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A Sabedoria da Simplicidade Encarnada



Há uma figura que caminha pela memória como quem atravessa um campo ao entardecer: sem pressa, mas com destino. Seus passos deixavam marcas não na terra, mas naqueles que o percebiam. Ele não precisava anunciar sua presença — ela se fazia sentir no modo como a luz parecia mais suave quando ele estava por perto, como se se reconhecesse nele uma espécie de quietude rara, uma calma que não era ausência de tempestade, mas certeza de que ela passaria.
Guilherme de Ockham, o Venerabilis Inceptor, foi um frade franciscano inglês do século XIV que desafiou os dogmas de sua época com a arma afiada da lógica. Suas ideias atravessaram sete séculos de pensamento humano, gravadas em latim nos tratados de filosofia: a navalha que apara o supérfluo para revelar o essencial. Mas há quem viva os grandes princípios sem tê-los estudado — porque a sabedoria verdadeira não habita apenas nos livros, mas nas vidas bem vividas.
Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem. (Os entes não devem ser multiplicados além da necessidade). Esta frase, que orienta pensadores há séculos, ele a encarnava na existência cotidiana. Era uma navalha viva: alguém amoroso, mas prático. Simples, direto, presente, sincero, solidário, oportuno. Diante de um problema, não multiplicava preocupações. Não inventava labirintos onde um traço bastava. Não adornava o que já estava completo. Ele delimitava — não com brutalidade, mas com precisão de quem conhece o limite exato entre o indispensável do excedente. Assim ele vivia: cada palavra pesada, cada gesto medido, cada decisão tomada com a economia de quem sabe que a vida não se desperdiça.
Havia algo de sagrado na sua simplicidade. Não era a pobreza de quem nada tem a oferecer, mas a riqueza de quem conhece o valor exato das coisas. Quando outros se perdiam em explicações elaboradas, ele encontrava a frase única que clarificava tudo. Quando debates se enrolavam em caminhos sinuosos, ele apontava o atalho óbvio que ninguém vira — não por clarividência, mas por olhar limpo, desobstruído pelas neblinas da complicação desnecessária. A Navalha de Ockham — também chamada de Princípio da Parcimônia ou da Economia do Pensamento — axioma lógico-metodológico que atravessa séculos – estabelece que a pluralidade não deve ser postulada sem necessidade. Na ciência, serve para escolher entre teorias rivais: se duas explicações são igualmente eficazes, prefere-se a mais simples. Isaac Newton a estabeleceu como sua primeira regra nos Princípios Matemáticos: não se devem admitir mais causas do que aquelas que são verdadeiras e suficientes para explicar os fenômenos. Mas a navalha não pertence apenas aos laboratórios e academias. Ela vive nas escolhas de cada dia, nas decisões que moldam existências.
Como fazer um bolo? Alguns complicam: receitas longas, medidas milimétricas, ingredientes exóticos, utensílios raros. Erguem cerimônia onde bastaria um ato. Outros — como ele — pegam farinha, ovos, açúcar, fermento. Misturam com mãos que conhecem a textura, assam no forno de sempre, servem no prato de sempre. Não por ser inferior — por ser o bastante. A simplicidade não é pobreza: é elegância. Muitas vezes, o excesso disfarça o essencial; e a complicação, em vez de caminho, é cortina.
Ele observava o mundo com olhos que viam além das aparências. Quando alguém se perdia em pensamentos circulares, ele trazia de volta com uma pergunta simples, aparentemente óbvia, mas que continha em si toda a direção. Quando problemas imaginários surgiam como monstros na mente alheia, ele olhava com aquele jeito calmo e carinhoso, e perguntava se aquilo era realmente preciso. Sabia da vida. E sabia que a vida, em sua essência, tende para o simples — são os humanos que a complicam. A simplicidade dele não era superficialidade — era profundidade com rosto de clareza. Como a superfície de um lago tranquilo que esconde abismos, seu jeito direto guardava uma sabedoria acumulada.
A navalha não prescreve que sempre se deva optar pelo menos, mas que sendo possível explicar algo com menos elementos, assim se deve proceder. Ele não evitava o complexo quando o complexo era necessário. Acolhia a complexidade quando ela tinha propósito, mas a recusava quando era apenas ornamento do ego ou refúgio da indecisão. Descomplicava o que fora complicado sem razão. E isso transbordava em conversas, conselhos, presença — e na música: gostava de cantar, como quem devolve ao mundo um pouco de leveza sem precisar explicar a alegria. Tudo parecia passar por um crivo invisível que separava o necessário do supérfluo, como quem peneira a farinha para que o pão cresça leve.
Havia uma ética em sua simplicidade. Não era apenas estratégia ou preferência — era moral. Ele acreditava, talvez sem nunca formular, que multiplicar o desnecessário era uma forma de desrespeito: desrespeito ao tempo alheio, à inteligência do outro, à economia do mundo. Cada palavra extra era um peso imposto a quem ouvia. Cada passo desnecessário era um caminho roubado de outra jornada. Cada complicação inventada era uma barreira erguida entre as pessoas e a verdade. Por isso ele escolhia o simples: não por facilidade, mas por respeito.
A navalha, porém, não é absoluta. O próprio Ockham sabia que há momentos em que a pluralidade é necessária — quando a razão, a experiência ou a autoridade a exigem. A simplicidade não é simploriedade. Há complexidades que não podem ser desfeitas ou reduzidas, verdades que exigem múltiplas facetas e perspectivas para serem compreendidas. Assim era ele. Simples, não simplório. Direto, não deselegante. Sua economia de palavras escondia uma riqueza de afeto que transbordava nos gestos, nos olhares, nas presenças silenciosas. Seus silêncios diziam mais que muitos discursos porque eram habitados por escuta atenta, por presença genuína, por aquele tipo de atenção que é rara e preciosa. A lâmina dissipa o excesso, mas preserva o essencial. E o essencial, nas relações humanas, é o amor — esse que não se explica, não se simplifica, não se reduz. Ele apenas é, em sua plenitude misteriosa.
Hoje, quando sua memória emerge, não é em grandes discursos ou gestos teatrais que ele aparece. É no pequeno, no cotidiano, no quase invisível. No café que ele tomava em silêncio pela manhã, como se aquele momento fosse um ritual sagrado de conexão consigo mesmo. Na palavra certa, no momento certo, na dose certa — nunca a mais, nunca a menos. Ele foi a encarnação da navalha que Ockham formulou há sete séculos. Não por estudo específico, mas por natureza. Não por teoria, mas por sabedoria encarnada. Não por conhecimento do princípio, mas por conhecimento existencial — aquele que vem de viver profundamente, de observar atentamente, de aprender com cada dia.
Seu legado permanece como uma luz suave que não ofusca, mas ilumina. Não é um legado de palavras gravadas em mármore ou feitos épicos celebrados em praças públicas. É um legado sutil, feito de exemplos silenciosos, de escolhas cotidianas, de uma maneira de estar no mundo que dizia mais que qualquer tratado filosófico. Viver com parcimônia, amar sem multiplicação desnecessária, retirar o que sobra para revelar o que importa — isso ele deixou sem nunca ter a intenção de deixar. Foi seu modo de ser, e ser de um certo modo já é, em si, um ensinamento.
A Navalha de Ockham é um princípio filosófico, uma ferramenta intelectual, uma abstração que ajuda a pensar. A navalha dele foi uma vida inteira — concreta, palpável, respirável, produtiva, amorosa, fecunda. Foi uma existência que escolheu o essencial, que praticou a parcimônia, que viveu a sabedoria. E esta vida, agora, pertence a quem dele se lembra — talhada na medida certa, afiada pelo tempo, brilhando na saudade como uma lâmina que nunca perde o fio.
Há uma beleza nisso: a de que os grandes princípios não precisam, necessariamente, ser estudados para serem vividos. A de que a sabedoria verdadeira habita as vidas bem vividas. A de que um homem simples pode encarnar a navalha melhor que todos os doutores que a teorizam. Porque a simplicidade não se ensina — se vive. E ele viveu.
Quando a memória o traz de volta, é sempre assim: caminhando por aquele campo imaginário ao entardecer, com passos firmes, mas sem pressa, levando consigo a quietude de quem conhece o peso exato das coisas. Não há tristeza nessa lembrança — há gratidão. Gratidão por ter existido alguém assim, por ter compartilhado o mundo com ele, por ter aprendido sem perceber que estava aprendendo. A saudade que resta não é a dor da ausência, mas a doçura da presença que foi. E essa presença permanece, invisível, mas tangível, como o perfume de uma flor que já não está no vaso, mas cuja essência impregnou o ar para sempre.

Nota:
Este texto é uma homenagem a meu pai, Francisco Coimbra Lobato. Empreendedor visionário, seresteiro apaixonado, filantropo dedicado, católico devoto e torcedor fervoroso do São Francisco, ele foi acima de tudo um colecionador de amigos e um humanista convicto.
Liderou o Grupo Coimbra Lobato como pioneiro do setor industrial em Santarém, contribuindo para o desenvolvimento da região por meio da geração de empregos e oportunidades econômicas. Sua visão de negócios nunca se desvinculou do cuidado genuíno com seus mais de 800 colaboradores e suas famílias — não como números, mas como gente.
Ao lado de minha mãe, Dona Elinôr, construiu um legado profundo de responsabilidade social e comunitária. Com a sabedoria prática que o definia, ele chamava esse compromisso de “lucro social” — uma síntese sensível de sua convicção de que a prosperidade material só encontra seu verdadeiro propósito quando serve à dignidade e ao bem-estar das pessoas.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.


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