Publicado em: 12 de fevereiro de 2026
Editora Gryphus
Eu tinha 16 anos em 1970, quando comecei a trabalhar na Rádio Clube do Pará. Já cheguei com bastante conhecimento musical obtido de meus pais e principalmente de meu irmão Edgar no que diz respeito à atualidade. Era uma época explosiva, com ditadura e os artistas surgindo aos borbotões, baianos, pernambucanos, mineiros, paulistas, pós festivais. Alceu Valença vestido de espantalho com um megafone chamando para seu show, rock progressivo, a Rádio Mundial com Big Boy ainda reinando impávida. Enlouquecido com todo aquele material vindo de todos os cantos, mas morando em Belém do Pará, tendo raras oportunidades em viagens de férias do Rio de Janeiro, ainda assim, comprava, encomendava, pedia, fazia tudo para consumir jornais e revistas underground, onde os artistas mais diferentes mostravam seus dotes. Na Prc5, eu, meus irmãos, mais queridos amigos, apresentávamos o “Sabado Gente Jovem”, influenciando outros curiosos. Assisti no Teatro Ipanema ao show “Fatal”, de Gal Costa. Não digo mais nada. Ali estava tudo. Mas, infelizmente, nunca assisti a um show, naquela época, da Barca do Sol, que virou uma paixão. Rapazes se juntaram para fazer música. Um viajou de Lloyd até Liverpool e quando voltou, estava transformado. Depois Egberto Gismonti que já aprontava e era amigo, ofereceu bolsas e foram à Coritiba onde após participarem de oficinas, já aliciaram outros jovens como Jacques Morelenbaum e na volta para casa, já traziam músicas e o nome, A Barca do Sol. Um deles era Geraldinho Carneiro, hoje imortal e um poeta delirante, naqueles anos 70, parceiro de Gismonti. Ensaiaram e fizeram shows. O som resultante era absolutamente diferente de tudo. Talvez uma pitada de Milton e Esquina. Violões, flauta, guitarra, violoncelo, contrabaixo, percussão e bateria. Era progressivo? Não, mas passava perto. Era rock? Talvez, porque de vez em quando entravam guitarra e bateria. Quase todos eram autores, as letras eram de Geraldinho ou Cacaso, outro gênio daquela época. Em algum momento conseguiram contrato de três discos com a Continental. Músicas sensacionais e sobretudo um instrumental precioso, onde tudo cabia. A gravadora não tinha verba para divulgação. Permanecia underground, shows lotados na zona sul do Rio. Por aqui, somente os mais curiosos. Veio o segundo trabalho, talvez o melhor, “Durante o Verão”, com capa linda. Eles estavam ainda melhores. Rodaram São Paulo, até Bahia. Todos bem ripongas, viajando de carona ou fuscas. Olivia Byngton já participava de tudo e a gravadora decidiu apostar. A Barca em todo o repertório, menos uma ou duas. Olivia estourou “Lady Jane”. Mas quando veio a hora do show, Jaquinho não estava mais. Foi estudar nos EUA. O terceiro disco foi independente, na onda de Antonio Adolfo, que foi o primeiro a gravar e lançar um disco fora de qualquer gravadora. Eles saíram distribuindo de mão em mão. 1980 chegou com outras ondas. A garotada agora apostava em disco music. Foram parando, tornando-se músicos de estúdio. Jaquinho é um gigante. Nando Carneiro gravou com Egberto. Muri fez o Arranco de Varsóvia. Marcelo foi batera de um milhão de artistas. David Ganc também. Enfim. Em 2019, no SESC Belenzinho em SP, reuniram e tocaram. Em 2024, também. Pois é. Não pude ir. Mas está no Youtube, procurem. Aproveitei para ouvir novamente o Vímana, O Terço, A Bolha, enfim, outras bandas surgindo, de onde saíram Lobão, Lulu, Flavio Venturini e muitos outros. Eita, anos 70, quanta saudade. Foram os anos de adolescência, início de vida profissional e eu escutando tudo, tudo, tudo. Meu Deus, como era feliz!
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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