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O jogo entre Benfica e Real Madrid no Estádio da Luz, em 17 de fevereiro de 2026, classificatório para as oitavas de final da Liga dos Campeões, terminou com vitória madridista por 1 a 0, gol de Vinícius Jr., e com a ativação do protocolo antirracismo após denúncia do brasileiro contra o argentino Gianluca Prestianni. A UEFA avalia os relatórios oficiais da partida antes de decidir se abrirá investigação disciplinar.

A acusação foi feita no segundo tempo, logo após o Real Madrid abrir o placar. Vinícius Jr. disse ao árbitro que Prestianni o teria chamado de “macaco” durante um bate-boca que ocorreu depois da comemoração do gol. O árbitro francês François Letexier, ao ouvir a reclamação, cruzou os braços e apontou para o logótipo “Não ao racismo” na manga da própria camisa, gesto associado à ativação do protocolo antirracismo da FIFA e que resultou em interrupção temporária do encontro. A partida ficou paralisada durante dez minutos e os capitães Nicolás Otamendi, pelo Benfica, e Federico Valverde, pelo Real Madrid, foram envolvidos na comunicação do protocolo e na gestão do incidente em campo.

A paralisação foi seguida por discussões, incluindo atrito entre Vinícius Jr. e o técnico do Benfica, José Mourinho, além de ameaça de saída do gramado por parte de jogadores do Real Madrid. Kylian Mbappé confrontou Prestianni chamando o argentino várias vezes de racista. O jogo foi retomado cerca de dez minutos depois e terminou 1 a 0 para o clube espanhol. Nos minutos finais, o ambiente seguiu tenso: Otamendi provocou Vinícius Jr. antes de uma cobrança de escanteio, levantando a camisa para exibir uma tatuagem no peito com três troféus associados às conquistas recentes da Argentina (a Finalíssima de 2022, à direita; a Copa América de 2021, à esquerda; e, ao centro, em tamanho maior, a Copa do Mundo de 2022).

Após a partida, a divergência de versões se ampliou na zona mista e nas redes sociais. Mbappé duramente Prestianni e afirmou: “[Prestianni] disse cinco vezes a Vini que ele é um macaco”. Aos jornalistas no local, declarou: “Nem merece que eu diga o nome dele”. “Ele [Prestianni] começou a dizer palavras que são inaceitáveis, depois meteu a camisa por cima do rosto para que as câmeras não pudessem ver, e disse cinco vezes ao Vini que ele é um macaco. Depois, eu, o Vini e muitos jogadores da equipe não quisemos jogar mais porque há coisas que não podemos aceitar”. A estrela futebolística francesa afirmou ainda que Prestianni “não merece jogar a melhor competição que é a Liga dos Campeões”. Também sustentou que a situação não pode ficar impune e que quem ouviu as palavras precisa agir.

Vinícius Jr. publicou manifestação no Instagram e afirmou que denunciar é necessário, mesmo após vitória. “Racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam colocar a camisa na boca para demonstrar como são fracos”, escreveu, acrescentando que há “proteção de outros que, teoricamente, têm a obrigação de punir”. O jogador também registrou: “Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida e da minha família”, criticou a condução do procedimento, dizendo que o protocolo foi “mal executado” e “de nada serviu”, e pontuou que, apesar de “uma grande vitória”, “as manchetes têm que ser do Real Madrid”.

Redes Sociais Vini Jr. / Reprodução

A repercussão incluiu reações de ex-jogadores e comentaristas. Luisão, ex-capitão do Benfica, comentou em publicação do clube e escreveu: “Esta camisola é muito grande, amo o Benfica, é a minha segunda pele. Tem de se ser digno para vestir o manto sagrado. Esse texto piora porque é mentira… futebol ganha-se na raça, na luta… Foi rato racista sim e eu estou envergonhado com isso”.

Thierry Henry, ex-internacional francês e comentarista esportivo, condenou o comportamento de Prestianni e mencionou a forma como o jogador cobriu a boca: “Entendo perfeitamente o que o Vinícius está a passar, aconteceu-me muitas vezes e te sentes muito sozinho. Gianluca Prestianni, diz-nos o que disseste. Seja um homem. Por que cobres a boca com a camisa? É por estar frio? Logo isso é suspeito. Ele disse ao Mbappé que não disse nada, mas disse seguramente”.

Prestianni, por sua vez, negou ter cometido injúria racial e classificou a situação como mal-entendido. Em publicação nas redes sociais, ele escreveu: “quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas a Vinícius Júnior que, lamentavelmente, interpretou mal o que pensa ter escutado”, e concluiu: “Nunca fui racista seja com quem for e lamento as ameaças que recebi de jogadores do Real Madrid”. Acrescentou, ainda: “acusar os outros de algo grave não está correto, muito menos quando não é verdade. Estão todos a me apontar o dedo por ter tapado a boca com a camisola quando todos os jogadores o fazem. Parem de inventar”.

O Benfica saiu publicamente em defesa do indefensável e divulgou vídeo questionando a versão apresentada por atletas do Real Madrid. Em nota nas redes sociais, o clube afirmou: “como demonstram as imagens, dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que andam a dizer que ouviram”. Na entrevista coletiva após o jogo, José Mourinho adotou cautela e relatou ter ouvido versões opostas: “Falei com os dois, Vinícius diz-me uma coisa e Prestianni outra. Não quero dizer a 100% que acredito apenas em Prestianni, mas também não posso ser ingênuo e dizer que Vinícius me disse a verdade”.

O técnico disse ainda ter estranhado o fato de Vinícius estar repetidamente envolvido em episódios dessa natureza e relatou uma fala dirigida ao jogador em campo: “ao Vinícius, no campo, disse-lhe: ‘Marcaste um golo do outro mundo, por que festejas assim? Por que não celebras como celebrava Di Stéfano, Pelé ou Eusébio? Por que não celebras o golo só com a alegria de ser um jogador do outro mundo?’ Acontece sempre com o mesmo, é a única coisa que não me entra”.

Aparentemente, para o técnico benfiquista, se um jogador não comemorar da forma que ele considera adequada, ele merece ser insultado, inclusive racialmente. Também fica a impressão de que técnico e parte da torcida do time português, através dos comentários nas redes sociais, questionam a integridade das denúncias de Vini Jr. justamente pelo fato do jogador brasileiro ser determinado a não pormenorizar ataques racistas como fizeram, por anos, vários jogadores negros, e sempre expor qualquer situação de injúria que sofra. O silêncio, certamente, só interessa a quem tem alguma culpa.

A UEFA informou que analisa os relatórios oficiais das partidas disputadas na noite anterior e indicou o caminho procedimental caso haja registro formal do episódio. “Os relatórios oficiais dos jogos disputados ontem à noite estão, neste momento, a ser analisados. Caso seja reportado algo, serão abertas as respetivas investigações e, caso essas levem a sanções disciplinares, essas serão anunciadas no site da UEFA. Não temos mais informações ou comentários a fazer neste momento”, afirmou o órgão.

Se a denúncia for comprovada, o regulamento prevê punição mínima relevante: “Qualquer entidade ou pessoa, sujeita aos regulamentos, que insulte a dignidade humana de um indivíduo ou grupo de indivíduos por qualquer motivo, incluindo cor da pele, raça, religião, origem, género ou orientação sexual, está sujeita a uma suspensão de, pelo menos, dez jogos ou por um período de tempo específico ou a qualquer outra sanção adequada”, diz o artigo 14.º.

A partida que motivou a controvérsia foi a primeira de um confronto eliminatório. O segundo jogo entre Real Madrid e Benfica está marcado para o dia 25, às 17h (de Brasília), no Santiago Bernabéu. Pelo regulamento esportivo, empate no placar agregado leva a decisão para a prorrogação e, em seguida, aos pênaltis.

Foto em destaque: redes sociais do Benfica / Reprodução

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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