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Um dos grandes dilemas que atravessamos, principalmente em sala de aula, é estabelecer uma linha de pensamento que possa dialogar sobre a relação entre o local e o universal na literatura.  Ao abordarmos esse assunto, estamos imersos em um dos pontos mais férteis da crítica literária. Muitos alunos os chegam à universidade acreditando que uma obra será “maior” quanto mais distante estiver de sua realidade imediata. Na Literatura produzida na Amazônia e seus estudos, a história da literatura demonstra justamente o contrário: quanto mais enraizada uma obra está em um chão cultural específico, mais condições ela tem de alcançar o mundo.


O crítico brasileiro Antônio Candido afirmou que a literatura é um direito humano porque “ela nos organiza, nos liberta do caos e nos humaniza”. Ao defender a literatura como necessidade universal, Candido não negava o valor do regional; ao contrário, reconhecia que é por meio das formas concretas da experiência histórica que a arte atinge essa dimensão humanizadora. O universal, nesse sentido, não é o abstrato, mas aquilo que se revela na experiência particular.


Essa tensão aparece de forma clara na obra de Machado de Assis. Em um célebre ensaio, “Instinto de nacionalidade”, ele escreveu: “Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região”. Ao mesmo tempo, advertia que o escritor não deve restringir-se a temas pitorescos, pois o essencial é alcançar a “expressão da vida humana”. Machado compreendeu que o nacional não se opõe ao universal; ele é o ponto de partida para atingi-lo.


Tomemos como exemplo Dom Casmurro. A história de Bentinho e Capitu está situada no Rio de Janeiro do século XIX, com suas convenções sociais específicas, que diga Daniel da Rocha Leite que possui um estudo aprofundado sobre essa obra. No entanto, o ciúme, a dúvida, a memória falha e a manipulação narrativa são experiências reconhecíveis em qualquer cultura. O local é o cenário; o universal é a condição humana exposta ali. A força do romance está justamente nessa articulação.   Outra referência para esse exemplo é a obra “Pssica” de Edyr Augusto Proença. Embora o livro traga o cenário amazônico, as relações, as convenções, as mazelas humanas apresentadas no texto, são universais.

No modernismo brasileiro, essa questão ganhou novos contornos. Mário de Andrade defendia que o Brasil precisava assumir suas raízes culturais sem submissão a modelos europeus. Em Macunaíma, ele cria um herói “sem nenhum caráter”, profundamente marcado por mitos indígenas e linguagem popular. O romance é radicalmente brasileiro, mas a figura do anti-herói, deslocado e contraditório, dialoga com uma tradição literária universal.

A reflexão não é exclusiva do Brasil. T. S. Eliot escreveu, no ensaio “ tradição e o talento individual” (1919), que “a tradição não é herdada, mas conquistada com grande esforço”. Para Eliot, o escritor precisa inserir-se numa tradição ampla, mas essa inserção só ocorre a partir de sua própria circunstância histórica. O local é o ponto de enunciação; o universal é a rede de diálogos que o texto estabelece.


Outro exemplo eloquente é William Faulkner, que ambientou quase toda a sua obra no condado fictício de “Yoknapatawpha”, inspirado no sul dos Estados Unidos, declarou que o escritor deve tratar “dos problemas do coração humano em conflito consigo mesmo”. Essa frase é reveladora: mesmo escrevendo sobre uma região específica, Faulkner sabia que sua matéria era o drama humano, algo que ultrapassa fronteiras geográficas.


No contexto latino-americano, Gabriel García Márquez também oferece um exemplo significativo. Cem anos de solidão é profundamente enraizado na história e na cultura caribenha colombiana. Ainda assim, o ciclo de nascimento, poder, decadência e esquecimento ecoa experiências universais. O realismo mágico não dilui o local; ele o intensifica, transformando-o em símbolo.

É importante observar que o universal não significa neutralidade cultural. Muitas vezes, o que se chamou de universal foi apenas a perspectiva dominante de determinados centros de poder. A crítica contemporânea tem insistido na necessidade de reconhecer a pluralidade das vozes. O que é universal não nasce da homogeneização, mas do diálogo entre diferenças.


Aqui, vale lembrar Mikhail Bakhtin, que aponta que todo discurso é dialógico. Para Bakhtin, nenhuma palavra é isolada; ela sempre responde a outras vozes. A literatura, portanto, nasce do encontro entre contextos específicos e uma rede maior de sentidos. O local já contém o embrião universal porque está inserido numa cadeia de interlocuções.


Para os estudantes de Letras e para os que vivenciam a leitura literária, essa discussão tem implicações práticas. Ao analisar uma obra dita regional, não a reduzam ao folclore ou ao documento histórico. Perguntem: que questões humanas estão sendo formuladas aqui? Que conflitos atravessam o texto? Ao mesmo tempo, ao estudar obras consideradas “clássicas” ou “universais”, investiguem de que contexto específico elas emergiram. O universal sempre tem um elemento fundador.


A literatura brasileira contemporânea continua explorando essa tensão. Autores que escrevem a partir das periferias urbanas, das comunidades indígenas ou das experiências migratórias mostram que a singularidade cultural não é obstáculo, mas caminho para a comunicação ampla. Quando uma narrativa nasce de uma experiência concreta e autêntica, ela encontra leitores que reconhecem ali algo de si mesmos, produzindo sentido ao leitor.


A literatura entre o local e o universal não é um dilema, mas uma dinâmica criativa. O local fornece a matéria viva, a linguagem, os conflitos históricos; o universal emerge quando essa matéria é trabalhada de modo a revelar dimensões compartilháveis da experiência humana. Como leitores e críticos, nosso papel é perceber essa travessia, entender como o texto transforma uma realidade situada em experiência comunicável além de seu tempo e espaço. É nessa passagem que a literatura realiza seu ápice e sua forma mais profunda.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

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