Publicado em: 27 de dezembro de 2025
Ainda impactado com a apresentação do grupo Gruta sobre o texto Dorotéia, obra de Nelson Rodrigues, aproveito, para registrar o elenco, desta vez sem a omissão do nome da empolgante atriz Maria da Paz, Iracy Vaz, Kristara, Alessandra Pinheiro, Zê Charone e Adriano Barroso. O texto de Nelson Rodrigues e a encenação do grupo gruta possibilitaram pensar também no Existencialismo Literário. Por isso, no texto de hoje trazemos contornos dessa criação estética e filosófica
O existencialismo na literatura constitui uma das mais intensas aproximações entre filosofia e criação estética no século XX. Diferentemente de correntes literárias preocupadas prioritariamente com a forma ou com a representação social objetiva, a literatura existencialista volta-se para o drama interior do sujeito, suas escolhas, angústias, contradições e responsabilidades diante da vida. Como observa Jean-Paul Sartre, “a obra literária é um apelo à liberdade do leitor” (SARTRE, que é a Literatura?), pois ela o convoca a refletir sobre sua própria condição existencial.
Historicamente, o existencialismo literário ganha força no contexto europeu marcado pelas crises do final do século XIX e, sobretudo, pelas guerras mundiais. A sensação de ruptura com valores absolutos, a descrença em sistemas metafísicos tradicionais e o sentimento de absurdo diante da existência impulsionaram escritores a explorar personagens desamparados, lançados num mundo sem garantias transcendentes. Nesse sentido, a literatura torna-se espaço privilegiado para expressar aquilo que o filosofo Søren (assim mesmo que se escreve) Kierkegaard, (1813-1855) precursor do existencialismo, chamou de “angústia como vertigem da liberdade” (KIERKEGAARD, O Conceito de Angústia). Jean-Paul Sartre ocupa lugar central nessa tradição ao articular filosofia e literatura de modo consciente. Em A Náusea (1938), o romance encena a descoberta da contingência do ser. O protagonista Antoine Roquentin percebe que nada no mundo possui sentido necessário, afirmando: “O essencial é a contingência” (SARTRE, A Náusea). A narrativa transforma um conceito filosófico: a ausência de essência em experiência sensível, marcada pelo desconforto e pela estranheza diante do real.
Albert Camus, embora rejeitasse o rótulo de existencialista, contribui decisivamente para essa estética ao desenvolver a noção do absurdo. Em O Estrangeiro (1942), Meursault encarna o homem indiferente às normas sociais e às explicações metafísicas. A famosa frase inicial, “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei” (CAMUS, O Estrangeiro), Camus, revela uma escrita que rompe com expectativas morais e expõe o desalinhamento entre o indivíduo e o mundo. Para Camus, “o absurdo nasce do confronto entre o apelo humano e o silêncio do mundo” (O Mito de Sísifo, 1942).
Entre os precursores do existencialismo literário, destaca-se Fiódor Dostoiévski. Em Memórias do Subsolo (1864), o narrador desafia as concepções racionalistas do homem moderno e expõe sua própria contradição interior. Ao afirmar que “a consciência excessiva é uma doença” (DOSTOIÉVSKI, Memórias do Subsolo), o autor antecipa temas centrais do existencialismo: a liberdade como sofrimento, a irracionalidade humana e o conflito entre razão e desejo.
Outro nome fundamental é Franz Kafka, cuja obra expressa a angústia existencial diante de sistemas opressivos e incompreensíveis. Em O Processo (1925), Josef K. é acusado sem saber o motivo, simbolizando a condição humana em um mundo regido por forças impessoais. A frase inicial: “Alguém devia ter caluniado Josef K., pois certa manhã ele foi preso sem ter feito mal algum” (KAFKA, O Processo), condensa o sentimento de culpa difusa e o absurdo da existência moderna.
Simone de Beauvoir amplia o existencialismo literário ao incorporar a dimensão ética, histórica e social da experiência humana, especialmente a feminina. Em Os Mandarins (1954), os personagens enfrentam dilemas morais no pós-guerra. Beauvoir evidencia como a existência é construída em meio a condicionamentos sociais que a literatura pode revelar criticamente.
A literatura existencialista caracteriza-se, assim, por personagens fragmentados, narrativas introspectivas e conflitos morais sem soluções fáceis. Não há heróis idealizados, mas sujeitos comuns confrontados com escolhas decisivas. Como afirma Sartre, “o homem é aquilo que ele faz de si mesmo” (O Existencialismo é um Humanismo), e a literatura torna visível esse processo contínuo de autoconstrução.
Além disso, o existencialismo literário rompe com a ideia de arte neutra ou escapista. Para seus autores, escrever é um ato ético e político. Sartre sustenta que “o escritor está comprometido com seu tempo” (Que é a Literatura?), e, por isso, a obra literária deve provocar reflexão e responsabilidade no leitor, colocando-o diante das contradições do mundo.
Indubitavelmente, o existencialismo na literatura constitui uma forma privilegiada de pensar a condição humana. Ao transformar conceitos filosóficos em experiências narrativas, esses escritores revelam a angústia, a liberdade e o absurdo que atravessam a existência. Ler a literatura existencialista é, portanto, aceitar o desafio de encarar a própria vida como projeto aberto, inacabado e profundamente responsável.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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