Publicado em: 19 de fevereiro de 2026
Do politicamente correto ao “woke”, entre ações afirmativas, plataformas digitais, crítica ao identitarismo e a economia moral da guerra cultural
O Brasil pós-1990 — entre redemocratização, globalização e, mais recentemente, digitalização acelerada — passou a importar e adaptar novas gramáticas morais e políticas para falar de injustiça, identidade e desigualdade. Parte desse vocabulário veio do Norte global, em especial dos Estados Unidos, e ganhou tração no debate público brasileiro. Isso ampliou a sensibilidade social para violências históricas e exclusões persistentes. Mas também trouxe ruídos: quando conceitos atravessam fronteiras sem ajuste, eles podem explicar menos do que prometem — e inflamar mais do que esclarecem.
A linguagem virou terreno central dessa disputa. Do “politicamente correto” ao “woke”, palavras deixaram de ser apenas um meio de comunicação e passaram a operar como sinais de pertencimento, reconhecimento e, em alguns casos, punição. Aqui, “woke” aparece como um repertório que combina vigilância sobre injustiças identitárias com forte moralização do discurso público. No melhor cenário, ele ajuda a nomear opressões e ampliar direitos. No pior, endurece fronteiras, transforma divergências em culpa moral e reduz pessoas a rótulos fixos — um tipo de empobrecimento da vida pública que, por caminhos diferentes, também aparece em críticas recentes como as de Antônio Risério e Demétrio Magnoli ao debate identitário no Brasil.
No Brasil, a questão racial atravessa o tema de forma decisiva. Ações afirmativas foram — e seguem sendo — um passo necessário para um país que aboliu formalmente a escravidão sem completar a integração social e econômica da população negra. Ainda assim, as lentes usadas para interpretar esse percurso não são únicas. Florestan Fernandes descreveu com ênfase a permanência de hierarquias herdadas da escravidão e criticou o mito da “democracia racial” como um mecanismo de acomodação que dificulta mudanças estruturais. Darcy Ribeiro, por sua vez, destacou a formação histórica de um “povo” marcado por mestiçagem e conflito, apostando mais na ideia de uma síntese cultural brasileira — sem que isso apague violências e desigualdades. E, como alerta Kabengele Munanga, o debate sobre mestiçagem não pode servir como cortina de fumaça para a discriminação; precisa ser tratado com ambivalência histórica, sem ingenuidade e sem caricatura.
Para entender por que essas disputas escalaram tão rápido, é preciso olhar para a mudança do espaço público na economia da atenção. Em termos próximos ao diagnóstico de Jürgen Habermas sobre a esfera pública (ainda que em outra era tecnológica), as plataformas redesenharam o ambiente de discussão ao priorizar visibilidade, velocidade e engajamento. Na prática, indignação vira combustível — e o debate se organiza por surtos de comoção. Como descreve Letícia Cesarino, isso contribui para uma política “em modo viral”, em que o conflito se espalha mais rápido do que a capacidade de contextualizar. O resultado, em parte do ecossistema online, é previsível: julgamento instantâneo, simplificação de conflitos complexos e punição informal por reputação.
Isso não significa relativizar discursos discriminatórios. Significa perceber como certos mecanismos — exposição, caça a “provas”, lógica de “print” — comprimem nuance e encurtam o caminho entre erro, dano e condenação pública. A ideia de um capitalismo que monetiza comportamento e atenção, analisada por Shoshana Zuboff, ajuda a entender por que o conflito moral se torna tão rentável: quanto mais choque, mais circulação; quanto mais circulação, mais captura de dados e receita.
É nesse ponto que a crítica ao identitarismo costuma entrar — muitas vezes, sem precisão. “Identitarismo” vira palavra-guarda-chuva para coisas diferentes. Para evitar confusão, vale separar ao menos quatro planos: (1) políticas públicas e ações afirmativas; (2) repertórios de linguagem e disputa por nomeação; (3) dinâmicas de plataforma (linchamento reputacional, assédio coordenado, punição coletiva); e (4) apropriação corporativa de símbolos de justiça. Quando tudo isso vira a mesma coisa, a crítica perde foco e vira briga de rótulos. O problema não é a política do reconhecimento em si — tema clássico no debate de Charles Taylor e Nancy Fraser — mas o que acontece quando ela se converte, em certos ambientes, em moralismo performático, patrulhamento constante e redução do sujeito a uma etiqueta.
A discussão também passa pela tensão entre redistribuição e reconhecimento. Reconhecer é indispensável para reparar humilhações e exclusões históricas. Redistribuir é indispensável para enfrentar desigualdade material e estruturas de poder. O risco é virar competição: como se uma agenda anulasse a outra. Em parte do debate público, a disputa por linguagem e legitimidade ocupa o centro do palco, enquanto urgências econômicas e institucionais perdem espaço. Aqui, o argumento de Nancy Fraser é útil: quando reconhecimento vira substituto de redistribuição, a política pode perder poder transformador e ganhar intensidade simbólica — muito barulho, pouca mudança estrutural.
Essa captura aparece com força no “woke capitalism”: empresas adotam discurso de diversidade como imagem e reputação, sem tocar nas engrenagens que reproduzem desigualdade. É um movimento que conversa com a crítica de Luc Boltanski e Ève Chiapello sobre a capacidade do capitalismo de absorver críticas e devolvê-las como estilo de gestão. Inclusão vira campanha; justiça vira branding. A crítica, aqui, não é à diversidade — é ao uso de símbolos sociais como cosmética, enquanto precarização e assimetrias seguem intocadas.
Há ainda uma camada subjetiva que ajuda a explicar o ambiente de tensão permanente. Quando identidade vira o único idioma do conflito, o sujeito corre o risco de ser tratado como uma categoria administrável, e não como alguém atravessado por história, desejo, contradições e mudança. Leituras como as de Maria Rita Kehl sobre ressentimento e as de Christian Dunker sobre massas digitais ajudam a entender por que a esfera pública pode ficar mais defensiva: todo erro vira essência, toda discordância vira ameaça, toda fala vira prova.
O dilema, então, é como criticar excessos sem fortalecer forças reacionárias que usam esses conflitos para deslegitimar direitos e atacar políticas reparatórias. A crítica que importa precisa ser dupla: reconhecer a realidade de violências históricas e desigualdades persistentes — e, ao mesmo tempo, recusar a transformação do debate em punição sumária, purismo moral e simplificação identitária. O objetivo não é “recuar” em conquistas. É proteger o pluralismo e o devido processo no espaço público, especialmente num ambiente em que, como lembra Sérgio Amadeu da Silveira, algoritmos modulam comportamento, visibilidade e reputação.
Daí a necessidade de uma nova gramática democrática. Uma gramática que reconheça desigualdades reais, sem erguer fronteiras identitárias intransponíveis. Que preserve o direito à crítica e ao desacordo, sem normalizar discurso de ódio. Em termos práticos, isso exige três movimentos: distinguir erro de crime; preferir mecanismos institucionais (direitos, políticas públicas, devido processo) à punição informal; e recolocar reconhecimento e redistribuição no mesmo projeto de justiça. No horizonte, trata-se de recuperar um universalismo humano que não apague diferenças — mas também não aprisione indivíduos em identidades rígidas. É assim que a democracia sustenta conflito sem virar guerra moral permanente.
Nota de rodapé
Referências usadas no texto:
BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O novo espírito do capitalismo;
CESARINO, Letícia. O mundo do avesso: verdade e política na era digital; DUNKER, Christian. Psicologia das massas digitais e análise do sujeito democrático; FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes; FRASER, Nancy. Redistribution or recognition? A political-philosophical exchange; HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública; KEHL, Maria Rita. O ressentimento; MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial; MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra; RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil; RISÉRIO, Antônio. Mestiçagem, identidade e liberdade; RISÉRIO, Antônio. Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária; SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Democracia e os códigos invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas; TAYLOR, Charles. Multiculturalismo: examinando a política do reconhecimento; ZUBOFF, Shoshana. The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista






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