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Olho para essa praça tão querida, República, também chamada “Parque João Coelho”, neste domingo de fevereiro, chuvoso, melancólico e praticamente vazia e fica difícil não lembrar tudo o que vi e vivi nessas calçadas largas, as alamedas, monumentos e infinitos momentos. O piso da Presidente Vargas era de paralelepípedos, mas no dia em que foi asfaltada, desci e fui passear de bike. Havia pequenos grupos de crianças que desciam para brincar. A praça era nosso playground. As calçadas foram revitalizadas várias vezes. Nesta época invernosa, andando de bike, havia que desviar de buracos e uma profusão de mangas que caíam pela força do vento. Lembrei agora do anão Oswaldo, que vendia bilhetes da loteria, sempre de paletó e uma sacola, às vezes, também com jornais. Era uma figura. Eu o olhava com respeito e admiração. No dia 5 de setembro, Dia da Raça, desfilavam os grandes colégios da cidade. Em uma das vezes, desfilei garbosamente com minha bike. Talvez tenha sido somente nesta oportunidade. Como era baixinho e encabulado, não era escolhido para ser qualquer destaque, como era meu amigo Protasio, que levava a bandeira do Nazaré. Sobre o Círio, que ainda é o máximo, assistia do apartamento de meus pais, buscando uma nesga entre parentes e convidados. Após a passagem, descíamos para comprar brinquedos de miriti, roque roques, plec plecs e etc. Era uma festa de pessoas e suas famílias. Quando criança, havia no cruzamento com a Oswaldo Cruz uma propaganda de um cigarro, “Depois de um Aspirante, só outro Aspirante”. Meu pai chegou a compor um jingle, certa vez, para esse cigarro. Em frente, o edifício que era chamado “dos Comerciários”, onde moravam vários amigos, tinha no térreo, o restaurante Flórida, quase na esquina com a Aristides Lobo e na outra, as lojas RM Modas, de Romulo Maiorana, iniciando suas atividades. Do outro lado da rua, a Casa Amazônia, que vendia de um tudo (saudades, Edwaldo Martins) e em uma galeria, o Foto Galeria. Havia também uma revistaria, dos irmãos Esteves, onde comprávamos revistas de faroeste e figurinhas. Hoje, meu neto coleciona as estampas de Stranger Things, que compro na Banca do Alvino, que não existia naquela época. No térreo do meu prédio havia a Salevy, de Samuel Levy, a quem chamava de Tio Samuca, uma espécie de shopping center, ou multimarcas. Na época de Natal, instalava barracas na calçada e fazia a festa. Havia até a chegada do Papai Noel, que já contei em outra crônica. Na esquina havia um bar, muito bem frequentado.
O que me fez, mesmo, lembrar disso tudo, olhando para a praça, quase vazia em um domingo de carnaval, foi exatamente a festa de Momo. A praça ficava lotada. A maioria era de blocos de sujos, batendo em panelas, por exemplo. Havia figuras da cidade em um misto de medo e surpresa, como um gorila, falsamente seguro por uma corda, o doutor “passaopau” e tantos outros, pessoas adultas que se fantasiavam para brincar, sem perigo qualquer de assédio. Mas o que me assustava era a chegada dos Índios. Andavam em fila indiana, pintados de vermelho, gritando aquele uh uh uh que seria um canto de guerra. Uma vez, ouvi ao longe o ruído e alertas  de outras pessoas. Os pele vermelhas vêm aí. Foi o bastante para em completo pânico disparar de volta ao meu prédio, de onde assisti à brincadeira. Havia os desfiles de escolas de samba. Eu dormia cedo e praticamente não assistia. Mas ainda tenho lembranças de pessoas de chapéu, terno vermelho, calças e sapatos brancos, que seriam sambistas do Boêmios da Campina, aguardando seu momento. Minha querida Biá, que criou a mim e a meus irmãos, postava-se na janela a noite inteira. Havia a “rumbeira”, que hoje nada mais é do que a sambista, ou até a rainha da bateria, cargo tão disputado, agora. E então, alguns anos depois, já taludo, desfilei na avenida pelo Bloco da Bandalheira, em uma época genial, onde espontaneamente, as pessoas dos bairros se reuniam e vinham até o Centro, em grupos chamados Piratas da Batucada e muitos outros. A praça, lotada de pessoas aguardando a passagem. Mais ainda, no renascimento do Império de Samba Quem São Eles, em seu segundo desfile, lá estava eu, na ala de compositores, cantando “ Era gente, cobra, cobra, gente, e no riomar se encantou”, melodia de meu pai Edyr e letra minha, vencedora do primeiro festival de samba de enredo da escola, na voz do mano Edgar.
Há poucos anos houve uma reforma e hoje a praça está bem bonita, embora com problemas de gerenciamento. Virou um playground para mim e meu cachorro Antonio. Muitos outros moradores da vizinhança também vêm. A Banca do Alvino está lá, lutando contra o abandono pelos leitores, outra banca é a que faz chaves, também sobrevivendo. Há o Teatro Waldemar Henrique, outro que tal e ao lado, o ICA, da Ufpa, que na minha infância era Escola de Química.  Aos domingos tem a feira, algumas atrações e há quem goste. Mas neste domingo chuvoso, me bate uma melancolia de tudo aquilo que vivi ali. Penso que ela a praça, também sente saudade.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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