Publicado em: 4 de fevereiro de 2026
Depois de percorrer comunidades quilombolas do Pará desde setembro de 2025, o projeto “Barrigada: Negritude em Cena, Quilombo em Diálogo” realizará sua última apresentação em Belém nos dias 7 e 8 de fevereiro, no Teatro Waldemar Henrique, com entrada gratuita. A etapa final marca o encerramento de um percurso que articulou teatro, formação e diálogo comunitário em territórios onde, para parte do público, o contato com uma encenação teatral profissional ocorreu pela primeira vez.

Idealizado pelo artista de teatro Ysmaille Ferreira, o projeto foi premiado pela Lei Aldir Blanc – PNAB 005/2025 (Fomento à Circulação de Projetos Culturais) e contou com patrocínio da Casa de Estudos Germânicos da UFPA. A proposta colocou no centro da cena as vozes de mulheres negras quilombolas do Pará, combinando criação artística e ação pedagógica.
Ao longo da circulação, as atividades passaram pelas comunidades de Pitimandeua, Canta Galo e Pirucaua, além da capital. As ações incluíram apresentações teatrais, oficinas e rodas de conversa, com foco no fortalecimento da expressão artística local, no estímulo ao pensamento crítico e na valorização das memórias e formas de organização comunitária.
Um dos elementos centrais da encenação é a incorporação do bingo, prática comum em festividades religiosas e encontros comunitários. Os jogos iniciam as atividades e, nos intervalos, acontecem as cenas, criando um ambiente de escuta, partilha e interação entre artistas e público.
Durante os eventos, há venda de cartelas, e a renda é destinada à construção do barracão comunitário de Pirucaua. A participação é opcional, preservando o caráter aberto da proposta.
O nome “Barrigada” surgiu em uma roda de conversa, quando dona Benedita, liderança quilombola, utilizou a expressão ao falar do nascimento de pessoas da comunidade. A palavra remete à gestação, ao nascimento e também à prática tradicional de “puxar a barriga”, saber popular utilizado para auxiliar mulheres no parto.
A peça principal se passa durante a festividade de Nossa Senhora de Fátima no quilombo Pirucaua. Duas apresentadoras conduzem a plateia por um enredo que envolve sorteios, leilões e relatos das mulheres da comunidade, incluindo as “puxadeiras de barriga”.

A direção é assinada por Ysmaille Ferreira e Mar Oliveira, com atuação de Aline Lopes e Gisele Lopes, jovens negras da própria comunidade.
A atriz Gisele Lopes, de 17 anos, faz sua estreia no espetáculo. “Nunca imaginei que um dia estaria contando a história do nosso quilombo, e fazer parte desse projeto está sendo uma honra e um desafio ao mesmo tempo. Foi incrível poder compartilhar a arte e a cultura quilombola com comunidades que têm uma história tão rica e profunda”, relatou.
Ela acrescentou que “as comunidades nos receberam com muito carinho, e é muito lindo ver o empenho e a união de todos. É gratificante saber que o público vai estar vendo uma peça teatral pela primeira vez.”
Para a atriz, a apresentação nos próprios territórios gerou reconhecimento coletivo: “não só senti, como pude ver a reação dessas pessoas. Escutar suas falas e assistir suas histórias sendo contadas publicamente é realmente um momento de muita emoção. O mais lindo de ver é o brilho nos olhos. Minha vó se emocionou ao ver sua história sendo contada; não só ela, mas todas essas mulheres puderam ver o quanto são guerreiras e, hoje, terem orgulho de dizer: ‘essa é a minha história!’”
O projeto também inclui o solo “Maiô Imaculado”, interpretado por Ysmaille Ferreira, com direção colaborativa de Paulo Marat. A obra é inspirada na trajetória de Oscarina Ferreira Lopes, avó do artista, mulher negra amazônida que viveu experiências de racismo, pobreza e invisibilidade.

A narrativa aborda memórias da escravidão doméstica e rural no Pará, a religiosidade e a luta pela sobrevivência no interior da Amazônia. Alfabetizada na velhice, Oscarina mantinha o hábito de contar histórias familiares. O espetáculo se organiza em torno de um maiô, objeto simbólico que conduz a memória dessa trajetória.
Na apresentação em Belém, o público poderá ver os registros fotográficos de Neilton Moraes, que acompanhou as atividades nos quilombos, ampliando a memória do percurso.
Serviço:
Projeto: Barrigada: Negritude em Cena, Quilombo em Diálogo
Local: Teatro Waldemar Henrique — Avenida Presidente Vargas, 645 – Campina
Entrada: Gratuita
07 de fevereiro de 2026 (sábado)
• Abertura da exposição: 18h
• Espetáculos teatrais: a partir das 19h
• Intérpretes de Libras
08 de fevereiro de 2026 (domingo)
• Abertura da exposição: 8h30
• Espetáculos teatrais: a partir das 9h30
Fotos: Neilton Moraes









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