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O Tecido Invisível que Sustenta o Verde Profundo




No coração pulsante do continente sul-americano, onde a vida se manifesta em sua plenitude mais exuberante e complexa, reside a Amazônia, um ecossistema de magnitude quase mítica. Não é apenas uma vastidão de árvores e águas, mas um intrincado mosaico de existências, de culturas ancestrais e de dinâmicas naturais que, em sua interconexão, orquestram um papel insubstituível na regulação climática regional e global, abrigando um colossal estoque de carbono em sua biomassa e solos, e influenciando decisivamente os ciclos hidrológicos que alimentam a vida muito além de suas fronteiras. A sustentabilidade e o desenvolvimento harmonioso deste santuário de biodiversidade não dependem apenas de leis escritas ou de fronteiras traçadas em mapas, mas de um tecido invisível, porém poderoso: a governança. Ela é a arte e a ciência de coordenar ações coletivas, de forjar consensos e de gerir conflitos em um cenário de recursos compartilhados e interesses díspares. Em um ambiente tão complexo e culturalmente diverso, a governança transcende a mera administração; ela se eleva à condição de guardiã da própria vida, um imperativo para que a sinfonia amazônica não desafine em um lamento de perdas irreversíveis.
A Amazônia, com sua imensidão que desafia a compreensão humana, é um laboratório vivo onde a governança se revela um pilar indispensável, uma âncora em meio a correntes turbulentas. A vastidão territorial, que se estende como um oceano verde, abriga uma diversidade biológica sem paralelo e uma tapeçaria sociocultural tecida por centenas de povos indígenas, comunidades tradicionais e populações urbanas, cada qual com suas cosmovisões e modos de vida. Esta riqueza, contudo, é também sua vulnerabilidade. As pressões econômicas, impulsionadas por mercados globais insaciáveis por commodities, por minérios e por terras, avançam como uma maré implacável, erodindo florestas, contaminando rios e desestruturando comunidades. A necessidade de cooperação multissetorial emerge, então, não como uma opção, mas como a única rota possível para a sobrevivência. A governança, neste contexto, é o sistema nervoso que conecta os múltiplos órgãos deste gigante, permitindo que a informação flua, que as decisões sejam tomadas e que as ações sejam coordenadas, evitando que a mão direita ignore o que a esquerda destrói. Sem ela, o grande rio-floresta corre o risco de se fragmentar em ilhas isoladas de resistência e de sucumbir à lógica predatória do acesso aberto, onde a ausência de regras claras e de monitoramento efetivo convida à exploração insustentável, transformando a abundância em escassez e a vida em deserto.
A aplicação de modelos de governança eficazes na Amazônia exige uma compreensão profunda de suas dinâmicas e uma sensibilidade para com suas particularidades. Não se trata de importar soluções prontas, mas de cocriar arranjos que ressoem com a realidade local, incorporando a sabedoria de quem vive e respira a floresta. Estruturas participativas são o cerne desta abordagem, onde as vozes das comunidades locais, dos povos indígenas e dos ribeirinhos não são meros ecos, mas protagonistas na definição das regras que regem seus territórios e seus recursos. Imagine, por exemplo, um conselho gestor de uma bacia hidrográfica, onde representantes de pescadores, agricultores familiares, extrativistas e até mesmo de empresas de saneamento se sentam à mesma mesa. Neste fórum, as regras de uso da água – como períodos de captação, limites de descarte e proteção de nascentes – são negociadas e acordadas coletivamente, garantindo que a apropriação do recurso seja congruente com sua capacidade de renovação e com as necessidades de todos os usuários. A legitimidade dessas regras é fortalecida pela participação ativa, pois aqueles que são afetados pelas decisões têm voz em sua formulação, aumentando a probabilidade de adesão voluntária e de monitoramento mútuo.
A gestão de recursos naturais, como a pesca em rios e lagos de várzea, oferece um campo fértil para a aplicação prática de princípios de governança robusta. Em um cenário hipotético, comunidades ribeirinhas, historicamente dependentes da pesca, poderiam estabelecer acordos de pesca que delimitam claramente as áreas de uso exclusivo, os períodos de defeso para certas espécies e os tamanhos mínimos de captura. O monitoramento, neste caso, não seria apenas uma tarefa do Estado, mas uma responsabilidade compartilhada, onde os próprios pescadores, organizados em associações, vigiam os lagos, registram as capturas e identificam infrações. As sanções, por sua vez, seriam graduais, começando com advertências e podendo escalar para a suspensão temporária do direito de pesca na área, sempre com a possibilidade de recurso e de resolução de conflitos dentro da própria comunidade, antes de envolver instâncias externas. A eficácia desses arranjos é amplificada quando há um reconhecimento formal do direito dessas comunidades de se organizarem e de criarem suas próprias regras, seja por meio de leis estaduais que validam os acordos de pesca ou por políticas públicas que apoiam a gestão territorial indígena. A articulação entre diferentes níveis de governo, comunidades locais, setor privado e sociedade civil é, portanto, um imperativo. Um arranjo aninhado, onde as regras locais se encaixam em marcos regulatórios regionais e nacionais, e onde a fiscalização estatal complementa o monitoramento comunitário, cria uma rede de proteção mais densa e resiliente, capaz de enfrentar pressões externas e de garantir a sustentabilidade a longo prazo.
A inovação em governança na Amazônia é um campo vasto e promissor, onde a criatividade humana se encontra com a urgência ambiental. A vastidão e a complexidade do bioma exigem soluções que transcendam os modelos tradicionais. A tecnologia, por exemplo, pode ser uma aliada poderosa. Imagine plataformas digitais que permitam o monitoramento em tempo real do desmatamento e da atividade ilegal, alimentadas por dados de satélite e por informações coletadas por patrulhas comunitárias usando aplicativos de celular. Esses dados, georreferenciados e acessíveis, podem empoderar comunidades, agilizar a fiscalização e aumentar a transparência. A inovação também reside na capacidade de integrar conhecimentos tradicionais com a ciência moderna. Os saberes ancestrais sobre o manejo da floresta, sobre os ciclos da água e sobre a biodiversidade, acumulados ao longo de milênios, são um tesouro inestimável. Ao combiná-los com técnicas de sensoriamento remoto, modelagem climática e biotecnologia, é possível desenvolver abordagens baseadas na natureza que não apenas protejam o ambiente, mas também gerem valor econômico e social para as comunidades.
Modelos adaptativos de governança são cruciais em um ambiente de mudanças rápidas e incertezas crescentes. A Amazônia, sensível às alterações climáticas e às pressões econômicas, exige sistemas que possam aprender, ajustar e evoluir. Isso implica em processos de avaliação contínua, onde as regras são revistas periodicamente à luz de novas informações e de novas condições ambientais e sociais. A inovação pode se manifestar também na criação de novos mecanismos de financiamento que valorizem os serviços ecossistêmicos da floresta em pé, como o sequestro de carbono e a manutenção da biodiversidade, direcionando recursos diretamente para as comunidades que atuam como guardiãs do território. A resiliência da Amazônia, e, por extensão, a resiliência do planeta, depende da nossa capacidade de inovar na forma como nos organizamos, como tomamos decisões e como cuidamos do nosso patrimônio comum. Superar as barreiras históricas de centralização, de exclusão e de conflito exige uma governança que seja tão diversa e adaptável quanto a própria floresta, capaz de tecer novas redes de cooperação e de construir pontes entre mundos que, por vezes, parecem distantes.
A jornada da governança na Amazônia é uma epopeia em andamento, um desafio que se renova a cada nascer do sol sobre o rio-floresta. A necessidade de uma governança robusta e inovadora não é um luxo, mas uma condição existencial para que a Amazônia continue a ser o berço da vida, um farol de biodiversidade e um pilar de estabilidade climática. A interconexão entre a governança eficaz, a prosperidade humana e a saúde ecológica da região é inegável, um elo que se manifesta em cada gota de chuva que cai sobre a floresta, em cada peixe que nada em seus rios e em cada voz que se ergue para defender seu território. Que a sabedoria de seus povos, a força de suas águas e a resiliência de suas florestas inspirem a construção de arranjos de governança que sejam tão vastos, tão diversos e tão interconectados quanto a própria Amazônia, garantindo que o futuro deste santuário seja um testemunho da capacidade humana de coexistir em harmonia com a natureza, e não um epitáfio de oportunidades perdidas.

Nota de Rodapé
Esse texto foi baseado na obra de Elinor Ostrom (1933-2012), Nobel de Economia 2009 e pioneira nos estudos sobre recursos comuns, identificou oito princípios presentes em sistemas bem-sucedidos de gestão coletiva: (1) limites claros de recursos e usuários; (2) regras congruentes com condições locais; (3) participação dos usuários nas decisões; (4) monitoramento pelos próprios usuários; (5) sanções graduadas; (6) resolução rápida de conflitos; (7) reconhecimento do direito de auto-organização; (8) governança em múltiplos níveis. Sua obra demonstrou que comunidades podem gerir recursos comuns sustentavelmente com instituições adequadas, contrariando a inevitabilidade da “tragédia dos comuns”.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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