Publicado em: 26 de janeiro de 2026
Semana passada, lavando louça e ouvindo o excelente podcast O Assunto e o divertidíssimo Foro de Teresina, deparei com comentários que me causaram um certo desconforto. Para dizer a verdade, me deixaram mesmo invocado.
No Foro, há algumas semanas se referem aos novos ministros do Lula como “os Novos Baianos”. Pensei em reclamar ao vento, nas redes sociais, do que me parece uma estereotipização regional, mas deixei passar. Afinal, poderiam retrucar que o termo Paulistério tem sido usado desde o século XIX para reclamar do excesso de concentração de poder nas mãos paulistas — do gabinete de José Bonifácio ao de Lula 1.
Lá pelas tantas, já em O Assunto, discutem O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. O tema era a crítica à tese de que o cinema argentino seria mais premiado que o nosso porque trataria de temas universais, e o brasileiro não, por se restringir a temas regionais. Com as indicações ao Oscar, segundo a apresentadora, a hipótese se mostraria falsa porque poucos filmes seriam “tão regionais” quanto O Agente Secreto, e ainda assim estariam sendo premiados.
Aí é demais.
Mas olhem que coincidência: um dos temas mais importantes na obra do diretor Kleber Mendonça é exatamente a denúncia das violentas hierarquias regionais em nosso país. Presente em O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau, essa indignação aparece na forma de personagens grotescos, orgulhosos de sua “ascendência europeia”, sempre mandantes ou executores de inomináveis injustiças contra qualquer coisa que constitua o Brasil como nação: nortistas e nordestinos, pretos, pobres, intelectuais, universidade pública. Personagens que, a um marciano, pareceriam caricaturas — mas, sabemos, estão à solta em shopping centers, aeroportos e outros espaços “prime”, de norte a sul. Na obra de Kleber, os recortes de raça e classe desaguam nessa expressão territorial.
O excelente e sensível O Agente Secreto, como sabemos, não decepciona, e muito já foi dito sobre suas qualidades, refletidas inclusive na quantidade impressionante de prêmios internacionais — que, quando escrevo, em janeiro de 2026, já somam mais de 50.
Ainda assim, é chamado de cinema regional. Corta.
Longe de querer fomentar polêmica besta, o tratamento dado ao filme é uma oportunidade para discutirmos, mais uma vez, a noção de nacional e regional em nosso país — e como, no cinema brasileiro, isso tem se manifestado de maneira exemplar.
O termo “regional” pode, decerto, significar coisas muito boas (o verdadeiro, o profundo, o genuíno), mas normalmente está associado ao reforço de hierarquias de poder simbólicas, políticas e econômicas: é regional porque não é o todo. É particular, interiorano, às vezes até folclórico. É o outro, inculto.
Agora me digam: por que a linda história de uma família rica, moradora da beira-mar no Leblon, dilacerada pela violência da ditadura, é universal, enquanto a de um professor da universidade pública do Recife, assassinado a mando de um tecnocrata do regime militar, é regional? Aposto uma camisa do Clube do Remo que, numa enquete, a grande maioria do nosso povo se identificaria com o personagem de Wagner Moura.
O cinema de Kleber Mendonça é herdeiro de uma grande tradição que, desde Nelson Pereira dos Santos e Alex Viany — autores ligados ao PCB — se organizou em torno da revista Fundamentos, ainda na década de 1950. Naqueles anos, criticavam duramente o perfil e a qualidade dos filmes da produtora paulista Vera Cruz, considerados comerciais e provincianos, pois tentavam emular códigos supostamente cosmopolitas. Defendiam um cinema que expressasse a realidade do povo brasileiro, sem ridicularização nem generalidades.
Comentando o exotismo hollywoodiano de Caiçara, primeira produção da Vera Cruz, Pereira dos Santos disparava, no número 1/51 da revista, que o filme despreza “as relações de classe do litoral paulista”.
Olhar para o Brasil era, segundo esses autores, a chave para a libertação nacional: a criação de uma identidade poderosa que nos construiria como nação. Não por acaso, os autores da Fundamentos são precursores do Cinema Novo, cujo (não tão novo) baiano Glauber Rocha foi o maior expoente.
A dicotomia nacional–regional tem repercussões concretas: no financiamento cultural, na representatividade em fóruns decisórios, na definição de quem está dentro e de quem é excluído. Ao enquadrar uma obra de arte, um trabalho científico ou um profissional como meramente regional, opera-se imediatamente o reforço da hegemonia do eixo Rio–SP — e, pior, daqueles que nesse eixo operam com símbolos e linguagem aceitos pelos centros dominantes do Norte global, excluindo inclusive suas respectivas periferias locais.
O Brasil, para os “nacionais”, seria uma espécie de arquipélago constituído pelas ilhas Leblon, Higienópolis e Vila Madalena, cercadas por ilhas menores e habitado por moradores que desenvolveram a extraordinária capacidade de falar “sem sotaque”, apesar de nutrirem genuíno interesse pelos curiosos costumes de povos vizinhos.
Percorremos uma longa estrada como nação desde aqueles heroicos anos 1950, e a história mostrou mil vezes que boa parte do que nos faz felizes e respeitados mundo afora tem a cara do nosso povo. Ainda assim, não há um único dia em que algum sabichão não reproduza o provincianismo metido a cosmopolita já denunciado pelo coletivo da Fundamentos nos idos de 1952. Um presidente da República ter batido continência à bandeira dos EUA é só mais um capítulo dessa imortal cafonice.
_Belém, janeiro de 2026_









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