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A água é o elemento maternal por natureza, acolhedor, fertilizante de outro elemento também feminino, a terra. A água é o elemento nunca quieto, aquele que não conhece obstáculos, contorna o empecilho e segue a viagem da eterna purificação.

Onde há água, há criação.

É uma forma líquida da luz. Expandem-se ambas, não voltam. A água corre, evapora, endurece. A água é parece o tempo, não para.

A água é mística por natureza. 

A poesia de José Wilson Malheiros da Fonseca começa com a terra e se expande com a água, e vice-versa.

“The land and the man are one” dizia o lendário rei Artur. É isso que me refiro: a uma peculiaridade do autor do livro Água Mística, afinal o líquido elemento é marca de nossa amazoníada epopeia, a natureza verde das matas e dos rios.

Falar da poesia de José Wilson Malheiros é tocar a sensibilidade de um homem múltiplo, revelando que uma única vida mostrou ser pouca para tantas habilidades seja ela como musicista, multi-instrumentista, advogado, jurista, professor, diácono, acadêmico, poeta e escritor.

Curiosamente, um outro livro dele chama-se “Sentenças escritas na água” um interessante mesclar da reflexão jurídica a partir de uma forma poética de pensar o ato de ajuizar uma sentença.

Às vezes, uma paisagem da cidade vira um instrumento musical, como os “teclados do Ver o Peso” nessa simbiose de música e urbanidade; essa sensorialidade típica de uma poesia imersa no mundo da arte.

Mas, quero falar da trova, um gênero poético popular, herdado da tradição lusitana que se espraiou muito bem pelo nordeste brasileiro e em todos que têm a língua poética do povo. 

A trova, aliás, a quadra como é chamada em Portugal, tem em lares lusitanos à moldura de azulejos como parte da alma “da gente da minha terra” como canta e nos faz chorar a Mariza, a cantora portuguesa, nascida em Moçambique.

O livro de José Wilson Malheiros fala da sua e a nossa terra, a Amazônia. E em cada trova uma moldura de identidade amazônica. 

A trova apesar de ter quatro versos fala de muita coisa, com sete sílabas poéticas ela revela a lúdica musicalidade, a imagem sensorial e a imprescindível memória do trovador.

“A maior sabedoria
Nem procura andando cego.
Meu avô já me dizia:
Conhecer o próprio ego.”

“Canta, vive e te refresca.
Pescador, a vida é um fio:
Quando o tempo é que te pesca
Tu te vais e fica o rio.”

“O meu coração tem brasas
Que me fazem arder, aflito.
O teu coração tem asas
Que me deixam no infinito.”

Selecionei estas trovas do seu livro “Água Mística”. Observem como o autor diz de sua terra, da sabedoria do avô, do aprendizado com os rios, e de sua incrível capacidade de absorver tanta poesia de seu olhar evidentemente amazônico.

Benilton Cruz
Benilton Cruz é doutor em Teoria e História Literária, professor de alemão e do Curso de Letras-Português e Letras-Libras da UFRA, Campus Belém, autor dos livros: Olhar, verbo expressionista – O Expressionismo Alemão no romance “Amar, verbo intransitivo de Mário de Andrade; Moços & Poetas – Quatro Poetas na Amazônia - Ensaios Sobre Antônio Tavernard, Paulo Plínio Abreu, Mario Faustino e Max Martins; Espólios para uma Poética – Lusitanias Modernistas em Mário de Andrade; pesquisador e perito forense, editor do blog Amazônia do Ben; editor do Canal de Poemas No Meio do Teu Coração Há um Rio, no Youtube. Diretor da Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará; e membro eleito da Academia Paraense de Letras.

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