Publicado em: 14 de maio de 2026
Não é novidade alguma que o bolsonarismo sempre tratou a cultura brasileira como inimiga pública. Chamam artistas de parasitas, espalham mentiras sobre a Lei Rouanet, criam narrativas com o intuito de criminalizar políticas culturais e transformar o cinema nacional em alvo preferencial de sua cruzada dita moralista. Agora, Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, filho do condenado líder de organização criminosa antidemocrática ex-presidente Jair Bolsonaro, e herdeiro político direto da extrema direita, pipocou no noticiário nacional e virou um dos protagonistas da investigação sobre recursos ligados a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, destinados à cinebiografia de Jair, intitulada Dark Horse.
A ironia é quase didática. Quem passou anos acusando artistas brasileiros de viverem de “mamata” teria cobrado milhões de dólares de um banqueiro hoje investigado em um dos maiores escândalos financeiros recentes do país para bancar uma superprodução sobre o próprio pai. Não um filme de baixo orçamento, não uma produção nacional independente, não uma obra feita para fortalecer a cadeia audiovisual brasileira. Dark Horse – com título em inglês, já que os ditos patriotas reverenciam os Estados Unidos acima de tudo – é um projeto internacional, dirigido por um estrangeiro (Cyrus Nowrasteh) e estrelado por outro (Jim Caviezel), enquanto o cinema brasileiro, tão criticado por bolsonaristas – influenciadores e minions – segue gerando emprego, renda, prestígio internacional e soberania cultural.
Segundo reportagem do Intercept Brasil, Flávio negociou diretamente com Vorcaro um acordo de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para financiar o filme sobre seu pai. A apuração aponta que pelo menos US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. Depois da publicação, Bolsonarinho admitiu ter pedido dinheiro ao banqueiro, mas negou irregularidades e disse tratar-se de “patrocínio privado”.
O orçamento é tão inflado que supera o custo de produção de 15 dos últimos 20 vencedores do Oscar de Melhor Filme, incluindo obras consagradas como Parasita, Moonlight, Birdman, Nomadland, Spotlight e O Discurso do Rei. Até produções hollywoodianas de enorme repercussão internacional custaram menos. O dado torna ainda mais difícil sustentar o papo furado de que se tratava apenas de um projeto cinematográfico convencional. Afinal, por que uma cinebiografia política brasileira precisaria de um orçamento superior ao de alguns dos filmes mais premiados e influentes do século XXI?
Para “melhorar” o fuzuê, o deputado Mário Frias, produtor executivo do longa e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, depois da divulgação das mensagens e áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, afirmou publicamente que “não há um único centavo” do banqueiro no filme. A produtora GOUP Entertainment repetiu a versão e negou qualquer participação financeira de Vorcaro na produção. Se dezenas de milhões de dólares foram negociados, cobrados e parcialmente transferidos, mas o dinheiro não chegou ao filme, então para onde foi?
É justamente essa lacuna que transformou o caso em alvo da Polícia Federal. Investigadores tentam esclarecer se os repasses tinham, de fato, destinação audiovisual ou se o discurso do financiamento cultural funcionava apenas como cobertura para outras operações políticas e financeiras. Entre as hipóteses apuradas está o possível uso dos recursos para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O próprio fluxo do dinheiro levanta suspeitas, já que parte dos repasses teria circulado por fundos sediados no Texas ligados a aliados do deputado licenciado e ao advogado Paulo Calixto, associado ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
Portanto, a defesa política de que “não há dinheiro público” é sem cabimento. Primeiro, porque a Polícia Federal investiga se recursos ligados a Vorcaro podem ter sido usados para custear Eduardo Bolsonaro em sua jornada de tentativas de prejudicar o Brasil junto ao governo de Donald Trump. Segundo, porque o Banco Master está no centro de apurações sobre fraudes bilionárias, com impacto sobre fundos e investidores. Terceiro, porque o argumento do “privado” sempre foi usado seletivamente pelo bolsonarismo. Quando empresários apoiam artistas, é “mamata”; quando um banqueiro investigado financia a mitologia familiar, vira liberdade de mercado. Pera lá, né?
A Lei Rouanet, tão demonizada por esse campo político, não é um saco de dinheiro entregue a artistas escolhidos pelo governo. É um mecanismo de incentivo fiscal criado pela Lei nº 8.313/1991, pelo qual projetos culturais passam por análise, aprovação, captação, execução, acompanhamento e prestação de contas. O Ministério da Cultura informa que há monitoramento de contas bancárias, regularidade de proponentes, conformidade dos incentivos e bloqueios judiciais, entre outras etapas de controle.
Ou seja: a Rouanet, com todos os problemas e aperfeiçoamentos necessários, tem regra, sistema, rastreabilidade e prestação de contas. O caso Dark Horse, ao contrário, é o retrato de uma zona nebulosa. É nesse contraste que a hipocrisia grita horrendamente.
Flávio Bolsonaro, como todo mundo sabe, já foi investigado no caso das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em apuração que envolvia suspeitas de peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O caso acabou esvaziado após anulações de provas e decisões judiciais, e a denúncia foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça do Rio. Não houve condenação, mas o episódio é sim uma parte incontornável de sua biografia política.
Também não é irrelevante que o filme tenha como objeto Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, e atualmente cumprindo pena em regime de prisão domiciliar por razões de saúde. A obra, prevista para estrear em ano eleitoral, é puro suco de campanha em linguagem audiovisual. É uma tentativa tosca de transformar um condenado por atentar contra a democracia em mártir cinematográfico.
Enquanto isso, o audiovisual brasileiro real, aquele que o bolsonarismo tenta desmerecer, produz resultados concretos. A Ancine afirma que o investimento no setor impulsiona a cadeia produtiva, gera emprego e renda e promove cultura e cidadania. Em 2025, o fomento federal ao audiovisual atingiu recordes históricos. O cinema nacional também voltou a ocupar espaço internacional: Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, primeira estatueta do Brasil na categoria; e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, rendeu a ele o prêmio de melhor direção e a Wagner Moura o de melhor ator em Cannes e no Globo de Ouro.
O financiamento da cinebiografia de Jair é mais profundo do que uma mera negociação suspeita. É parte de um método nefasto que ataca a cultura pública, que demoniza artistas, que acusa o cinema nacional de doutrinação enquanto se tenta erguer uma superprodução estrangeira para reescrever a história de uma família política acusada e condenada por diversos crimes contra o povo brasileiro.
O Brasil já viu esse roteiro antes. Elites que se dizem contra privilégios, mas vivem deles. Moralistas que gritam contra a corrupção dos outros enquanto circulam em torno de esquemas próprios. Patriotas que trabalham incansavelmente contra o próprio país.
No fim, Dark Horse talvez seja mesmo um título adequado. Não pelo “azarão” heroico que o bolsonarismo pretende vender, mas pelo cavalo desenfreado que atravessa a política brasileira, carregando uma extrema direita que odeia o povo, a soberania nacional, a cultura e as artes que, para terem esta definição, devem ser, antes de qualquer coisa, livres.
Imagem em destaque: Meme / Redes Sociais










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