Publicado em: 11 de maio de 2026
Há algum tempo tenho refletido a maternidade por meio das vítimas de feminicídio. Pensando nas mães das mulheres assassinadas, nas crianças que ficam. Por que mal falamos sobre isso?
Foi na literatura de mulheres negras que também me deparei com a realidade de mães que perdem seus filhos para violência policial e estatal. Jovens que são vistos como descartáveis e que suas vidas perdidas não comovem a sociedade, independente de terem de fato envolvimento com a criminalidade (já que muitos sequer tem), deixando essas mulheres em injustiça, invisibilidade e total desamparo.
Isso me faz pensar: quem pode ser mãe?
Além disso, tenho pensado nas mulheres em hospitais em luto neonatal, que até pouco tempo ficavam em enfermarias junto com as recéns mães, sem espaço ou respeito para seus lutos.
Muitas delas, as com luto gestacional, sequer tiveram ou tem suas perdas validadas, afinal, como comumente escutam, “nem tinha nascido; é só engravidar de novo”.
Quando uma maternidade é reconhecida?
E qual empatia temos com as mulheres em dor pela maternidade?
Tudo isso me faz pensar que a maternidade vendida pra nós: como destino, melhor momento da vida, cheia de romantizações, não é o que chega para nós, é para algumas pessoas a ruptura ou a quebra discursiva é radical, de tão violenta.
Volto a perguntar: Quem pode ser mãe? E amplio o questionamento: Quem tem condições para exercer sua maternidade?
O racismo é um elemento desumanizador que atravessa diretamente a maternidade. Enquanto vejo mulheres com dinheiro, geralmente brancas, publicando sobre o direito de terem babás e levarem para viagens e datas de celebração (como natal e ano novo), argumentando sobre sobrecarga e a necessidade de lazer, percebo que ninguém fala ou pensa também nos filhos e filhas das babás e empregadas domésticas, muito menos nas condições delas enquanto mulheres mães.
Muitas vezes, as condições de trabalho ferem tanto os direitos trabalhistas, que essas mulheres sequer tem o direito de esterem presentes com seus filhos e filhas e acabam trabalhando para garantir financeiramente (embora de forma precária ou mínima) o sustento, já que é alto o número de mães solos.
Os efeitos dessa lógica são enormes, inclusive para as crianças, sem possibilidades de receberem afetos mais frequentes e de supervisão necessárias.
São mulheres que dão “jeito” atrás de “jeito” porque não tem sequer políticas públicas que amparem a si e suas crianças.
E para as contratantes que afirmam pagar tudo direitinho, deixo uma pergunta reflexiva: há espaço para o diálogo que leve em consideração as condições desta mulheres, enquanto mães, e não só as suas? Há espaço para que essa mulher possa dizer “não” para seus convites de viagens, por exemplo, sem ser demitida?
O salário que você paga e a carga horária de trabalho são suficientes para que essa mulher exerça sua maternidade de forma possível?
O fato é que há mães que recebem mais empatia, que são vistas como sujeitos, e outras mulheres não, pois têm seus direitos retirados ou afetados.
Além disso, será que as mães solos, sobrecarregadas, muitas vezes chefes do lar, que precisam arcar com todo custo financeiro e de organização da vida das crianças, têm o mesmo direito e possibilidade de exercerem a maternidade de forma saudável e, minimamente, leve? Ou estão cheias de preocupação, irritadas, esgotadas, sem tempo e sem dinheiro?
Por fim, lembrei de um vídeo que vi essa semana. Uma criança chora por estar longe da sua mãe na festinha da escola. Ela não está decepcionada com a mãe, ela diz que a mãe é guerreira e trabalhadora: conta que sai 5 da manhã e por vezes volta 3 da madrugada,’por trabalhar com eventos. Conta também que se trata de uma mãe solo e faz isso para garantir a vida delas. Vocês entendem como isso é triste? O abandono paterno levando a sobrecarga; as condições degradantes de um emprego; uma mãe sobrecarregada sem poder estar perto da filha nos momentos afetivos importantes.
A forma como lidamos com a maternidade revela como funciona uma sociedade.
Maternidade é política, meu povo.
Maternidade tem cores, tem classe.
Maternidade tem solidão, abandono dos homens, abandono do entorno, ausência de políticas públicas. Mas também pode ser gostosa e para isso acontecer, são necessárias condições.
A maternidade não deve ser uma luta de algumas mulheres.
É uma pauta social, que fala da dignidade e de direitos humanos. Deve ser uma frente prioritária das políticas públicas.
Que as mulheres possam ter o direito de decidir e exercerem a maternidade, quando assim o escolherem.
E que ao exercerem, possam ter o direito de viver, sem as violências (que incluem as violências da masculinidade e da violência contra as mulheres) incidindo e roubando as possibilidades de uma maternidade saudável e feliz.
Porque sim, mesmo com todas complexidades inerente as relações humanas e suas ambivalências, a maternidade deveria (e pode) ser feliz.
Então, termino dizendo que muitas maternidades – apesar dos desafios e dificuldades – têm riquezas, bons afetos, rede de solidariedade, criatividade e muita resistência. E que mulheres se ajudam e se unem para que tudo seja mais leve.
É nessa união que vejo esperançar um mundo melhor: é na força feminina que eu acredito.
Feliz dia das mães a todas!
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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