Publicado em: 10 de fevereiro de 2026
O termo “quebrar a internet” nunca foi tão bem aplicando quanto para o halftime show do Super Bowl de 2026, protagonizado por Bad Bunny. Ele apresentou uma construção narrativa brilhante, cuidadosamente articulada sobre identidade, memória histórica e pertencimento continental que transformou os cerca de 13 minutos do intervalo do Super Bowl, um dos ícones maiores do entretenimento mainstream nos Estados Unidos, em pura arte política, em uma sequência de quadros que dialogavam diretamente com as origens sociais do reggaeton, com a história de Porto Rico e com as disputas contemporâneas sobre identidade latino-caribenha dentro da lógica estadunidense.
Benito Antonio Martínez Ocasio nasceu em Vega Baja, Porto Rico, e cresceu longe de qualquer rota previsível para o estrelato global. O nome artístico que o mundo aprendeu a repetir, Bad Bunny, vem de uma foto de infância em que ele aparece fantasiado de coelho. Anos depois, o artista contaria que pensou em usar uma máscara de coelho para se apresentar porque “nunca quis ser famoso”, e que gostava da ironia de que “Bad Bunny, não importa o quão mal, continua fofo”. O símbolo ficou. E, com o tempo, virou linguagem que mistura delicadeza e afronta, humor e crítica, pop e posicionamento.
A carreira de Benito começou em 2016, de forma quase doméstica, com músicas publicadas no SoundCloud enquanto ele trabalhava e estudava. O que parecia improviso logo revelou um direcionamento claro, com letras em espanhol, estética própria, e uma recusa em suavizar sotaque, tema ou origem para caber no mercado anglófono. Em poucos anos, Bad Bunny não apenas rompeu a barreira do idioma no mainstream, como ajudou a deslocar o centro da música pop para o Caribe. Em 2026, tornou-se o primeiro artista da história a vencer o Grammy de Álbum do Ano com um disco em espanhol, alterando definitivamente a hierarquia simbólica da indústria.
Antes de ser headliner do Super Bowl, Benito já havia pisado naquele palco. Em 2020, participou como convidado no show de Jennifer Lopez e Shakira. Era parte de um momento latino dentro de um espetáculo conduzido por estrelas consolidadas que se converteram à anglofonia para abocanhar o mercado mundial. Seis anos depois, ele retornou como anfitrião.
Benito atuou em produções como Bullet Train e Happy Gilmore 2, dirigiu o curta que acompanha o álbum “Debí tirar más fotos”, além de ter sido o co-chair do Met Gala 2024 ao lado de Anna Wintour, Zendaya, Jennifer Lopez e Chris Hemsworth. Em 2021, Bad Bunny venceu o cinturão 24/7 da WWE (World Wrestling Entertainment) e levou sua música para o Royal Rumble com “Booker T”.
As apresentações de Benito, portanto, nunca foram apenas shows musicais. Quando ele sobe ao palco, leva consigo a história de Porto Rico, o não rendimento ao inglês como língua global, a memória caribenha, a estética urbana e uma leitura política do entretenimento. Bad Bunny já é a mensagem. Benito é, antes de tudo, um artista que nunca tentou parecer “internacional”. Ele insistiu em ser local, porto-riquenho, caribenho, latino, até que o mundo tivesse de se reorganizar ao redor disso, e não ao contrário, e com isso simplesmente mudou o centro do mapa cultural sem sair do lugar de onde veio.
Depois de entender quem é Bad Bunny, voltemos ao Super Bowl. O espetáculo começa com Benito atravessando um campo de cana-de-açúcar. A imagem, à primeira vista bucólica, é carregada de densidade histórica. A cana foi a base das economias coloniais caribenhas e o motor do sistema escravocrata que estruturou a formação social da região.
O público é deslocado para um período anterior ao entretenimento, anterior à música: para a base material que sustentou séculos de exploração. Os dançarinos caracterizados como jíbaros, figura do trabalhador rural porto-riquenho, historicamente associado à pobreza e depois ressignificado como símbolo de identidade nacional, corroboram ea leitura. Os facões, a postura corporal remetem a um passado agrícola que ainda ecoa no imaginário cultural da ilha.
As roupas brancas, de Benito e dos jíbaros, é referência à Santería, principal religião de matriz africana presente em Porto Rico, também conhecida como Regla de Ocha. Ela se formou a partir das tradições do povo iorubá levadas ao Caribe por africanos escravizados e reelaboradas em contato com o catolicismo. Sua organização espiritual gira em torno dos orishas, forças divinas associadas à natureza, ao destino humano e à ética da vida cotidiana. Rituais, oferendas, música, colares sagrados (elekes) e processos de iniciação estruturam a prática religiosa, que permanece viva e difundida na cultura porto-riquenha contemporânea.
O branco simboliza pureza ritual, proteção espiritual e equilíbrio, sendo especialmente associado a Obatalá, orisha da criação, da paz e da clareza. Iniciados, chamados iyawó, vestem-se de branco por cerca de um ano como marca de renascimento religioso e resguardo energético. Essa lógica simbólica encontra correspondência direta com os orixás cultuados no Candomblé e na Umbanda no Brasil, onde Oxalá ocupa posição equivalente a Obatalá e também é associado ao branco, à criação e à serenidade, fazendo com que o vestuário branco funcione, nas duas tradições, como expressão visível de conexão espiritual e proteção ritual.
A escolha do figurino foi parte central da narrativa construída para a apresentação. Benito vestiu-se com peças desenvolvidas pela Zara, em um trabalho realizado em colaboração direta com ele e com sua equipe criativa. A peça central partiu da referência a uma camisa de futebol americano. Sem logotipos e em tons neutros, a proposta buscava evitar qualquer associação com um time específico. No entanto, o traje carregava dois elementos pessoais e explícitos: o sobrenome “Ocasio”, em homenagem à família do artista, e o número 64. Esse número, segundo a própria explicação, pode remeter ao ano de nascimento de sua mãe ou ao número usado por um tio quando jogava futebol americano.
Desde o Grammy circula pela internet a afirmação de que Benito usa coletes à prova de bala, o que não é verdade. O formato de seu figurino era exatamente ao dos coletes usados pelos atletas de futebol americano.
Não apenas Bad Bunny vestia Zara. Seus bailarinos, a banda e a orquestra também usavam figurinos desenvolvidos pela marca como um fator de coerência política da apresentação, já que não faria sentido os artistas usarem roupas com um valor financeiro completamente inacessível para a maioria do público.
Em determinado momento do espetáculo, o artista se apresentou ao público dizendo: “Meu nome é Benito Antonio Martínez Ocasio, e se hoje estou aqui no Super Bowl LX é porque nunca deixei de acreditar em mim. Você também deveria acreditar em si, você vale mais do que pensa, acredite em mim”. Como é óbvio, “não é a mesma coisa que essa mensagem seja dita por alguém vestido com uma marca inalcançável para o seu bolso do que por alguém vestido de Zara”.
Funcionários da Zara receberam, na manhã seguinte ao show, uma versão da peça usada por Bad Bunny acompanhada de um bilhete do cantor. Na mensagem, ele escreveu: “Obrigado pelo tempo, o talento e o coração que vocês colocaram nisso. Obrigado por torná-lo real. Este show também foi de vocês. Espero que aproveitem. Até breve. Benito”.
O cenário simula uma pequena casa de bairro, com referências a dominó, salão de unhas, vendedores de rua, boxeadores e músicos. La Casita. Trata-se de uma reconstrução da vida cotidiana porto-riquenha fora do cartão-postal turístico. É a Porto Rico das comunidades, dos projetos habitacionais, dos bairros populares onde nasceu o reggaeton.
Durante a turnê, a “casita” costuma ser posicionada em uma das extremidades do palco ou mesmo no meio do público, estratégia que permite que pessoas com ingressos mais baratos consigam ver o artista de perto nesse momento do espetáculo. Por isso, havia grande expectativa sobre quem estaria ao lado de Benito na apresentação mais relevante de sua trajetória.
Desta vez, os convidados escolhidos foram a cantora colombiana Karol G, o ator chileno Pedro Pascal, a compositora porto-riquenha Young Miko, a atriz mexico-estadunidense Jessica Alba e a rapper estadunidense Cardi B.
É nesse contexto que se ouve a frase em espanhol: “Estás escuchando música de Puerto Rico, de los barrios y los caseríos”. A escolha não é casual, como nada alí é. O reggaeton, antes de se tornar fenômeno global, foi criminalizado e associado à marginalidade. Era música negra, de periferia, considerada indevida para a mídia tradicional. Bad Bunny não está agradecendo a inclusão no mainstream e sim lembrando de onde essa música veio e quem e o que ela simboliza.
O breve trecho de “Gasolina”, de Daddy Yankee, que explodiu como hit global em 2004, funciona como um claro marcador histórico. É uma referência direta à geração que abriu caminho para que o gênero ultrapassasse o estigma local. Referências sonoras que evocam nomes como Tego Calderón e Don Omar pontuam a raiz afro-caribenha do movimento. Benito deixa claro que o reggaeton não surge como produto pop e sim como expressão cultural negra, caribenha e urbana, frequentemente perseguida por autoridades porto-riquenhas nos anos 1990.
Os postes elétricos que caracterizaram uma parte palco, longe de serem apenas objetos cênicos, evocaram a precariedade histórica da infraestrutura energética da ilha, agravada após a passagem do furacão Maria, em 2017, quando o colapso do sistema deixou grande parte da população meses sem acesso à eletricidade.
Benito deslocou o olhar do público para a experiência coletiva de um povo – de toda a parte da América ao sul dos Estados Unidos – que convive com falhas estruturais crônicas, resultado de décadas de negligência administrativa e dependência política.
O momento em que Ricky Martin surge para cantar “Lo Que Le Pasó a Hawaii” desloca o espetáculo para um plano explicitamente político. A canção é uma analogia a Porto Rico sofrer o mesmo processo de descaracterização cultural e exploração econômica que marcou o Havaí após sua anexação pelos Estados Unidos.
A escolha de Ricky Martin é extremamente significativa. O artista porto-riquenho foi um dos primeiros a quebrar a bolha estadunidense e tornar-se um ícone pop, construindo uma carreira sólida pós-Menudos, que inclui música, cinema, televisão e Broadway. Além disso, teve a coragem de assumir publicamente sua sexualidade em um momento em que isto era arriscado em diversas camadas. Bad Bunny, que tem se posicionado contra a violência contra pessoas LGBTQIA+ em Porto Rico, trouxe Ricky como símbolo de transformação social e reconhecimento histórico.
Aliás, Ricky Martin apareceu num cenário que era uma reprodução direta da capa do álbum “Debí Tirar Más Fotos”,com as cadeiras plásticas brancas, a ambientação que remete ao cotidiano de Porto Rico e que, quando lançado, gerou a discussão online de que sua composição estética só era entendida verdadeiramente por latino-americanos.
Lady Gaga entra logo após “Lo Que Le Pasó a Hawaii” cantando uma versão em salsa da sua música “Die With a Smile”, originalmente gravada em 2024 com Bruno Mars e que fala sobre um homem criado no Havaí e descendente de porto-riquenhos, ampliando a metáfora da diáspora e da colonização cultural.
A banda que a acompanha aparece vestida como salseros dos anos 1970. A escolha visual remete à era de ouro da salsa em Nova York e no Caribe, período em que a música latina se consolidou como expressão política de comunidades migrantes e a salsa foi trilha sonora de resistência cultural latina nos Estados Unidos. Benito estabelece uma linha histórica entre a salsa, o reggaeton e a música latina contemporânea como formas sucessivas de afirmação identitária.
Numa inversão de papéis sociais, quando geralmente os latinos trabalham nos momentos festivos dos brancos estadunidenses, desde o ato de cozinhar, servir, até no entretenimento musical, neste casamento é Lady Gaga, branca, novaiorquina, filha de uma família milionária e celebridade global que canta no casamento de um casal latino. Aliás, o casamento é real. O casal convidou Bad Bunny para participar da celebração de seu matrimônio e o artista inverteu o convite.
Durante o casamento, uma cena icônica que fez a nostalgia borbulhar nos espectadores latino-americanos, quando Benito “acorda” um garotinho que está dormindo em três cadeiras juntas, no meio da festa. Eu, que assim como milhões de pessoas viveram esta realidade cultural, se reconheceram na delicadeza da memória de infância coletiva de povos unidos pelo espírito festivo que atravessa mesmo as realidades mais adversas.
Durante o discurso do Grammy, o primeiro artista a levar a premiação principal da noite com um álbum completamente em espanhol, disse que “O único remédio contra o ódio é o amor”. O casamento, a celebração real do amor foi a completa oposição ao cenário de ódio em que os Estados Unidos se encontra, fomentado pelo governo de Donald Trump, com agentes da ICE literalmente assassinando cidadãos pacíficos nas ruas.
Criou-se, inclusive, a fake news de que o garotinho que simbolicamente recebeu o Grammy na apresentação era Liam Conejo Ramos, o garotinho de 5 anos que foi detido junto com seu pai pelo ICE (ambos têm um pedido de asilo ativo) no último dia 20 de janeiro no subúrbio de Columbia Heights, no estado de Minnesota, e levados ao Texas, o que não procede, apesar da coincidência do nome do meio da criança, “Conejo”, que significa Coelho, “Bunny”, ser exatamente o nome artístico de Benito.
Donald Trump, não por acaso, em sua rede social fez questão de destilar todo o seu ódio ao show de Benito. Ninguém esperaria nada de diferente vindo dele.
Bad Bunny carrega a bandeira de Porto Rico azul-clara, a versão original, anterior à padronização do azul escuro para se aproximar visualmente da bandeira dos Estados Unidos. Durante décadas, exibir essa bandeira foi considerado ato subversivo e era crime. Hoje, ela é reconhecida como símbolo de resistência cultural e afirmação nacional porto-riquenha. Levantá-la no maior palco televisivo estadunidense é um gesto de enorme carga histórica.

No desfile final, Benito repete o jargão “God Bless America” (Deus abençõe a América) citando todos os países do continente americano, na afirmação que tantos de nós somos obrigados a repetir continuamente: Estados Unidos está inserido na América, que é muito, muito mais. Americanos somos todos nós.
Em vez de adaptar sua arte ao Super Bowl, Bad Bunny adaptou o Super Bowl à maioria dos americanos, que somos nós, os latinos. Benito Antonio Martínez Ocasio não quebrou só a internet, ele quebrou também a noção de que o entretenimento mainstream é necessariamente raso. Recuperou e ressignificou o nome a nós imposto pelos invasores de Abya Yala. Nossos corpos dançantes são políticos e o nosso amor é uma bomba atômica decolonial. “Juntos, nós somos a América”.










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