0
 

Recentemente Paolla Oliveira, atriz de sucesso e que esteve recorrentemente noticiada nos tabloides por um término de relacionamento, recebeu em seu apartamento doze mil flores, vindas em um caminhão, avaliadas em aproximadamente 10.000 mil reais.

Sem consentimento, a atriz considerou invasão de privacidade (e ouso dizer, de propriedade) e fez a denúncia em uma delegacia. A atriz precisou abrir sua casa e sua vida íntima novamente à mídia, sem o querer, além de ter que dar conta das próprias flores, que precisam de espaço e de cuidados, tendo o trabalho imposto de administrar o destino de 30 buquês de rosas.

Há uma construção cultural em torno do símbolo das flores e o amor romantizado, no qual as mulheres precisam ser cortejadas – e que sustenta a dicotomia entre os papéis sociais e a dita natureza entre homens e mulheres.

Mas como as construções sociais são poderosas e passam a moldar nossas emoções, desejos, ideais e identidade, muitas mulheres sonhavam e sonham em receber flores como prova de valor e de reconhecimento amoroso.

Obviamente o problema não está nas flores, tampouco em receber presentes como forma de gentileza ou agrado, mas nos acordos culturais das relações de gênero em torno de certos rituais e performances, que nunca se restringem ao ato em si.

Dito isso, preciso afirmar que mesmo essas práticas são desiguais entre as próprias mulheres. Por questões racistas sociohistoricas, mulheres negras acabam sendo excluídas dessas performances e lugar social, o que mobiliza sofrimentos e marcas psíquicas na autoimagem, mas também hierarquias racializadas e, consequentemente, rivalidade feminina.

A ideia de mulher frágil que precisa ser cortejada é comumente associada as mulheres branca. Contudo, cortejo e violência também são faces da mesma moeda: a da subordinação feminina e da dominação masculina. Isto porque são estabelecidas por uma lógica de desigualdade, onde os pares não ocupam os mesmos lugares enquanto sujeitos de direito, de poder de escolha e decisão.

Muitas vezes, o mesmo homem que pediu em namoro com flores, é aquele que fiscalizará roupa na hora de sair e proibirá de andar com as amigas, por exemplo. Pois, como já dito, os valores em torno de relações patriarcais que motivam as flores e as violências acabam sendo os mesmos.

Lembro que, quando mais nova e sem letramento, meu sonho sempre foi receber rosas de namorados. Coisa que quase não recebi e quando aconteceu, acabou sendo um protocolo e uma frustração pela sensação de performance um tanto esvaziada. Após ganhar as flores, arrumar um vaso, colocar na água, esperava que sobrevivessem um pouco mais.

Até um dia receber de alguém que não me relacionava e me sentir acuada a ter que conversar para dizer não. A estratégia de me mandar flores estava associada a uma autoestima de que possivelmente namoraríamos. Mas o problema não aconteceu só no envio, mas na forma do envio, que ocorreu na escola em meio a um evento, me expondo publicamente, sem nenhuma conversa privada ou particular sobre meus sentimentos e disponibilidade.

Muitas vezes enviar flores é carregado de outras estratégias para manipulação de se ter o que se quer, forçar um diálogo ou por ser um presente mais rápido que não exige o tempo e cuidado para comprar algo, de fato, afetivo e que demonstre reconhecimento e intimidade.

E assim, entro nos dois pontos que gostaria de falar nessa coluna e que acho importante para não romantização da situação vivida por Paolla Oliveira, pois sei que para muitas foi uma prova de amor receber um caminhão de rosas. Além disso, devido as romantizações culturais do patriarcado, muitas mulheres não sabem identificar, nomear, tampouco como proceder em situações violentas.

Os assuntos que falarei brevemente são: 1- love bombing (bombardeio de amor, em português) e 2- stalking.

Para quem nunca ouviu falar, love bombing é uma tática de manipulação psicológica que oferece carinho, presentes, atenção, promessas, elogios de forma intensa no início do relacionamento, tratando a mulher como muito especial, sobrecarregando de mimos e agrados de difícil recusa, por serem valorizados socialmente, mas que tem como intuito manipular e controlar a mulher a longo prazo.

Um dos grandes efeitos dessa prática intencional e nada ingênua é a pressão ao compromisso e a sensação de dívida, pois muitas mulheres se culpam ou se sentem convocadas a permanecer na relação, como se dizer não fosse recusar um par perfeito, e ser ingrata, ja que toda mulher gostaria de estar nesse lugar. Exemplo: como terminar ou frustrar um homem que todo dia deixa flor e bilhetes românticos no meu trabalho? O que escuto no consultório é: será que eu sou problema? Será que não aceito alguém que me trata bem? Ou seja, mulheres se responsabilizando ou culpando, como se fossem obrigadas a corresponder.

A cultura coloca para nós que quando um homem realmente nos quer, nós precisamos pelo menos considerar e avaliar, quase como uma imposição do nosso destino que é ser valorizada por um homem. Essa avaliação se torna ainda mais impositiva a partir do local social que este homem ocupa, como cor de pele, etnia, condição financeira e posse de bens.

O problema é que a manipulação do love bombing é acompanhada de uma intensidade e velocidade que podem ser difíceis de serem internalizadas e desenvolvidas como afeto, fazendo muitas mulheres ficarem confusas com o que estão vivenciando e sentindo.

E a questão está aí: enquanto algumas sentem estranhamento por considerar o excesso sufocante ou até irrealista, outras – mais vulneráveis em buscar de um amor – podem se tornar iscas fáceis para um relacionamento de violência psicológica, com isolamento social, depreciação e afins.

Percebam que não estou falando de um envio de um simples buquê de rosas, trata-se do excesso, do desmedido, de técnicas de manipulação para sedução e envolvimento da mulher pela via do dispositivo amoroso, que os homens sabem que são centrais em nossa subjetivação e, muitas vezes, brincam e usam isso.

E embora o caso da Paolla Oliveira aparentemente não tenha a ver com Stalking, é preciso lembrar que existe um tipo de perseguição obsessiva e constante que já é crime no Brasil, desde 2021. Trata-se de monitoramento persistente, físico ou on-line, com tentativas insistentes, de mensagens ou aparição em locais, como na própria residência.

O que Paolla Oliveira vivenciou é da ordem do assédio. Imaginem um estranho descobrir seu endereço e se sentir no direito de intervir no seu espaço e no seu cotidiano, sem consentimento. Longe de prova de amor ou de conquista, é uma tentativa egóica de chamar atenção pra si, usando dinheiro como estratégia e compra de afetos, e fala muito mais sobre poder do que de amor.

Enfim, mulheres protejam-se, e assim como Paolla, desnaturalizem práticas abusivas e façam denúncias, quando necessário.

E para as que desejam e gostam de receber flores, espero que vocês recebam sem essas intencionalidades de manipulação ou de script sociais robotizados, mas como gestos genuínos de afetos, que podem ser realizados por vocês próprias, por amigas, familiares e até seus companheiros. E que de preferência, sejam flores plantadas para que possam encher de vida suas casas.



*A opinião do articulista não reflete posicionamento do portal.

Bárbara Sordi
Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Psicologia Hospitalar da Saúde, Facilitadora de Círculos de Paz, Professora da Universidade da Amazônia, coordenadora do Projeto “Sobre-viver às violências” e do Grupo de estudos “Relações de gênero, Feminismos e Violências”, Mestre e Doutora em Psicologia pela Ufpa e coordenadora/assessora da Vereadora Lívia Duarte. Mãe da Luísa e Caetano, Feminista Terceiro Mundista.

PJ de Portugal faz megaoperação contra integrantes do grupo neonazista 1143 por crimes de ódio contra imigrantes

Anterior

Unama é a única do Norte/Nordeste a elevar nota do PPGDF

Próximo

Você pode gostar

Comentários