Publicado em: 6 de janeiro de 2026
“Não havia tráfego, nem transeuntes, absolutamente nenhum barulho. Toda cidade tem silêncios assim, intervalos de repouso em que, pelo menos durante um momento em um século, ninguém está falando, nenhum telefone toca, não há Tv ligada ou carro em movimento”. Trecho do livro “Todo aquele jazz”, de Geoff Dyer. Ele escreveu sobre os últimos dias de Lester Young, The Pres, gênio do sax. Eu estava lendo e no momento seguinte, olhei pela janela, o quarteirão em que moro. Talvez fosse uma noite de domingo, chuvosa. A cidade, quando cheguei em casa, pareceu-me exausta, com ressaca gigantesca pelo fim de semana, gente voltando dos balneários e os que ficaram, cansados da farra. Já escrevi sobre essa sensação. A rua vazia. Adiante, um sinal de trânsito teima em continuar seu trabalho, embora não haja carros passando. As luzes fazem o asfalto molhado luzir. As faixas de segurança, pintadas no asfalto, podiam recolher-se, ir dormir e voltar somente pela manhã. As placas com velocidade e tal, bem, elas estão fincadas no chão. Ao menos um cochilo, não é? Não há um silêncio absoluto, pois milhares de aparelhos de ar condicionado bufam, garantindo o sono de seus clientes. Se estou sozinho naquele instante, imagino a cidade inteira em silêncio. Ao menos naquele quarteirão. Talvez tic tacs de despertadores. Hoje não há mais aquele som profundo dos relógios de móvel, naquelas casas de arquitetura portuguesa, “de puxadinho”, corredores longos. Ninguém passa. Momento mágico. Uma cidade pronta para ser tomada, penso. Bem, esqueço das mensagens a fazer ruídos nos celulares, insistindo em não deixar ninguém ficar desinformado do mundo caótico em que vivemos. Ufa, dá um tempo, né? Lembro de um texto de “Abraço”, em que Barradas dizia que gostava de reinar sobre aquele mundo inanimado, onde ouve-se apenas a respiração pesada das pessoas, de vez em quando o apito solitário do guarda noturno (ainda existem?) e o focinho gelado do pet. Esses sentimentos me tomam ao olhar pela janela. O cenário me faz pensar em um milhão de coisas. Lembro que logo mais haverá um escândalo sonoro com os ônibus, crianças entrando em colégios, guardas de trânsito apitando, impacientes buzinando, impertinentes. Após a chuva, o céu ficou lindo e há uma lua que até ontem era cheia, ainda, elegante, vistosa, reinando com sua corte de estrelas. Será que vejo um disco voador? Lá longe vem a luz de um jato que vem do sul e deverá pousar aqui perto. O comandante já disse “preparar para o pouso”, e já ouvimos o trem de aterrissagem ser acionado. Passa um “rasga mortalha” com seu canto de guerra. Mais cedo, ali pelas cinco, anunciando o dia, passarinhos entoam melodia triste, quase ritmada, dessas que ao começarmos a despertar, entreabrimos os olhos e nos convencendo que é a hora mais gostosa do soninho. Mas não, logo haverá heróicos corredores pelas ruas, ostentando saúde por todos os póros. E eu, que faço acordado se amanhã, também, como todos, precisarei estar desperto para enfrentar o dia? E se, para nos livrarmos do calor de nossa cidade, trocamos o dia pela noite? Haveria um gasto bem maior de energia, certamente. Mas é que gosto da noite. Nem preciso estar em um boteco ao lado de amigos para gostar. Sou noturno. A noite é boa para pensar, amar, compor, escrever, refletir. Isso. Nada como o escuro do nosso quarto para refletirmos sobre nossas ações do dia e encontrar a melhor resposta, aquela que vem do mais profundo do nosso ser, absolutamente honesta. Talvez nesta janela, olhando a rua deserta, o momento deserto, eu aproveite para pensar, como Millor, livre pensar é só pensar e adiante, deitadinho, refletir sobre a vida.




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