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A primeira medalha olímpica de inverno brasileira da história. De Abya Yala, excluindo Estados Unidos e Canadá. Das ditas América Latina e América do Sul. De toda e qualquer nação tropical do planeta. E de ouro. Com possibilidade de repeteco, na segunda-feira. Um feito considerado basicamente impossível nos 102 anos anteriores da competição. Uau.

A primeira reação de muitos é pensar: “ah, mas o menino é norueguês”. Sim, Lucas Pinheiro Braathen nasceu em Oslo e lá foi criado, tirando apenas um breve período em que viveu com a sua mãe, brasileira, em São Paulo, após o divórcio de seus pais. Mas, como afirma em todas as entrevistas que consegui alcançar em minhas buscas internáuticas, ele sempre teve um pé cá e outro lá, nutrido com as férias anuais em que passava em terras tupiniquins e que guarda em sua memória afetiva as brincadeiras de rua com os primos, a bola, e até o sonho de quase todo menino brasileiro em se tornar jogador de futebol.

Temos a mania de querer enquadrar as pessoas, pô-las em uma rígida caixa. Raramente isto é possível. Assim como Lucas, milhões de outras pessoas, filhas de imigrantes, têm entranhada em sim uma multinacionalidade que estes nossos polarizados tempos tentam esmagar, como se fosse imperativo uma pessoa definir-se ao delimitar-se a uma única bandeira. Tanta gente sempre vai ser mais de uma coisa ao mesmo tempo. E tá tudo bem.

Lembro de um amigo que nasceu e cresceu na França, filho de mãe sueca e pai português. Imagino a confusão mental de uma criança que deve ter sido questionada constantemente sobre sua nacionalidade quando linhas imaginárias estabelecidas pelas políticas humanas não fazem o menor sentido. Lembro de mim mesma, nascida e criada na Amazônia, com um sentimento de pertencimento cultivado mesmo com a história das minhas raízes indígenas vítimas de um processo de apagamento secular e institucionalizado, porém também filha de uma família de imigrantes italianos, ensinada desde o berço a amar e respeitar a cultura dos meus antepassados, e que em Belém do Pará aprendeu a fazer um spaghetti alla putanesca muito antes de finalmente saber cozinhar um feijão com arroz, o símbolo culinário do Brasil que supostamente estamos inseridos (mas que sempre amou maniçoba acima de todas as coisas, como acho bem importante aqui dizer). Se continuar a lembrar dos exemplos que conheço, escreverei um livro com as histórias de pessoas multinacionais, multiculturais, multiterritoriais.

Lucas contou em uma entrevista que, quando criança, sempre sentiu que era diferente. No Brasil era o gringo, na Noruega era o brasileiro. Nas montanhas, nos treinamentos de esqui, onde as outras crianças eram de tantas nacionalidades, ele não era o diferente, e assim, na neve, sentiu-se em casa. A grande verdade é que sua história gera um estranhamento por ele fazer o caminho contrário do que se observa em larga escala, que é o de atletas de países pobres se naturalizarem em países ricos em busca de melhores oportunidades. Lucas saiu da equipe de um país no norte global com enorme tradição nos – caríssimos, é necessário pontuar – esportes de inverno por não caber numa caixa tão apertada que fez um garoto de 23 anos anunciar aposentadoria. Foi representando o sul global que ele voltou e conseguiu florescer.

Mas, reconheçamos o óbvio: a liberdade oferecida por uma federação com pouquíssima tradição invernal para um garoto que, obviamente, carrega no sangue uma latinidade incontrolável, só foi o trampolim para a vitória porque o atleta foi formado em uma condição de privilégio que só é possível ter no contexto do norte global em que foi criado. Condições análogas para uma criança nascida e criada no Brasil, sem emigrar para um país nórdico, só seriam possíveis em situações multimilionárias, com pais ou patrocinadores que tivessem muito dinheiro para bancar constantes viagens e permanências internacionais. E nem estou considerando o esgotamento físico e principalmente mental de uma criança que tivesse de viver em uma conjuntura de constante mudança.

Já nas olimpíadas de verão é bem comum ver atletas de países pobres dando um couro naqueles que têm sofisticados suportes multidisciplinares para garantir seus resultados. Só para citar um exemplo entre muitos, foi o caso dos 200m rasos em Paris 2024, quando o favorito e midiático Noah Lyles, foi atropelado por Letsile Tebogo, da Botswana. Nas olimpíadas de inverno, onde os custos de quase todos os esportes são impraticáveis para quem não está inserido em um ambiente de privilégio no norte global, é muito diferente. Os Jogos Olímpicos de Inverno são uma constante lembrança de que, para quem tem dinheiro, nada é impossível.

Enquanto o sentimento de pertencimento ao Brasil de Lucas é questionado, não vi absolutamente ninguém falar sobre Ilia Malinin, o estadunidense que era dado como medalha de ouro certa no individual masculino na patinação artística por causa de sua qualidade artística, técnica e saltos impressionantes (incluindo o controverso back flip, pela primeira vez legalizado em uma olimpíada) e que acabou ficando em oitavo lugar após uma sequência de erros – aliás, a quantidade absurda de quedas gerou um clamor nas redes sociais para nunca mais realizarem uma final olímpica em uma sexta-feira 13. Ilia é filho dos patinadores olímpicos Tatiana Malinina, do Uzbequistão, e Roman Skorniakov, da Rússia. Seu avô materno, Valery Malinin, também foi um patinador pela União Soviética e hoje em dia é treinador, na Rússia.

Ah, façamos um parêntese importante: por que a Rússia e Belarus estão banidas das Olimpíadas e Estados Unidos e Israel não?

Ilia nasceu nos Estados Unidos. Talvez por isso sua nacionalidade não tenha sido questionada, diriam alguns. Mas Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bad Bunny, também nasceu nos Estados Unidos e é legalmente cidadão, já que Porto Rico é um território não incorporado, que apesar de não ter o direito ao voto tem como presidente o mandatário estadunidense, e tem sua nacionalidade questionada a todo segundo, sua atuação no intervalo do Super Bowl considerada uma “afronta” à cultura nacional segundo supremacistas, assumidos ou não. A diferença entre os dois, ao que parece, é que um tem lindos olhos azuis e vasta cabeleira loira e o outro não.

Celebremos Lucas, que agraciou uma nação inteira com um ouro – talvez dois, estamos na torcida – jamais sonhado em um país tropical. Que o menino que nasceu na Noruega com sangue brasileiro, que fez e faz muito bom uso dos seus privilégios, abra portas para que outros que balançam a mesma bandeira, de diferentes contextos, cores e feições, consigam transformar o esporte em algo maior do que apenas um sonho.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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