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Mais de 23 mil crianças e adolescentes desapareceram no Brasil só no ano passado, o equivalente a cerca de 66 por dia, e 61% são meninas. Os dados, aterrorizantes, são oficiais, do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública. Essa realidade precisa de resposta urgente e eficaz do poder público. Os pequenos não se desintegraram. Foram sequestrados, abusados, mortos ou traficados para exploração sexual ou retirada de órgãos.

Em comparação com 2024, houve aumento de cerca de 8%. É preciso lembrar que esses são os casos que foram registrados. E que o Brasil é campeão em subnotificação de ocorrências. Um cenário que expõe o quanto a infância é desprotegida no país.

Embora parte das vítimas sejam localizadas e resgatadas dias ou semanas depois, especialistas em segurança pública alertam que as primeiras 72 horas são críticas, a criança fica exposta a riscos extremos.

Os arquivos do caso Epstein, com documentos e relatos de perversão profundamente perturbadores e repulsivos, que chocam qualquer consciência humana, estão servindo para que a sociedade brasileira finalmente abra os olhos a essa tragédia que vitima nossas crianças e adolescentes todos os dias e que tem permanecido sob o manto da invisibilidade e da impunidade.

O Pará tem um exemplo emblemático: já foi mantida e transitada em julgado a condenação do empresário, médico e ex-deputado Luiz Afonso Sefer a 20 anos de prisão, mais a multa de R$120 mil (a ser corrigida desde 2010) à sua vítima de estupro, uma criança de 9 anos, durante quatro anos sob seu jugo no mesmo apartamento. Foi aplicada a dosimetria conforme determinado pelo STJ e fixada definitivamente a pena. Não cabe mais recurso, não há justificativa para que continue livre e solto, depois de 16 anos a atentar sucessivamente contra a dignidade da justiça. É de clamar aos céus.

E se fosse sua filha, sua neta, sua irmã? Esta pergunta precisa ser internalizada!

As crianças e adolescentes são alvos fáceis dos predadores, ainda mais quando têm dificuldades de comunicação, vulnerabilidades emocionais, deficiência intelectual, ambientes familiares fragilizados. Muitos casos poderiam ser evitados com informação, prevenção e ação imediata.

Desaparecimentos sempre estão ligados à violência, exploração, negligência, falhas na rede de cuidado. O tempo é decisivo. Registrar o desaparecimento imediatamente pode salvar uma vida. Proteger crianças é dever coletivo.
Família, escola, comunidade e sociedade precisam estar atentas. E não podem calar. Crianças não se defendem sozinhas.

A atenção da família tem que ser constante. Nunca se deve deixar crianças sozinhas, nem por instantes. A pessoa que está com crianças não pode ficar distraída com celular em locais públicos, e os pequenos precisam ser orientados desde a mais tenra idade a não conversar com estranhos, não aceitar presentes nem caronas. O desaparecimento infantil acontece em todas as classes sociais e regiões. Não é problema dos “filhos dos outros”. Pense nisso.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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