Publicado em: 18 de setembro de 2025
Mariah Carey cantou em Belém, num palco megalofantástico e milionário, em formato de vitória-régia, num furo do Combu, evento chamado Amazonia Live, para quase ninguém ver. Ao vivo, pelo menos. A “live” foi transmitida em tempo irreal, depois que o evento terminou.
O toró não deu trégua, afinal, Belém. O evento, como não é nada difícil decifrar, só aconteceu em Belém para embarcar na “moda” do Pará por causa da COP30, como definiu o Fernando Meirelles que, como bom sudestino, enxerga a Amazônia como aquele local a ser explorado e deturpado como a colônia que do Brasil é.
É claro que, para disfarçar um pouco, colocaram cantoras parauaras para “abrirem” para a Mariah. Muito curiosamente, nenhuma delas têm se manifestado politicamente nos últimos tempos, nem quando houve a ocupação da Seduc que mobilizou, inclusive, artistas internacionais. Porém, vejam bem, eu não escrevo isto para fazer qualquer tipo de shamingpara elas. Tenho grande respeito por todas e sou a primeira a defender que absolutamente ninguém é obrigada a se posicionar. Inclusive sei que algumas delas já se expressaram politicamente em outras situações e que são engajadas com causas sociais. Foi apenas uma constatação para voltar para o ponto Mariah.
A diva estadunidense pisou em Belém, fez o show, festejou no hotel com a equipe e foi embora. Nenhuma publicação, nenhuma menção que esteve no Pará, na Amazônia, nada. Muita gente se chateou, mas a verdade é que, se não pagaram para isto, ela não é obrigada.
E por que escolheram justamente a Mariah para cantar em cima do rio Guamá? Bem, é notório que a cantora se mantém neutra em temas político-partidários, apesar de apoiar (inclusive financeiramente) pautas sociais e de direitos civis, especialmente em torno de igualdade racial, direitos das mulheres, apoio à comunidade LGBTQIA+ e ações humanitárias, e utiliza sua própria experiência com o transtorno bipolar para fortalecer campanhas de saúde mental, ajudando a reduzir o estigma e incentivando a conscientização pública.
Por que diabos a produção The Town/Rock in Rio contrataria alguém com outro tipo de engajamento, ao ponto de dizer coisas que deixassem desconfortáveis a Vale, patrocinadora do evento e responsável por tantos crimes ambientais? Ou o governo do Pará ou o do Brasil? Ou que desse pitaco na exploração de petróleo na foz do Amazonas, ou na hidrovia Araguaia-Tocantins, ou nos direitos das populações tradicionais, entre outras cositas más? Vocês acham mesmo que eles iriam arriscar uma Madonna, uma Lady Gaga?
Nada melhor do que uma verdadeira diva que, em pose de estátua, com um timbre cristalino, uma qualidade técnica absurda e um repertório cheio de hits, não usa sua voz pra fazer barulho na terra alheia. Ela não é obrigada. Veio, ganhou seus milhões de dinheiros, tchau. Ninguém tem que julgar. Não a Mariah. Não a Dona Onete, a Joelma, a Gaby Amarantos e a Zaynara. Já todo o resto…
E o que fica para trás um palco megalofantástico para ser desmontado e sabe-se-lá qual impacto ambiental para a flora e fauna do Combu. Perpetua-se para o futuro a Amazônia como um território exótico que continua a ser explorado por quem de fora queira, agora transmitido quase ao vivo para os celulares e televisão da população que nada viu, ouviu, e não ganhou nada com isso.
Foto: Globo/Reprodução









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