Publicado em: 30 de janeiro de 2026
Uma amiga historiadora, ex-aluna, Samyla Furtado, disse-me que ficou impactada com a leitura da obra de Graciliano Ramos e provocou-me a escrever sobre o romance. Mesmo Já fazendo parte da trilogia aqui comentada, que começou com o “Cortiço”, “Grande Sertão: Veredas”, e agora finalizo com “Vidas Secas”.
A obra insere-se no contexto do Brasil do Estado Novo, marcado por autoritarismo político, centralização do poder e profundas desigualdades sociais. Publicado em 1938, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, nasce no interior do projeto do regionalismo crítico da década de 1930, que abandona o pitoresco para denunciar estruturas de opressão. O momento histórico do romance dialoga com o fracasso das promessas republicanas. O sertanejo permanece à margem do Estado, reduzido à condição de força de trabalho descartável. Fabiano sabe disso intuitivamente, ainda que não consiga formular em palavras: “Fabiano era um bicho.” Essa frase brutal sintetiza a crítica central da obra: a pobreza extrema retira do sujeito não apenas bens materiais, mas o reconhecimento de sua humanidade.
A narrativa acompanha Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cadela Baleia em uma travessia cíclica pela seca. Logo se impõe a ideia de repetição e aprisionamento histórico: “Eles iam fugindo da seca.” Não se trata apenas de deslocamento físico, mas de uma existência condenada a recomeçar sempre do mesmo ponto. A seca é menos fenômeno natural e mais expressão concreta de uma estrutura social excludente. Em Graciliano, o sertão não é somente uma paisagem exótica, é um espaço de desumanização, onde a miséria corrói a linguagem, os afetos e a própria consciência.
O capítulo “Fabiano” revela um sujeito dilacerado entre a submissão e a revolta muda. Ao ser preso injustamente pelo soldado amarelo, Fabiano pensa: “Governo é governo.” A frase expõe uma consciência política embrionária, marcada pela impotência. Existencialmente, Fabiano não se percebe como cidadão, mas como alguém sempre em dívida com uma ordem que não o reconhece.
Nesse mesmo horizonte de resignação forçada, a expressão “o que é do chão não se trepa” condensa, de modo emblemático, a filosofia social que estrutura a vida de Fabiano. A frase não opera apenas como ditado popular, mas como internalização da violência estrutural. O “chão” simboliza a base dura da sobrevivência, o barro, a poeira, a condição animalizada, de onde não se ascende. A literatura aqui parece pessimista. Não existe felicidade.
Existencialmente, Fabiano já não concebe a possibilidade da transcendência social. Graciliano Ramos expõe, com essa máxima, a lógica perversa de um sistema que convence os oprimidos de que sua miséria é destino. Não é falta de ambição; é falta de horizonte histórico. Ao aceitar que “não se trepa”, Fabiano abdica do futuro antes mesmo de desejá-lo, e essa abdicação constitui uma das formas mais cruéis de desumanização narradas no romance.
Sinhá Vitória, por sua vez, representa o desejo mínimo de dignidade. Seu sonho com a cama de couro é um dos momentos mais simbólicos do romance: “Sinhá Vitória desejava uma cama grande, de couro.” Não se trata de luxo, mas de estabilidade, permanência, descanso. O sonho revela uma subjetividade que resiste à animalização, mesmo quando o mundo insiste em negá-la.
As crianças são figuras do silenciamento. Uma delas se pergunta sobre o significado da palavra “inferno”, mas não obtém resposta. O episódio é profundamente existencial: o mundo lhes nega não apenas o saber, mas a possibilidade de perguntar. A linguagem, que deveria ampliar o horizonte humano, aparece como privilégio inacessível. Em Vidas Secas, quem não domina a palavra está condenado à invisibilidade.
A cadela Baleia, paradoxalmente, é a personagem mais humanizada do romance. Seus pensamentos, afetos e medos são narrados com delicadeza: “Baleia queria dormir.” Sua morte constitui um dos momentos mais comoventes da literatura brasileira. Existencialmente, Baleia sonha, e sonhar é um gesto profundamente humano. Graciliano inverte a lógica social: o animal é capaz de imaginar um mundo melhor; os serem humanos, não.
O romance desmonta a ideia de progresso. Cada tentativa de fixação termina em fracasso. A estrutura circular da narrativa reforça a crítica histórica: nada muda porque as condições estruturais permanecem as mesmas. O final do livro ecoa o início: “E andavam para o sul.” A marcha continua, mas não há horizonte, existe apenas deslocamento.
A linguagem de Vidas Secas, é seca, como o sertão que descreve. Graciliano opta por frases curtas, vocabulário restrito e uma sintaxe rígida. Essa escolha não é apenas estética, mas ética. A escassez verbal reflete a escassez de mundo. Como observa Antônio Candido, trata-se de uma escrita “econômica e exata”, que recusa excessos porque narra vidas às quais tudo falta.
Do ponto de vista teórico, Vidas Secas realiza uma síntese entre o romance social e uma reflexão existencial profunda. Embora anterior à difusão do existencialismo no Brasil, a obra dialoga com questões centrais dessa filosofia: a alienação, o absurdo, a falta de sentido e a luta pela sobrevivência em um mundo indiferente. Fabiano existe, mas não escolhe; vive, mas não decide.
Graciliano Ramos não oferece redenção nem esperança fácil. Sua crítica é implacável, impactante, porque recusa sentimentalismos. Ao não idealizar seus personagens, ele os respeita. O autor compreende que a miséria deforma. E justamente por isso sua literatura é ética: ela obriga o leitor a encarar o que a sociedade prefere ocultar.
“Vidas Secas” permanece atual porque o Brasil que ela denuncia ainda insiste em existir. A obra nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas vidas continuam secas, não pela ausência de chuva, mas pela ausência de justiça? Graciliano Ramos escreve com dureza porque fala de um mundo duro. Seu romance não pede piedade. Exige responsabilidade histórica.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





Comentários