Publicado em: 6 de fevereiro de 2026
Nas últimas semanas, os textos aqui escritos dialogaram com análises de clássicos da Literatura brasileira, estabelecendo pensamentos sobre essas obras. Diante dessas análises, experimentei devanear sobre: autor-texto-obra. Qual a relação entre esses instrumentos? Quem é o soberano? Essas inquietações são latentes em minha vida docente e acadêmica. No texto de hoje, trago os debates promovidos em sala de aula do ensino superior e em conversas com amigos escritores e professores.
O debate em torno do triângulo autor–texto–leitor ocupa centralidade nos estudos linguísticos, literários e filosóficos contemporâneos. Longe de ser uma relação estática, esse triângulo revela tensões, deslocamentos e disputas de sentido que atravessam a linguagem. Esses três contextos não existem isoladamente; eles se constituem mutuamente no processo de significação.
Durante muito tempo, o autor foi concebido como a origem soberana do sentido. A leitura buscava decifrar intenções, biografias e contextos psicológicos. Contudo, essa centralidade começa a ruir no século XX, quando se compreende que o sentido não está “guardado” no autor, mas se produz na linguagem. Como afirma Antoine Compagnon, “a literatura não é a expressão de um sujeito, mas uma prática regulada por convenções” (O demônio da teoria).
Nas palavras de Compagnon o texto deixa de ser mero veículo de uma mensagem prévia e passa a ser entendido como um espaço de funcionamento discursivo. Para Eni Orlandi, o texto é um “objeto simbólico atravessado pela história e pela ideologia”, no qual os sentidos não são fixos, mas sempre passíveis de deslocamento. O texto, portanto, não fecha o significado; ele o abre. Se pensarmos no leitor, como resultado de suas vivências, valores e dogmas, o texto passa a atingir e romper com o leitor imaginário, tal como formulada por Orlandi, rompe definitivamente com a ideia de transparência da linguagem, “não há sentido sem interpretação, e não há interpretação fora da ideologia”. Isso significa que o texto não contém sentidos prontos, mas oferece materialidade para que eles se constituam na relação com o leitor.
É justamente nesse contexto que emerge a figura do leitor como instância fundamental. Tzvetan Todorov destaca que a obra literária “só existe plenamente quando é lida”, pois a leitura é um ato de atualização do texto. O leitor constrói sentidos a partir de sua memória discursiva, de sua formação histórica e de suas expectativas.
Orlandi novamente aprofunda essa discussão ao diferenciar o leitor empírico do leitor imaginário. O primeiro é o sujeito concreto; o segundo é aquele que o texto projeta. “Todo dizer supõe um destinatário”, afirma a autora, e é esse destinatário discursivo que orienta a forma, o tom e os implícitos do texto.
Antoine Compagnon propõe uma posição de equilíbrio nesse debate. Para ele, nem a morte absoluta do autor nem sua soberania total são suficientes. O sentido nasce de uma negociação: “o texto impõe limites à leitura, mas não a determina por completo”. Assim, o leitor é livre, mas não arbitrário.
Essa discussão dialoga com a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer, para quem compreender é sempre um encontro entre horizontes. O texto carrega marcas de seu tempo, enquanto o leitor traz as questões de seu presente. O sentido surge nesse entrelaçamento histórico.
A noção de autor como função discursiva e problematizada por Michel Foucault em “O que é um autor?” No texto Foucault afirma que o autor não é um indivíduo empírico, mas um princípio de organização dos discursos. Essa ideia reforça a compreensão de que o autor é uma construção histórica, assim como o leitor.
A radicalização desse movimento vem por meio de Roland Barthes, ao proclamar a “morte do autor”, deslocando o centro da significação para a leitura. Ainda que essa posição tenha sido revisada posteriormente, ela foi decisiva para evidenciar que o texto não pertence a quem o escreve, mas a quem o lê. Nosso querido amigo, Edyr Proença em seus comentários sobre sua produção Literária confirma a tese de Barthes.
O debate toma seu clímax quando Todorov, alerta para os riscos do excesso interpretativo. Para ele, a leitura não pode se desligar completamente do texto, sob pena de perder sua ancoragem. “Interpretar não é inventar livremente”, mas dialogar com a materialidade textual e seus limites. No cenário contemporâneo, marcado pelas tecnologias digitais e pela multiplicação de leituras, o triângulo autor–texto–leitor torna-se ainda mais instável. O leitor assume, muitas vezes, o papel de coautor, enquanto o texto circula, é recortado, remixado e ressignificado em diferentes contextos.
Assim, autor, texto e leitor não devem ser pensados como sujeitos hierárquicos. O autor produz sob condições históricas específicas; o texto materializa essas condições; o leitor as reinscreve a partir de sua posição ideológica e histórica.
Por fim, esse triângulo revela que o sentido não é origem nem destino, mas processo. Como mostram Orlandi, Compagnon e Todorov, compreender um texto é aceitar o jogo da linguagem e o deslocamento da intencionalidade e receptividade de um texto. Nenhum deles é soberano, é onde o humano se manifesta justamente na incompletude, na interpretação e no diálogo incessante entre história, discurso e leitura.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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