Publicado em: 18 de janeiro de 2026
No âmbito do Naturalismo brasileiro, O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, afirma-se como um romance de tese que desloca o foco do indivíduo para o meio. Mais do que narrar a ascensão de João Romão ou o desfile de tipos populares, como normalmente aprendemos nas salas de aulas, a obra constrói o cortiço como uma entidade viva, dotada de dinâmica própria, capaz de condicionar comportamentos, paixões e destinos. O espaço deixa de ser meramente um ambiente ou cenário e assume a função de personagem central, corporificando a tese naturalista de que o meio determina o ser humano.
Desde as primeiras páginas, o narrador atribui ao cortiço uma vitalidade quase orgânica. Azevedo descreve o espaço como personagem que cresce, pulsa e se transforma: “O cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas”. A metáfora do despertar coletivo sugere um corpo que respira e se movimenta, antecipando a ideia de que ali não vivem apenas indivíduos isolados, mas um organismo social complexo.
Essa perspectiva dialoga diretamente com o Naturalismo de matriz de Émile Zola (1840 – 1902), no qual o romance se constrói como experimento social. Para Émile Zola, o escritor deveria observar os fenômenos humanos como um cientista observa a natureza. Em O Cortiço, essa observação recai sobre o espaço urbano degradado, cuja lógica interna explica a conduta de seus habitantes. Antônio Cândido observa que, no romance, “o verdadeiro herói é o meio coletivo, que absorve e redefine os indivíduos” (CANDIDO, O discurso e a cidade).
O cortiço, enquanto personagem, possui um ciclo vital próprio. Ele nasce humilde, expande-se com o lucro de João Romão, sofre o incêndio e renasce maior e mais rentável. A destruição não significa expiação moral, mas apenas uma etapa do processo. O narrador registra: “Aquilo fervilhava como um formigueiro assanhado”, imagem que reforça a ideia de massa anônima, incessante e impessoal, submetida às leis do espaço que ocupa.
Os personagens humanos, nesse contexto, são menos sujeitos psicológicos e mais funções sociais. Rita Baiana, Firmo, Pombinha ou Bertoleza não conduzem plenamente suas escolhas; são conduzidos pelas forças do ambiente. Afrânio Coutinho ressalta que “o cortiço age como um agente corruptor, nivelando por baixo e arrastando todos para sua lógica sensual, instintiva e material” (COUTINHO, Introdução à literatura no Brasil).
A “animalização” das personagens é, na verdade, um efeito direto da centralidade do espaço. O narrador afirma que “o cortiço parecia um viveiro de larvas sensuais”, imagem dura, mas coerente com a tese naturalista. O desejo, a violência e a solidariedade surgem como reações quase fisiológicas a um meio superlotado, quente e insalubre. Assim, o cortiço abriga e convoca ações dentro de sua intriga. Aqui o termo intriga é utilizado como conceituado por Gonzaga Mota. Intriga, enredo.
Mesmo João Romão, frequentemente lido como protagonista, acaba subordinado ao espaço que explora. Sua ambição cresce na mesma proporção que o cortiço se expande. Quando o ambiente se valoriza, ele se “civiliza”; quando o cortiço é visto como foco de degradação, ele tenta renegá-lo. O espaço, porém, permanece, revelando-se mais duradouro que qualquer trajetória individual.
Críticos como Alfredo Bosi destacam que o romance registra “a transformação da miséria em sistema”, isto é, a institucionalização da pobreza urbana (BOSI, História concisa da literatura brasileira). Nesse sentido, o cortiço-personagem funciona como síntese da cidade do Rio de Janeiro do fim do século XIX, marcada por epidemias, exclusão social e reformas higienistas que atacavam o espaço, não as causas sociais.
Ao tratar o cortiço como entidade autônoma, o romance antecipa uma leitura crítica das políticas urbanas. A lógica que destrói o espaço para “resolver” o problema reaparece tanto na história real quanto na ficção. A literatura, contudo, revela aquilo que o discurso oficial oculta: a persistência do organismo coletivo, que se recompõe sempre que as condições sociais permanecem as mesmas.
Assim, O Cortiço se consolida como romance de tese em que o verdadeiro protagonista é o espaço social. O cortiço-personagem concentra em si, trabalho, desejo, conflito e sobrevivência, funcionando como metáfora viva das cidades brasileiras. Ao fixar esse organismo na linguagem literária, Aluísio Azevedo não apenas retrata um tempo histórico, mas formula uma crítica que permanece atual: enquanto o meio continuar doente, os corpos que os habitam também continuarão doentes.




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