que somos, e sempre seremos, filhos do seu solo. E é tempo de aprendermos a viver como quem pretende ficar — juntos.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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