Publicado em: 26 de agosto de 2025
Desde o telefonema de Fernando Meirelles, em uma tarde preguiçosa, dizendo
que gostaria de filmar meu livro “Pssica”, fiquei entusiasmado. O cara tem um
Oscar na estante de sua casa. Começaram as démarches sobre a compra dos
direitos. Demorou. Houve aquele presidente, uma pandemia. Seria um filme.
Depois, Elizabêta, da Netflix contou que não havia gostado do primeiro
tratamento, roteiro feito pelo ótimo Bráulio Mantovani, autor, entre outros, de
“Cidade de Deus”. Alguns dias depois, ela decide reler e tem a impressão que
daria uma boa série, com capítulos suficientes para dar conta de todas as
peripécias no livro. Agora, Quico Meirelles também estava envolvido e mais
dois roteiristas entraram na equipe, todos apaixonados pelo livro. Mas uma
coisa é o livro, outra o cinema, a série. Disso já sabia. Sou um escritor, mas
gosto muito de cinema. Também sei que são gêneros diferentes. É como
quando escrevo uma peça de teatro. Ali, no papel, é uma peça literária.
Quando sobe ao palco, é um trabalho teatral, coletivo. Há mudanças de cenas,
de palavras que atores preferem, que ficam melhor para dizer. Assim o roteiro.
Personagens são somados em uma só cena, cenários e em benefício do
trabalho para esse outro veículo, há novos personagens, substituindo os do
livro. O cinema quer contar a minha história, mas do seu jeito. Li e aprovei o
roteiro. Estive no set admirando a parafernália, técnicos, máquinas e os
Meirelles trabalhando. Conheci Domitila Cattete e aprovei a escolha. Foi muito
bom ter vindo filmar aqui. Cenas da natureza posando para lentes
profissionais. Técnicos e atores de fora, misturados aos locais. Veio um
profissional de Madri, especializado nas cenas de rio em velozes jet-skis e
canoas. Nosso sotaque. Sim, alguns atores locais mereciam mais espaço, mas
foi uma escolha entre a O2 e a Netflix. Um produto para 190 países. Nem sei
nomear todos. Gostei muito do resultado. Houve alguns erros em nome de
cidades, mas lembrem, não é um documentário e sim ficção. Não pretendo
discutir outras críticas por uma questão de ética. Gostei muito da performance
do elenco. Agora, sempre disse que um livro faz sucesso e é transformado em
filme. Você lê o livro e assiste ao filme. Na saída, o que é melhor?
Provavelmente você dirá que gosta mais do livro. A razão está em que o livro a
fez criar um filme absolutamente pessoal. Deu cara, corpo, voz aos
personagens. O seu filme. A série, apresenta na tela aquilo que o diretor
desejou que você assistisse. Sua maneira de contar a história. Quanto a mim,
desejo que leiam o livro. Faz dez anos de seu lançamento e a série multiplica
brutalmente o alcance, também provocando a compra do livro. Primeiro lugar
no Brasil, sétimo nos Estados Unidos, quarto na França, onde deverá ser
relançado pela Asphalte Editions. Fernando e Quico pretenderam e
conseguiram acertar no ritmo das cenas, emulando a velocidade do livro. A
presença da atriz colombiana foi um achado. Excelente, assim como Preá,
Gigante, Amadeu e Domitila. Tenho outros livros com direitos alugados para
fechar e filmar. Recentemente os direitos de “Os Éguas”, foram renovados.
Espero que usem mais técnicos e atores locais, mas só de mostrar para todo o
mundo, 190 países, abre enorme espaço para nós que somos tão insulares e
claro, para escritores locais de alta qualidade. Deles, estamos cheios,
aguardando sua chance. Venham, venham todos. Estao atrasados, mas há
para mostrar e assistir.
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