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Quando pensamos em um texto literário, um romance, um conto, uma poesia, não temos a dimensão do que está sob o discurso impregnado nessa arte. A literatura sempre foi mais do que um exercício estético ou um entretenimento refinado: ela constitui uma forma privilegiada de compreender o mundo e o ser humano em sua complexidade histórica, social e simbólica. Ao narrar experiências individuais e coletivas, a literatura registra conflitos, valores, crenças e transformações, funcionando como um arquivo sensível da humanidade. Como observa Antônio Candido, a literatura “confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate” e, por isso, participa ativamente da construção da consciência social (CANDIDO, 2004). No diálogo com a história, a literatura se apresenta como uma fonte singular de interpretação do tempo. Diferentemente dos documentos oficiais, os textos literários captam as emoções, as tensões e os silêncios que muitas vezes escapam à historiografia tradicional. Obras como Guerra e Paz, de Tolstói, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, revelam além dos fatos históricos, o pensamento e os dilemas éticos de suas épocas. Nesse sentido, o historiador Roger Chartier ressalta que a literatura permite compreender “as representações que os homens constroem de sua própria realidade” (CHARTIER, 1990).

Quando pensamos na relação entre literatura e filosofia é igualmente profunda, pois ambas se interrogam sobre a existência, a liberdade, o sentido da vida e a condição humana. Muitos escritores assumiram explicitamente o papel de filósofos por meio da ficção, como Jean-Paul Sartre e Albert Camus, para quem o romance e o teatro eram formas legítimas de reflexão filosófica. Sartre afirmava que a literatura é um “ato de liberdade” e que escrever implica uma tomada de posição diante do mundo (SARTRE, 1989), o que reforça seu caráter ético e reflexivo.

Ao percebermos a sociedade, entendemos que a literatura funciona como um espelho crítico das estruturas sociais. Os romances realistas do século XIX, como os de Balzac ou Machado de Assis, evidenciam as contradições de classe, os jogos de poder e as desigualdades que organizam a vida social. Pierre Bourdieu lembra que a obra literária está inserida em um campo social específico e reflete, ainda que de modo simbólico, as disputas e hierarquias desse espaço (BOURDIEU, 1996). Assim, ler literatura é também ler a sociedade que a produziu. 

Se estabelecemos um olhar atento para a Antropologia, ela por sua vez, encontra na literatura um território fértil para compreender culturas, rituais e modos de vida. Narrativas literárias frequentemente preservam mitos, tradições orais e visões de mundo que dialogam diretamente com o olhar antropológico. Claude Lévi-Strauss reconhecia que a literatura, assim como o mito, organiza simbolicamente a experiência humana e revela estruturas profundas do pensamento cultural (LÉVI-STRAUSS, 1978). Nesse entrecruzamento de saberes, a literatura atua como uma linguagem de síntese, capaz de articular dimensões objetivas e subjetivas da realidade. Ela traduz teorias abstratas em histórias vivas, personagens concretos e situações reconhecíveis. Ao ler um romance, compreendemos conceitos históricos ou sociológicos, sentimos o impacto dessas forças sobre a vida humana, o que amplia a empatia e o pensamento crítico.

A força humanizadora da literatura reside justamente nessa capacidade de nos colocar no lugar do outro. Ao acompanhar trajetórias fictícias, o leitor é convidado a atravessar fronteiras culturais, temporais e existenciais. Martha Nussbaum destaca que a literatura desenvolve a imaginação moral, essencial para a formação ética e cidadã, pois ensina a reconhecer a dignidade e a vulnerabilidade humanas (NUSSBAUM, 2015).

Além disso, a literatura questiona verdades estabelecidas e problematiza discursos dominantes. Ela não oferece respostas fáceis, mas provoca inquietações e desconfortos necessários ao avanço do pensamento. Como lembra Roland Barthes, a literatura é o espaço onde a linguagem “escapa ao poder” e abre caminhos para novas formas de pensar e dizer o mundo (BARTHES, 2007).

No contexto do ensino superior, compreender a literatura como instrumento de diálogo com a história, a filosofia, a sociologia e a antropologia é fundamental para uma formação crítica e interdisciplinar. Ela não substitui essas ciências, mas as complementa, oferecendo densidade humana aos dados, conceitos e teorias. Ler literatura é aprender a interpretar o mundo para além das estatísticas e dos manuais. A literatura se afirma como um saber transversal, capaz de integrar diferentes áreas do conhecimento e aprofundar a compreensão da experiência humana. Ao unir sensibilidade e reflexão, ela legitima-se como um instrumento indispensável para o entendimento das ciências humanas e sociais, reafirmando seu papel formativo, crítico e humanizador na construção do pensamento contemporâneo.

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

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