0
 

Na semana passada a coluna publicou o artigo: A Literatura como experiencia da Existência, o texto, discute a presença da corrente existencialista na Literatura. Por um deslize, não citei autores brasileiros. O deslize foi percebido e sadiamente provocado pelo querido colunista e escritor, Albano Martins. Aqui justifico minha incoerência, trazendo autores brasileiros e dois grandes expoentes do existencialismo no Brasil, Raduan Nassar e Gustavo Corção. (autores sugeridos por Albano Martins). A Leitura desses escritores ainda foi panorâmica, precisa de mais aprofundamento. Vamos ao texto.

O existencialismo no Brasil não se constituiu como um movimento literário, podemos entender como uma sensibilidade que atravessou obras e autores atentos ao drama da condição humana, à solidão, à liberdade e ao confronto com o absurdo da existência. Em diálogo com o pensamento europeu, escritores brasileiros incorporaram essas inquietações ao contexto social, histórico e cultural do país, criando uma literatura profundamente humanizada, marcada pela introspecção e pelo conflito entre o eu e o mundo.

Clarice Lispector é, sem dúvida, uma autora brasileira que intensamente dialoga com o existencialismo. Sua obra desloca o foco da ação para o interior da consciência, revelando personagens em crise ontológica. Em Perto do Coração Selvagem (1943), a protagonista afirma: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. A frase traduz a angústia existencial diante de uma vida que não se deixa reduzir a convenções ou certezas racionais.

Em A Paixão segundo G.H. (1964), Clarice radicaliza essa experiência. A narradora vive um colapso existencial ao confrontar o insignificante e o grotesco, numa cena emblemática com uma barata. “Perdi alguma coisa que era essencial, e que já não me lembro mais”, confessa a personagem. A narrativa se transforma em um mergulho vertiginoso no vazio e na tentativa de reconstrução do sentido da existência.

Outro nome fundamental é Lygia Fagundes Telles, cujos contos e romances exploram a solidão, o medo e a fragilidade psicológica. Em As Meninas (1973), as personagens enfrentam dilemas morais, afetivos e políticos em um mundo instável. Em determinado momento, a angústia existencial se expressa na percepção de que “a vida não cabe nas palavras”, revelando a inadequação entre a experiência humana e suas tentativas de explicação.

Nelson Rodrigues, embora mais frequentemente associado ao teatro psicológico e à crítica moral, também dialoga com o existencialismo. Suas peças expõem o ser humano dilacerado entre desejo, culpa e hipocrisia social. Em Vestido de Noiva (1943), a fragmentação da narrativa entre realidade, memória e alucinação reflete a crise do sujeito moderno. A fala “o ser humano é uma coisa miserável” ecoa uma visão trágica da condição humana.

Graciliano Ramos, especialmente em Angústia (1936), antecipa muitas questões existencialistas no Brasil. O protagonista vive esmagado pela frustração, pelo ressentimento e pela sensação de inadequação social. “Eu era um homem sem importância”, afirma o narrador, sintetizando o sentimento de nulidade e alienação que atravessa toda a obra.

No campo do conto, Rubem Fonseca apresenta personagens mergulhados na violência urbana, no niilismo e na solidão. Em Feliz Ano Novo (1975), o mundo aparece como um espaço brutal, onde os valores tradicionais se dissolvem. “O mundo é podre”, escreve o autor de forma direta e cortante, revelando um existencialismo cru, sem transcendência ou redenção.

Raduan Nassar representa uma das expressões mais intensas do existencialismo na literatura brasileira. Em Lavoura Arcaica (1975), o conflito entre liberdade e tradição assume dimensão trágica. O narrador, vive dilacerado entre o desejo e a autoridade paterna, entre o corpo e a moral. “A nossa doença era a lucidez”, afirma o personagem, numa frase emblemática que associa consciência e sofrimento, núcleo central da experiência existencial.

Ainda em Raduan Nassar, é possível perceber uma linguagem que adquire caráter quase corporal, marcada por repetições, silêncios e tensão. O drama existencial é temático e estrutural: a forma do texto reflete o desajuste do sujeito no mundo. O indivíduo aparece aprisionado em estruturas familiares e simbólicas que limitam sua possibilidade de escolha, gerando culpa, revolta e solidão.

Gustavo Corção oferece uma vertente singular do existencialismo no Brasil, ao articular angústia existencial e reflexão cristã, temas centrais de seus artigos para revistas e jornais. Em Lições de Abismo (1951), Corção investiga o vazio espiritual do homem moderno. “O homem foge de si mesmo porque tem medo do silêncio”, escreve o autor, revelando uma concepção existencial marcada pela ausência de transcendência em uma sociedade secularizada. Corção descreve o homem inquieto, ruidoso e disperso, que evita o silêncio e a introspecção para não enfrentar sua própria fragilidade. A obra sugere que esse abismo não precisa ser apenas destrutivo. Ao reconhecer sua própria condição e encarar o vazio com lucidez, o homem pode transformar a angústia em aprendizado. Assim, a “história” de Lições de Abismo é a do confronto entre o homem e sua própria interioridade, um percurso crítico que vai da perda de sentido à possibilidade de reencontro consigo mesmo e com um horizonte espiritual.

Assim, o existencialismo na literatura brasileira se manifesta de forma plural: ora introspectivo e metafísico, ora social e psicológico, ora atravessado pela tradição religiosa ou pelo conflito familiar. Autores como Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Lygia Fagundes Telles, Raduan Nassar e Gustavo Corção transformaram a angústia existencial em matéria literária, criando obras que continuam a interpelar o leitor com uma pergunta fundamental: como existir, de modo autêntico, em um mundo que não oferece respostas definitivas?

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

Silêncio da noite

Anterior

Ufra abre mais de 2 mil vagas em 43 cursos

Próximo

Você pode gostar

Comentários