Publicado em: 23 de fevereiro de 2026
A Lusofonia é a voz da língua portuguesa nos países que têm o idioma de Luís Vaz de Camões, é a “última nau lusitana” a transportar e a continuar a expandir, desta vez de formal cultural, uma língua em comum a países que formam quadratura navegável de um mundo global proposto por Copérnico e comprovado pelo longo “Século De Ouro” do Império Marítimo Português – que na verdade se estendeu por muito tempo.
Europa, África, América (boa parte dela, lusitana, o Brasil) e Ásia. Onde havia mar havia português, onde havia terra, um “porto de aguada”, ponto de parada para abastecimento de água potável (na carta de Caminha há 23 referências ao líquido precioso) e havia também uma pedra, chamada padrão, um marco e um sentimento de saudade, a “nostalgia” que sente o futuro e na verdade é prospectiva: aponta para o reencontro.
São nove países lusófonos e por ordem do ABC, vamos a eles: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste e foi nesse contexto que pedi à Turma 01- Manhã – da disciplina Literaturas de Língua Portuguesa, do Curso de Letras, do Instituto Ciberespacial (ICIBE) da UFRA que comparassem escritores e poetas da cultura lusófona, em especial a “Atividade – Comparação Lusofônica entre o poema “Mar Português” de Fernando Pessoa e o poema “Para Ti” de Mia Couto”.
O aluno Luiz Fernando Ribeiro Marques apresentou este trabalho, o qual compartilho em minha coluna no Portal Uruá-Tampera. Ele se baseou em dois livros: Fernando Pessoa. Mar Português. Mensagem. Lisboa: Ática,1934, e Mia Couto. Raiz de Orvalho e Outros Poemas. Lisboa: Caminho, 1999.
“A Lusofonia nos poemas ‘Mar Português’ de Fernando Pessoa e ‘Para Ti’ de Mia Couto”.
“A leitura de ‘Mar Português’, de Fernando Pessoa, e ‘Para Ti’, de Mia Couto, permite observar como a língua portuguesa circula e se transforma dentro da lusofonia. Cada texto reflete a realidade sociocultural de seu país, revelando como o mesmo idioma pode expressar visões distintas sobre identidade, pertencimento e relações humanas. Pessoa escreve a partir de um Portugal marcado pela memória marítima e pelo desejo de grandeza histórica, enquanto Couto, moçambicano, usa a língua para reconstruir vínculos afetivos e propor novas formas de existir dentro do legado colonial.
No poema de Pessoa, o vocabulário é enxuto e objetivo, concentrado em substantivos de forte carga coletiva, como ‘mar’, ‘lágrimas’, ‘mães’, dando ao texto um tom reflexivo e de grandiosidade. Já em Couto, o léxico aparece mais íntimo e afetivo, com palavras que sugerem proximidade e entrega emocional. Ao invés de uma ideia de conquista externa, o ‘ti’ do poema moçambicano enfatiza o vínculo humano, mostrando a língua como troca e acolhimento, não como marca de poder ou expansão.
Ao analisar a fonologia, percebe-se que Pessoa aposta em sonoridades mais graves e pausadas, que reforçam peso histórico e melancolia. A cadência rítmica evoca a força do oceano e o sofrimento coletivo posto como parte de um destino nacional. Em Couto, o ritmo é mais leve e próximo da fala comum, com sons abertos e harmoniosos que fazem o texto fluir de modo suave, aproximando o leitor de um diálogo íntimo. A musicalidade africana aparece não pela imitação de oralidade local, mas pela liberdade sonora que ele imprime às palavras.
Quanto à sintaxe, Pessoa constrói frases curtas e diretas, quase sentenciosas, apresentando ideias como conclusões históricas. Em Couto, a sintaxe opera de modo mais solto, sem rigidez lógica, refletindo outra forma de pensar e relacionar-se com a língua. Sua estrutura frasal não busca provar algo, mas sensivelmente convidar o outro a compartilhar uma experiência.
Por fim, a morfologia revela diferenças ainda mais simbólicas. Pessoa quase não usa adjetivos, preferindo substantivos que representem coletividades. O poema parece querer fixar sentidos, como se o mar fosse um destino definitivo. Em Couto, ao contrário, há uma abertura para adjetivações mais flexíveis, que reconfiguram o significado das palavras e permitem novos modos de pensar o outro, o mundo e a própria língua.
Essas diferenças mostram que a lusofonia não é apenas o compartilhamento de uma língua, mas o embate entre modos de pensar essa língua. Pessoa representa uma visão que ainda ecoa o passado colonial europeu, com o mar como símbolo de expansão. Mia Couto, com seu português reinventado, desestabiliza essa herança ao propor uma língua voltada ao afeto, não à conquista. Ao invés de exaltar o que foi perdido para construir riquezas, Couto sugere que o valor está nas relações humanas e não na exploração histórica. Assim, a língua portuguesa não é um patrimônio a ser glorificado, mas um espaço de disputa e reinvenção constante.’’
Fernando Pessoa – Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Mia Couto – Para ti
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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