Publicado em: 12 de abril de 2026
Dificilmente a experiencia de flanar na cidade é vivenciada por nós. A velocidade dos tempos, os compromissos de trabalho, encontros, negócios, entre outros, nos impossibilitam essa experiencia pensada e observado por Walter Benjamin e que trago ao pensamento.
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alter Benjamin (1892 – 1940) propõe essa experiencia de Flâneur que torna-se uma reflexão delicada sobre a experiência moderna nas grandes cidades. Benjamin encontra essa figura sobretudo na Paris do século XIX, inspirando-se diretamente em Charles Baudelaire, que já havia captado a essência desse observador solitário. Em seus escritos, Baudelaire sugere que o artista moderno é aquele que se mistura à multidão sem perder sua singularidade. Walter Benjamin retoma essa ideia e a transforma em uma chave de leitura da modernidade.
O flâneur, segundo Benjamin, é um crítico silencioso da vida urbana. Ao caminhar pelas passagens e bulevares, ele revela as contradições do capitalismo nascente. A mercadoria, o espetáculo e a multidão tornam-se elementos centrais de sua experiência, indica que “a rua se torna moradia para o flâneur”, essa afirmação desloca completamente a noção de habitar. O espaço público deixa de ser um lugar de passagem e passa a ser vivido com intensidade. O flâneur pertence à rua.
Ao mesmo tempo, essa figura carrega uma ambiguidade. Há nele um fascínio pela modernidade e uma crítica implícita. Benjamin percebe que o flâneur está em vias de desaparecer, absorvido pela lógica do consumo e pela aceleração da vida urbana. Ele é um personagem de transição.
Essa percepção dialoga com Georg Simmel (1858 – 1918), especialmente em seu ensaio sobre a vida nas metrópoles. Simmel descreve o sujeito moderno como alguém que desenvolve uma atitude blasé, (um estado de indiferença, apatia, e insensibilidade emocional que indivíduos desenvolvem nas grandes metrópoles), diante do excesso de estímulos. O flâneur, por outro lado, ainda resiste a essa indiferença, cultivando o olhar atento.
Há também uma aproximação possível com Michel de Certeau (1925 -1986), que pensa o ato de caminhar como uma prática de resistência. Para Certeau, andar pela cidade é uma forma de reescrever o espaço imposto pelas estruturas de poder. O flâneur benjaminiano antecipa esse gesto ao transformar o passeio em interpretação.
Benjamin não idealiza completamente essa figura. Ele reconhece que o flâneur está inserido na lógica do capitalismo, muitas vezes como consumidor ou espectador. Há uma tensão constante entre liberdade e alienação. Essa tensão é constitutiva da experiência moderna.
Benjamin entende que a modernidade produz novas formas de sensibilidade. O olhar fragmentado, a atenção dispersa e a experiência do choque tornam-se características do sujeito urbano. O flâneur é aquele que transforma esse caos em experiência significativa.
Ao mesmo tempo, há algo de melancólico nessa figura. O flâneur é um observador que não pertence completamente ao mundo que observa. Ele está sempre à margem, entre o envolvimento e o distanciamento. Essa condição o aproxima de uma sensibilidade moderna marcada pela perda. Ele mostra como o cotidiano, aparentemente banal, pode revelar estruturas profundas da sociedade. O flâneur torna-se uma experiencia crítica.
Pensar o flâneur hoje é perguntar se ainda há espaço para esse olhar atento em um mundo marcado pela velocidade e pela distração constante. Talvez a figura tenha se transformado, entretanto, a necessidade de ler a cidade, de interpretar seus signos e suas contradições, permanece tão urgente quanto no tempo de Benjamin.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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