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Peço licença aos especialistas e estudiosos para me meter, meramente como curioso neste assunto: riso e gargalhada. É que ia passando e vi um homem em uma roda de amigos, gargalhando. Era um som estranho, como se fosse de uma gralha em desespero. Acho que os outros gargalhavam mais pelo som, do que pelo assunto que teria resultado na gargalhada. Depois me lembrei de minha irmã querida, Fafá de Belém, que havia encontrado minutos antes e que gargalhava, como sempre, de maneira farta, livre, gostosa e provocante. Fui pesquisar sobre o riso, que tem múltiplas significações. Primeiro que pode ser contido. Abafado. Pode significar uma miríade de motivos, sob o nosso controle, sob o qual julgamos e escolhemos como fazê-lo, inclusive de maneira falsa, conforme nossa necessidade. Piadas sem graça, por exemplo, contadas por alguém em cargo superior que convém agradar. Quem, não? Mas mesmo o riso pode ser estranho. Conheço uma mulher, baixinha, toda animada, que ri muito e cada vez parece que um trovão sairá de seu pequeno corpo, causando-lhe certos movimentos, pela dificuldade em produzi-lo. E é riso, de alegria. Rimos com os olhos abertos, a boca medianamente aberta. E as pessoas que tapam a boca ao rir? O riso abafado por conveniência, respeito, constrangimento, vergonha?
E a gargalhada? Incontrolável, espasmódica, fazendo o corpo se dobrar até o chão, os olhos fechados, a boca aberta, sem pejo, as contrações musculares, o diafragma totalmente livre para deixar-se levar. E a cada vez que relembramos o que nos fez gargalhar, dobramos a gargalhada, ficamos sem ar, lagrimamos e ao final, soltamos um leve som de encerramento. Tudo isso está nas explicações, até mesmo mais profundamente, com os especialistas. A mim interessa, desde o início, outra coisa: o som de cada gargalhada. Conheço pessoas extremamente sérias, timbres de voz grave que no entanto, ao gargalhar, revelam melodias inusitadas, digamos, ridículas e que fazem as outras pessoas começarem a rir, não do assunto, mas da gargalhada e a partir daí, como uma sequencia, renovarem-se. Quer dizer, ele, que gargalha, intensifica a partir da lembrança do motivo da gargalhada. Moças, lindas, discretas, com gargalhadas absurdas. Pronto. Onde está o motivo? A timbragem vem das cordas vocais? Também, mas não o essencial que aqui procuramos, que é a melodia. Não combina, entende? Quando Fafá ri, bela, atuante, esfuziante, não há melhor tradução. E creio que a maioria de nós ri gostosamente. Mas essas pessoas, tão normais quanto nosotros (nós, normais?), com seus risos a provocar-nos gargalhada incontida. Dobramo-nos até o chão, batemos com os punhos nas mesas, ensaiamos passos de dança, empurramos cadeiras e ao final, exangues, vem aquele último som de despedida. Ahn. Sim, a gargalhada é tóxica, em público. Platéias inteiras são influenciadas. Às vezes, em teatro, a platéia não está tão comunicativa, mas alguém, com o riso frouxo, toca fogo no humor de todos. Uma vez, criança, com meus pais, no Cine Moderno, assistindo ao “Deu a louca no mundo”, espantava-me ao presenciar pessoas que se levantavam e iam para o corredor entre as cadeiras, gargalhando, pareciam estar passando mal. Saímos do cinema e alguém, lá fora, lembra uma cena e volta a gargalhar, junto a todos os outros. De quê te ris? Tárindequê?

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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