Publicado em: 8 de janeiro de 2026
No Antropoceno, não há transição sustentável duradoura sem democracia, nem democracia resiliente sem um chão biofísico minimamente estável.
Democracia e sustentabilidade deixaram de operar como agendas paralelas e passaram a se impor como condições recíprocas de sobrevivência no Antropoceno. A ideia central é direta: não existe democracia estável sem uma base biofísica minimamente segura, assim como não há transição sustentável duradoura sem participação, deliberação pública e legitimidade política. Quando escassez e insegurança se tornam regra, o espaço público tende a encolher, a política se reorienta pelo medo e as liberdades passam a ser negociadas como custo inevitável — um deslocamento que tensiona o próprio sentido de liberdade política, como já se depreende do argumento de Spinoza no Tratado Teológico-Político, ao insistir que a vida coletiva não se sustenta quando o medo passa a governar as decisões.
Essa interdependência, porém, vem acompanhada de uma tensão estrutural. Se a sustentabilidade é tratada como um fim “extra-político” — um objetivo supostamente indiscutível, a ser alcançado por imposição — ela pode deslizar para uma forma de autoritarismo ecológico. A crise climática e ambiental amplia a urgência, mas não resolve, por si, o dilema democrático: como decidir coletivamente sob incerteza, assimetrias de poder e temporalidades longas sem transformar ciência em dogma e urgência em exceção permanente. Nesse ponto, a advertência liberal clássica sobre legitimidade não é acessório retórico: em Locke, no Segundo Tratado sobre o Governo Civil, o poder político só se sustenta quando não rompe o vínculo com o consentimento e com limites que o impedem de se converter em arbítrio.
Ao longo dessa discussão, a sustentabilidade aparece menos como um pacote técnico e mais como uma mudança ética. Em vez de ser reduzida à gestão instrumental de recursos ou a práticas superficiais rotuladas como “verdes”, ela é entendida como autolimitação consciente diante de limites planetários e como ampliação do campo moral para além do imediatismo econômico. É um deslocamento que dialoga com a “ética da terra” de Aldo Leopold, formulada em A Sand County Almanac, e ganha escala pública com Rachel Carson, em Primavera Silenciosa, ao explicitar como escolhas tecnológicas e produtivas podem desorganizar sistemas ecológicos e, por extensão, redes de vida das quais dependem sociedades inteiras. Nessa perspectiva, sustentar a vida no tempo não é apenas melhorar indicadores; é incorporar a responsabilidade por consequências acumuladas e por impactos que atravessam gerações.
Esse enquadramento ético tem uma implicação decisiva para a política: a sustentabilidade precisa ser prática no presente, um modo de orientar escolhas e instituições aqui e agora, e não um “produto final” prometido para o futuro. Quando ela é convertida em meta distante, administrada por um planejamento central que exige obediência, abre-se espaço para a ideia de que a democracia seria um obstáculo a ser contornado — justamente o atalho que tende a corroer a própria legitimidade e, com ela, a eficácia das políticas ambientais e ecológicas. A formulação de Hans Jonas, em O Princípio da Responsabilidade, reforça esse ponto ao deslocar o foco para um imperativo de permanência: quanto maior o poder de intervenção humana, maior a obrigação de responder por efeitos duráveis — sem que isso autorize transformar a urgência em regra de exceção.
Do outro lado da equação, a democracia é apresentada como algo mais amplo do que procedimentos eleitorais. Trata-se de um regime de autonomia coletiva, sustentado por participação, contestação, transparência, controle social da agenda e produção pública de normas. Essa leitura converge com a ênfase de Robert Dahl na ideia de poliarquia, ao associar democracia não a uma abstração, mas a condições institucionais que tornam o poder contestável e o acesso político minimamente distribuído. Ela coloca a liberdade não como um item acessório do Estado, mas como um componente estruturante do agir político — e reforça que a organização social é uma construção humana que precisa encontrar meios de proteger sua base natural sem aniquilar o sentido de liberdade que dá significado à vida pública.
No Antropoceno, esse desafio se intensifica. A política deixa de lidar apenas com a distribuição de bens e passa a enfrentar, de forma explícita, a gestão de riscos sistêmicos. Ainda assim, o diagnóstico não aponta para a substituição da liberdade por “necessidade ecológica”. O que muda é o nível de complexidade: decisões passam a ocorrer sob efeitos cumulativos, disputas informacionais e conflitos distributivos mais agudos, exigindo instituições capazes de absorver evidências científicas sem retirar da sociedade o direito de decidir. É nesse contexto que Bruno Latour, ao propor o deslocamento de fronteiras entre “natureza” e “política” em Políticas da Natureza e na imagem do “Parlamento das Coisas”, oferece uma lente útil: não se trata de encerrar o debate público em nome de fatos, mas de reconhecer que a materialidade do mundo precisa entrar no centro da disputa democrática — e não ser usada como justificativa para suspendê-la.
Um dos pontos mais sensíveis é o tempo. A crise ambiental opera em horizontes de décadas, enquanto a política democrática frequentemente se organiza em ciclos curtos. Esse descompasso alimenta o chamado problema do curto prazo: a tendência de priorizar ganhos imediatos em detrimento de compromissos longos, mesmo quando os custos futuros são previsíveis. É um impasse que atravessa marcos históricos da agenda ambiental e do desenvolvimento, do debate mobilizado por Os Limites do Crescimento ao Relatório Brundtland, e reaparece como dificuldade prática de manter continuidade e ambição quando a política se estrutura em alternâncias rápidas e incentivos imediatos. Daí emergem dois riscos simétricos e igualmente perigosos.
O primeiro é a democracia sem sustentabilidade. Nesse cenário, a deterioração ambiental e a escassez minam as condições materiais da liberdade, elevam conflitos por água, alimento, energia e território, e favorecem soluções de força, vendidas como resposta pragmática a um colapso em curso. O segundo é a sustentabilidade sem democracia. Aqui, políticas ambientais impostas de cima para baixo tendem a produzir rejeição social, despertencimento, revoltas, sabotagens e uma espiral de desconfiança que, no limite, reduz a capacidade de implementação e enfraquece os próprios resultados ecológicos que se pretendia obter. A urgência pode acelerar decisões, mas não substitui legitimidade — e sem legitimidade, a política ambiental vira alvo fácil de reversão.
Essa dupla ameaça se agrava em um contexto político marcado por negacionismo científico e por formas de governo que relativizam direitos e abandonam padrões mínimos de verdade factual. Mas o caminho apontado não é transferir soberania a especialistas. Ao contrário: a leitura é que a crise é ao mesmo tempo ecológica e política, e que a resposta não pode ser a substituição da democracia por tecnocracia. Suspender liberdades em nome da urgência ignora um elemento decisivo: sem lastro social e participação, políticas ambientais perdem adesão e se tornam mais frágeis justamente quando exigem continuidade. É nessa chave que a democracia deliberativa verde, tal como formulada no debate contemporâneo (com destaque para John Dryzek), aparece menos como ideal normativo e mais como requisito prático: sustentar compromissos de longo prazo exige processos públicos de argumentação, contestação e revisão.
A alternativa proposta é uma reorganização institucional em que a proteção da biosfera não funcione como “meta externa” administrada por exceção, mas como cláusula estruturante do próprio regime. Em outras palavras, um arranjo em que a sustentabilidade opere como chão material da liberdade, e não como justificativa para limitar permanentemente o debate público. Nessa arquitetura, a democracia deliberativa ganha centralidade como mecanismo capaz de traduzir evidências ecológicas em decisões legítimas, disputáveis e socialmente sustentáveis — reduzindo o risco de a urgência ser convertida em licença para governar por decretação.
Para evitar tanto a centralização estatal rígida quanto a confiança automática no mercado como solução única, há de se destacar arranjos de governança que valorizam pluralidade e participação. A contribuição de Elinor Ostrom, em Governing the Commons, é decisiva nesse ponto: ao demonstrar como comunidades podem construir regras, monitorar usos e aplicar sanções graduais, Ostrom desloca o debate do “comando e controle” e da privatização automática para a engenharia institucional do comum. Isso permite pensar transições ambientais como processo político sustentado por corresponsabilidade e por capacidades distribuídas — reduzindo captura por interesses particulares e ampliando a chance de estabilidade no tempo.
No fecho, a tese se consolida: tornar sustentabilidade e democracia compatíveis exige rejeitar dois atalhos. O primeiro é o negacionismo, que protege interesses imediatos e desorganiza a capacidade coletiva de resposta. O segundo é a tecnocracia, que, sob o pretexto de urgência, transforma a sustentabilidade em teleologia autoritária. A democracia não pode ser instrumentalizada por um objetivo “fora” da política sem trair sua própria natureza; mas, sem integridade ecológica e segurança material, a liberdade tende a degradar-se em medo e exceção — o que recoloca, por vias novas, o problema clássico do poder sem limites, criticado tanto pela tradição republicana quanto pela tradição liberal.
O horizonte desenhado é o de uma modernização reflexiva do projeto democrático: uma ordem institucional em que limites planetários sejam incorporados como premissa de governabilidade, com deliberação pública, transparência, enfrentamento da captura corporativa e governança plural e multinível. A sustentabilidade, nesse enquadramento, deixa de ser promessa distante e passa a ser ética vivida no presente, sustentada por decisões coletivas que reconhecem a materialidade do mundo — como insistem Leopold, Carson e Latour, cada um a seu modo — sem renunciar ao princípio democrático.




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