Publicado em: 4 de janeiro de 2026
A invasão da Venezuela confirma que, como temos fundamentado em outros escritos, a humanidade ainda vive na Pré-História da Democracia. Esta condição histórica global, impõe à diversas nações, como o Brasil, um paradoxo formal, o de não usufruir, em sua qualidade de vida majoritária, da riqueza que já gera com sua capacidade de trabalho e produção – fato grotesco que não tem causado absolutamente nenhum esforço de mobilização social capaz de tornar esta a pauta prioritária na Sociedade e suas expressões institucionais. Mas opa, enxergar o problema oferece as pistas da solução…
Com relação ao desafio da Democracia como paradigma civilizatório, encontro em Rousseau(1712 a 1778) o enunciado da condição prática para seu exercício prático efetivo: “A Democracia só é possível onde o mais rico não seja tão rico que possa comprar alguém, e o pobre não seja tão pobre que tenha que se vender”. Claro, ele não está se referindo apenas a dinheiro, mas sobretudo a valor, para daí defender a Democracia Direta como a única plenamente legítima.
O mais importante aqui, é que a explicação de Rousseau, argui o impacto da condição econômica na política, considerando o contexto cultural, os valores cultuados. Quem é que se sente seguro, para dizer o mínimo, a manifestar uma opinião/convicção/proposta que sabe ser contrária a quem exerce poder sem limites. Na Sociedade global em que vivemos, dada a desigualdade econômica e política abissal entre as nações, o que se desdobra internamente na maioria delas, não é possível identificar relações plenamente democráticas.
O exercício efetivo do poder, a partir da força tecnológica/cultural, comercial/financeira e militar/logística, é muito desigual entre as nações desde a escravidão antiga. O feudalismo e o Capitalismo apenas decorreram adaptações para a relação básica de dominação/colonização que se reproduz até hoje. A Venezuela, é apenas o exemplo da vez.
Daí a importância de perceber, entender, que somente uma nova Ordem Mundial Multipolar, poderá fazer avançar relações econômicas e políticas que formem a cultura democrática.
O Brasil enfrenta, neste contexto, um paradoxo estrutural, Econômico-Político-Cultural, que define seu principal desafio de desenvolvimento enquanto nação: resolver a contradição de ser a 10ª maior economia produtiva do planeta em Produto Interno Bruto (PIB) e, simultaneamente, ocupar a 84ª posição no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que mede qualidade de vida.
A raiz dessa discrepância reside em um modelo econômico historicamente voltado para fora desde o Pacto Colonial do século XVI, que prioriza a acumulação de capital e a exportação de commodities, naquela época chamadas de “drogas do sertão”, a partir da lógica particular de empresas e setores produtivos, em detrimento da distribuição de renda e do fortalecimento do mercado interno para o benefício do interesse público, comum, da nação – tal como fazem os países ricos que despontam tanto no IDH quanto no PIB per capita de maneira combinada: Dinamarca, Irlanda, Alemanha, Bélgica e Austrália, só para ficar no Top 5 segundo a ONU e o FMI.
Você vê algum Comunismo aí? Pois é, mas se não fosse o Comunismo não haveriam experiências Sociais Democratas como estas. Ou seja, o que está em pauta não é o suposto conflito filosófico lá do pós II Guerra, é qual a melhor solução para a nação nestes tempos de IA, cidadania cibernética, devastação ambiental e miséria humana como projeto de poder a partir da desigualdade.
O estudo de caso do período neoliberal (1995-2002), sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso(FHC), ilustra as consequências de um alinhamento subordinado aos EUA e ao Consenso de Washington: aumento do desemprego estrutural que faz os salários diminuírem em seu poder real de compra até porque se combina com a inflação, desindustrialização que significa não agregação de valor aos produtos e diminuição da produção de conhecimento, único fator capaz de conferir autonomia a qualquer nação, como demonstra a História.
Além disso, o aprofundamento da desigualdade. Porque é assim se instala a dominação Política e Cultural, para que as pessoas entendam o absurdo econômico como normal, se acostumem e tenham medo de mudar. Não por acaso, o Analfabetismo Funcional no Brasil marca 30% da nação e não tem uma relação direta com a escolaridade, são os que mesmo sabendo ler, não compreendem o que leem, daí precisarem de intérpretes sejam assessores/consultores, intelectuais da autoajuda, influencers da internet ou até padres e pastores, entre outros. Torço pelos professores-pesquisadores.
Um exemplo eloquente, que encontrei neste estudo é que a compreensão média da distribuição de renda não segue nenhuma fundamentação econômica, apenas pré-conceitos morais. Ora, os fundamentos econômicos liberais indicam que não se trata apenas uma questão de justiça social, mas um motor de crescimento econômico. Como em qualquer economia de mercado. É o óbvio ululante, como diria o grande dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues – mas fico escabreado que relacionem “ululante” com Lula, para tentar desqualificar nosso esforço científico.
O aumento da renda média na base da pirâmide eleva o consumo local imediatamente. Melhora o salário do peão, no dia seguinte ele compra na mercearia do bairro, por exemplo. O merceeiro vai comprar mais do atacadista. O atacadista compra mais da indústria ou agro, dinamizando o mercado interno e beneficiando diretamente o empresariado nacional, em especial as pequenas e médias empresas (PMEs), que geram 27% do PIB e respondem por mais da metade dos empregos formais.
O problema é que quando a melhora econômica, iniciada do consumo no bairro chega na “Elite” eles/elas vão gastar em Miame, Paris, levando recursos que beneficiam fora o que ganharam aqui dentro. Eu também gosto de viajar, inclusive para o exterior, mas todo ano? Toda vez? Este é um problema cultural, de identidade e valor que precisamos tratar. A ascensão de uma ordem multipolar, com o BRICS como plataforma, oferece ao Brasil a oportunidade geopolítica de romper com a dependência externa e adotar um modelo de desenvolvimento endógeno, focado em internalizar a riqueza que já produzimos, transformando-a, finalmente, em qualidade de vida para sua própria população gerando segurança para todos. Não há como separar o externo do interno em se tratando de Economia, Política e Cultura.
O enfrentamento a este desafio crucial exige o diálogo para a construção de consensos possíveis a partir da compreensão de que a distribuição beneficia a todos e todas da nação, sejam trabalhadores, empresários ou investidores, até os de fora que não sejam especulativos, porque o conjunto da economia se aquece. Daí a necessidade de racionalizar e entender como o ódio e a “polarização” foi alimentada e a quem serve, efetivamente.
A causa estrutural de nossa atual condição como nação é a extrema concentração de renda, riqueza e poder. Daí a necessidade de compreendermos a Democracia para além da política. O Brasil permanece como um dos países mais desiguais do mundo, com um coeficiente de Gini de 0,52 em 2024. Dados do World Inequality Lab revelam que os 10% mais ricos da população brasileira concentram quase 59% da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas uma pequena fração. Essa estrutura não é um mero subproduto do crescimento, mas uma característica definidora de um projeto econômico intencional que historicamente privilegiou a acumulação no topo de dentro e, mais ainda no de fora. A miséria é fabricada.
| Indicador | Valor | Ranking Global | Fonte |
| PIB Nominal | N/A (Top 10) | 10º | FMI, Banco Mundial |
| IDH | 0,786 | 84º | PNUD (2025) |
| Coeficiente de Gini | 0,52 | ~10º mais desigual | Banco Mundial (2024) |
| Renda (Top 10%) | 58,6% da renda total | N/A | World Inequality Lab |
Tabela 1: A Discrepância Brasileira – Produção vs. Bem-Estar.
Durante os anos 1990, o Brasil assistiu a desindustrialização, desemprego estrutural, atraindo capital estrangeiro predador de nossa soberania. Até o Plano Real cumpriu o papel de estabilidade para estes investidores. Foi a década perdida, falhou em gerar crescimento sustentado e promoveu a concentração de renda, riqueza e poder nos que daqui seguiam as diretrizes de fora.
A pequena redistribuição de renda promovida nos anos 2000, nos fez chegar ao 6º maior PIB do planeta em 2010. A lógica é direta: enquanto os mais ricos tendem a poupar ou a investir no mercado externo, os mais pobres utilizam qualquer acréscimo de renda para consumir bens e serviços essenciais. Isso cria um efeito multiplicador de dentro para fora. Repetindo, este tipo de ciclo virtuoso beneficia diretamente o empresariado focado no mercado interno, em especial as PMEs. Este setor, crucial para a economia brasileira, é altamente dependente da saúde do consumo doméstico. Mas é muito importante que os empresários do varejo, que atuam na economia interna, compreendam as diferenças estratégicas que possuem em relação aos empresários voltados para a economia extarna, em particular os que trabalham com comodities.
Políticas de valorização do salário mínimo e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, não são apenas políticas sociais; são políticas de desenvolvimento de mercado. Ao colocar dinheiro na mão de quem mais consome, o Estado fortalece o pequeno e médio empresário, gera empregos e dinamiza a economia de dentro para fora. Invertendo a direção do comando. Para quem opera na economia interna, salário é renda, é consumo. Para quem opera apenas exportando, salário é apenas custo.
Conclusão: Nossa Democracia precisa Internalizar a Riqueza como Projeto de Nação
O desafio central do Brasil não é a falta de capacidade de gerar riqueza, que precisamos sempre melhorar, o mais importante é a ausência de um modelo de gestão que a internalize como bem-estar coletivo, aumentando exponencialmente o capital que circula a partir de dentro. A solução para o paradoxo brasileiro passa, necessariamente, pela construção de um mercado de massas robusto, impulsionado por políticas de distribuição de renda a partir da educação focada no encontro da ciência com a realidade local de cada território, valorizando através do Consumo Consciente o trabalho e a produção local, convertendo-a em Cultura, em hábito diário, em conhecimento para finalmente convertê-la em riqueza, ou seja, qualidade de vida.
Uma transformação Econômica, Política e Cultural que exige a convivência na diversidade e na pluralidade, daí riqueza social, para que se desenvolva a inteligência da Solidariedade, tal como definida no latim, aquilo que torna sólida uma relação humana: reciprocidade contínua.
Uma transformação que exige um Estado como pacto Público, uma Democracia Participativa efetiva. Políticas públicas que não gerem dependências, mas apenas viabilizem a nova cultura econômica e política. Sim, tem jeito, mas dá trabalho.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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