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Em toda a História, por quase mil anos, jamais houve um posto tão poderoso quanto o de Imperador Romano. Mas de cada 3 imperadores, apenas 1 morreu de causa natural. Um inferno. Nero, que o diga**.

Roma foi, durante séculos, o centro do mundo conhecidopor nós. O poder do imperador romano, teoricamente absoluto, revelou-se ao longo da história surpreendentemente vulnerável. Numa contagem que assombra qualquer crônica do poder, mais de dois terços dos imperadores romanos morreram de morte violenta, sendo a maioria assassinada por aqueles que lhes eram próximos: chefes da guarda, ministros, conselheiros, amigos, amantes, filhos, esposas, generais, senadores – todos de confiança orgânica. “Até tu, Brutus, meu filho”.

Entre os imperadores assassinados estão os mais vitoriosos, ricos, violentos e doentes como Júlio César, Calígula, Galba, Pertinax, Cómodo e muitos outros que sucumbiram não à lança do inimigo estrangeiro, mas à adaga do aliado íntimo. A questão é que a Maldição do Imperador é uma escolha própria, exatamente pelo oposto do que aparenta. Fraqueza, abandono, insegurança, solidão, amargura, inveja, ignorância. Daí a arrogância, a acumulação, e a necessidade de mostrar “superioridade”. Daí aceitar o inferno de viver entre quem não o respeita, mas teme. Como explicou Maquiavel no sec XV, nada de novo.

Essa estatística tenebrosa diz menos sobre a selvageria da Antiguidade e mais sobre a solidão essencial do poderautocrático. Curioso que o regime imperial romano surge da rejeição construída contra a República Romana, que possuía institutos inspirados na democracia grega. E os ataques se concentraram exatamente contra o que havia de democracia.

Ataques que construíram a visão de que os debates acirrados no parlamento, as marchas e contra marchas das decisões públicas eram, não a livre manifestação dos segmentos da sociedade, nem a dinâmica da negociação do consenso possível, mas uma bagunça. Assim ganhou a ideia de que um único ser humano deveria tomar as decisões políticas, econômicas, militares e até de direito em conflitos, inclusive privados. Coisa que, aqui pra nós, não é normal.

O trono romano era menos uma cadeira do que um abismoe demonstrava, na prática: quanto mais alto alguém sobeem uma estrutura piramidal, mais estreito é o espaço e mais rarefeito se torna o oxigênio da confiança, mais ilusórias as alianças, mais a certeza da traição se consolida. O imperador, cercado de luxo e sorrisos, estava condenado à permanente solidão, desconfiando de todos, especialmente dos mais próximos. E se já fica tensa a relação com os da casa, com os novos amigos que chegam, nenhum descanso. Um inferno.

Jung, perscrutando as sombras da psiquê, reconheceu que a identidade não pode ser sustentada pelo isolamento. O eu, privado de alteridade, adoece; e no topo do poder, o imperador, privado de iguais, passa a enxergar no outro apenas ameaça ou instrumento. Freud, por sua vez, reconheceu que a pulsão de poder tende ao isolamento narcisista, criando uma couraça onde a lealdade é absorvida pela necessidade de controle, não pelo reconhecimento do outro como legítimo.

Foucault, em suas reflexões sobre a Microfísica do Poder, lembrava que o poder é relacional: ninguém detém o poder sozinho, e toda autoridade fundada na coerção e no medo está condenada à instabilidade. O campo do poder é atravessado por jogos de força, alianças voláteis, solidariedades provisórias. Nessa tessitura, falta a lealdade verdadeira, a que brota do reconhecimento mútuo de identidades e projetos comuns, mas capaz de acolher diferenças.

A lição, portanto, é clara: Imperador, vá se tratar. Sociedade, vá se tratar. A verdadeira lealdade não pode ser imposta nem comprada. Ela é cultivada, construída dinamicamente, pela identidade compartilhada, pela importância concedida ao outro, pela solidariedade real e não apenas simbólica. Nas palavras de Hannah Arendt, a política que gera paz, só é possível entre iguais, não entre subalternos e dominadores.

Como recomendação, a Teoria de Campo de Kurt Lewin – que estudei no doutorado, trabalhando comportamento econômico – oferece um horizonte possível. Lewin propôs que o comportamento humano é resultado da interação dinâmica entre pessoa e ambiente. Para romper o ciclo da solidão e da traição, é preciso construir ambientes de qualidade humana: espaços onde o autoconhecimento é cultivado, a dignidade material é garantida, e as motivações existenciais podem ser compartilhadas de modo genuíno, felicidade. É nesse campo fértil que a solidariedade floresce e a lealdade se torna possível sem asfixiar o outro, sem transformar aliados em sombras ameaçadoras.

A História, ciência das ciências, demonstra que sempre que alguém ou um sistema entre em colapso, a insegurança e o desespero o leva à violências brutais e devastadoras. O fim do Feudalismo foi anunciado, não por acaso pelo cruel Estado Absolutista. Luís XIV, o Rei Sol, seu maior exemplo, diante do debate sobre o papel do Estado, chegou a dizer “O Estado sou eu”. De fato, formalmente lhe cabia decidir tudo, até a religião a ser praticada e qual Deus merecia fé.

Tanta soberba, acelerou as transformações vindas do conhecimento científico, daí do revolucionário Liberalismo político e econômico de Locke e Adam Smith que impulsionaram a retomada moderna da República. Depois de 70 anos no poder, Luis XIV morreu lentamente de gangrena senil na perna, que se espalhou para os ossos. Igualzinho a tantos outros idosos de seu lugar.

Para quem pensa a existência limitada à existência biológica, talvez não faça sentido o que vou dizer, mas o terror do Estado Absolutista durou quase 200 anos. Então para muitos, esta era a natureza das pessoas e nada jamais mudaria. Mas, de novo a História, explica que a existência tem também dimensões estruturais, sociais, culturais, que transcendem o individual, até mesmo em suas próprias gerações. Nesta dimensão é que é possível entender que o terror das violências de cima, anunciam mudanças em construção, não que aconteceram por acaso, mas que são possibilidades concretas que nos exige conhecimento e decisão.

As demonstrações de poder e terror que aniquilaram Gaza, humilharam a Venezuela, castigam o Congo, fazem apenas negócios na Ucrânia e daí em todo lugar, têm percorrido o mesmo roteiro. Neste caso, no desespero, quanto mais demonstra força fora, mais desgaste acumula dentro. O dólar cai porque outras moedas ocupam seu lugar e as reservas voltam a privilegiar o ouro, crescem os Brics, a Europa se distancia… a possibilidade de uma nova ordem é viável.

No Brasil, em ano eleitoral, a disputa pela nova ordem está viva, mas não é percebida na dimensão necessária pelos tomadores de decisão públicos e privados, daí permanecer a forte influência “de fora” que nos impõe o papel barato das comodities. O principal sintoma é a disputa entre nomes e não entre programas. Mais uma vez, independente do número de votos, terá poder econômico e político, o sujeito político que mais conseguir educar.

A solidão do imperador é inevitável, a estrutura autocrática e desigual o condena. Daí, o desafio da verdadeira liderança — seja em Roma, Brasília ou Washington — é criar um ambiente de negociação onde a presença do outro seja fonte de sentido, e não de ameaça. É no reconhecimento mútuo que reside a possibilidade de uma política mais humana, menos trágica, mais saudável— e menos solitária.

** Há controvérsia sobre ter sido Nero o autor do maior incêndio de Roma. Estes dizem que foi fakenews de Tácito seu maior opositor no senado. Mas Nero, que não era flor que se cheire, colocou a culpa nos cristãos. Era 64D.C. e 70% da cidade foi destruída, casas de madeira e ruas estreitas.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Tupinambá Arroyo
João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo

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