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João Francisco Lobato

Em uma era onde as chamas da floresta devoram o pulmão do mundo e os algoritmos tecem teias de desejo infinito, a voz de Bernard Mandeville ecoa como um sussurro provocador, um lembrete de que a civilização que erigimos sobre o orgulho e a vaidade pode ser, ao mesmo tempo, nossa glória e nossa ruína. A obra A Fábula das Abelhas, lançada em 1714 a partir do desdobramento satírico de versões anteriores, ultrapassa o valor de registro histórico; ela funciona como um reflexo sombrio que expõe a estrutura das nossas aspirações. Imagine uma colmeia zumbindo de atividade febril: abelhas obcecadas por luxo, inveja e exibicionismo constroem palácios de cera e ouro, enquanto murmuram contra a corrupção alheia. Quando Júpiter, em um ato de justiça divina, impõe a virtude absoluta — honestidade, frugalidade, renúncia —, o zumbido cessa. A colmeia encolhe, os ofícios perecem, e o que resta é uma existência rústica, pobre e isolada. Mandeville, médico anglo-holandês de espírito irônico, usa essa alegoria para subverter as pretensões morais da Inglaterra pós-Restauração: conforme analisa Isleide Fontenelle, professora e pesquisadora, as falhas individuais, longe de serem substâncias tóxicas ao corpo social, atuavam como o verdadeiro combustível da coletividade. A vaidade que motiva a elite a consumir tecidos luxuosos garante o sustento dos produtores; os conflitos que abarrotam as cortes mantêm a classe jurídica; e a cobiça que estimula a disputa acaba por fomentar o avanço tecnológico. Aqui reside o paradoxo central: a prosperidade coletiva nasce não da benevolência, mas da canalização astuta das paixões egoístas. Essa tese, escandalosa em sua época — a ponto de atrair acusações de ateísmo e imoralidade —, antecipa a essência do sistema econômico atual, no qual as pulsões pessoais, sob a máscara da autonomia, alimentam a máquina da produção. No entanto, essa colmeia, outrora um hino ao progresso, revela-se hoje uma armadilha planetária, confrontada pela sabedoria ancestral das florestas amazônicas, onde o “Bem Viver” sussurra uma alternativa: não o acúmulo infinito, mas a reciprocidade com o mundo vivo.
Para compreender a profundidade da provocação mandevilliana, devemos mergulhar em sua antropologia realista, que despoja o ser humano de qualquer ilusão de essência virtuosa. Mandeville não é um niilista; ele é um observador agudo da condição humana como um emaranhado de impulsos — orgulho, vaidade, avareza — que a sociedade, em sua sabedoria política, deve gerir em vez de erradicar. A moralidade, para ele, não é um dom divino ou uma lei natural, mas uma invenção dos “políticos habilidosos”: uma máscara que transforma o egoísmo em coesão social. Ao elogiar a abnegação e condenar o prazer, os governantes domesticam as massas, criando uma ordem onde o vício se disfarça de virtude. Essa dicotomia entre moralidade autêntica e moralismo hipócrita é o coração da fábula. Considere o puritanismo inglês do século XVII, herdeiro da Revolução de Cromwell, que pregava a austeridade enquanto a nação se enriquecia com o comércio colonial e o luxo importado. Mandeville ri dessa contradição: se todos adotassem a pureza ascética, a economia colapsaria, pois sem vaidade não há demanda por joias, sem fraude não há juízes, sem luxúria não há artesãos de sedas. Sua visão da liberdade é igualmente paradoxal — não a autonomia kantiana do dever, mas a liberdade de perseguir o interesse próprio, que, ironicamente, gera riqueza coletiva. Essa liberdade, no entanto, é uma ilusão tecida pela interdependência: o indivíduo se crê soberano, mas é marionete de suas paixões e das estruturas sociais que as exploram. Em um mundo onde o Estado, em vez de moralizar, deve orquestrar esses vícios para o bem comum, Mandeville planta as sementes do laissez-faire, ecoando em Adam Smith como a “mão invisível” que transforma o autointeresse em harmonia social. Mas onde Smith busca redimir o egoísmo com uma simpatia moral, Mandeville permanece cínico: a prosperidade é um subproduto acidental da depravação, não uma providência ética.
Esse cinismo filosófico de Mandeville, longe de ser um relicto do Iluminismo inicial, irradia-se através dos séculos, iluminando as fissuras do capitalismo contemporâneo com uma clareza incômoda. No coração da economia digital, por exemplo, a vaidade que outrora adornava salões agora anima feeds intermináveis de influenciadores, onde a performance de uma vida perfeita — viagens exóticas, corpos esculpidos, rotinas de luxo “sustentável” — captura a atenção como uma teia de aranha tecida por algoritmos. Aqui, o vício privado da busca por validação se transmuta em benefício público: likes geram dados, dados alimentam anúncios, anúncios sustentam impérios tecnológicos. O influenciador, eco da abelha vaidosa, exibe não apenas bens, mas uma identidade mercantilizada, onde a autenticidade é o novo luxo. Seus seguidores, impulsionados pela inveja sutil, consomem não só produtos, mas a ilusão de proximidade com esse ideal, perpetuando um ciclo de desejo insaciável. Mandeville aplaudiria essa eficiência: o orgulho individual impulsiona o comércio global, criando empregos em data centers e agências de marketing. No entanto, essa aplicação moderna revela as sombras da fábula: a economia da atenção não enriquece apenas; ela esgota, transformando sujeitos em commodities efêmeras, onde a privacidade é o primeiro vício sacrificado no altar do engajamento. Paralelamente, nas corporações que dominam o discurso ESG — Ambiental, Social e Governança —, vemos a hipocrisia mandevilliana em sua forma mais polida. Gigantes do varejo e da energia prometem sustentabilidade enquanto extraem recursos com voracidade, usando relatórios verdes como máscaras para o luxo predatório. O greenwashing, essa farsa da virtude, é a herdeira direta da “política da hipocrisia”: o vício do lucro máximo se disfarça de benevolência coletiva, gerando benefícios públicos ilusórios enquanto acelera a crise climática. Mandeville, com seu olhar satírico, nos forçaria a questionar: se a pureza moral leva à ruína econômica, o que dizer da impureza que leva à ruína planetária?
É nesse ponto que a fábula de Mandeville, outrora um hino à engenhosidade humana, colide com a sabedoria ancestral das florestas amazônicas, revelando não apenas divergências, mas uma crítica inspiradora à própria noção de progresso. Nas ontologias indígenas, exemplificadas pelo “Bem Viver”, o mundo não é um palco para a exibição de vícios, mas um tecido vivo de relações recíprocas. Aqui, a economia não é de suficiência por escassez, mas por abundância relacional: a floresta não é recurso a ser explorado, mas parente a ser honrado. Davi Kopenawa, xamã Yanomami, em A Queda do Céu, descreve os brancos como o “povo da mercadoria”, obcecados por um brilho ilusório que cega para os espíritos da terra. Para Kopenawa, o desejo mandevilliano — essa vaidade que constrói cidades — é a “fumaça do metal”, uma epidemia que adoece o cosmos, liberando venenos ao cavar a pele da mãe-terra em busca de ouro e petróleo. A colmeia de Mandeville, com sua interdependência viciosa, encontra um eco invertido na cosmopolítica Yanomami: ambos reconhecem que o indivíduo é inseparável da coletividade, mas onde Mandeville vê benefício no egoísmo acelerado, Kopenawa vê colapso no esquecimento da diplomacia com o não-humano. A caça Yanomami, por exemplo, não é extração predatória, mas um ritual de negociação com os animais, onde o caçador deve oferecer tabaco aos espíritos para equilibrar o ciclo vital. Essa reciprocidade subverte a lógica de Mandeville: o “vício” do acúmulo é o verdadeiro pecado, pois rompe o equilíbrio, enquanto a frugalidade ritualizada gera abundância sustentável.
Ailton Krenak, pensador do povo Krenak e ativista, aprofunda essa crítica com uma sensibilidade que mescla ecologia e poética, desafiando o utilitarismo subjacente à fábula. Em obras como Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Krenak proclama que “a vida não é útil” — uma declaração que desmonta o cerne mandevilliano. Para Mandeville, a utilidade é o critério supremo: um vício é virtuoso se gera emprego e riqueza. Krenak, porém, vê nessa métrica uma armadilha colonial, uma desumanização que transforma povos em recursos e a Terra em mercadoria. O “Bem Viver”, para ele, é um fruír poético: tempo para dançar, cantar e sonhar com o rio, sem a tirania da produtividade. A colmeia mandevilliana, com sua febre de construção, é o oposto do “corpo da floresta” que Krenak evoca — um organismo onde o humano é mero galho, não o centro. Considere o manejo da castanha-do-pará pelos Kayapó: não uma exploração para maximizar lucros, mas uma colheita ritmada que preserva a árvore como entidade viva, gerando bem-estar coletivo sem o esgotamento. Krenak e Kopenawa, assim, dialogam com Mandeville não como antagonistas primitivos, mas como profetas de uma ontologia alternativa: o vício do Ocidente não constrói impérios eternos, mas acelera o “fim do mundo” — não apocalíptico, mas o colapso de mundos plurais, onde línguas indígenas e ecossistemas se extinguem sob o peso do consumo.
Essa tensão ontológica ilumina o Antropoceno como o clímax trágico da fábula mandevilliana. O Antropoceno é o legado material dos vícios privados: a queima de carvão que iluminou a Revolução Industrial, o desejo por mobilidade que pavimentou rodovias globais, a vaidade por status que impulsiona o fast fashion e o desmatamento. Mandeville, se vivo, talvez visse nisso o triunfo de sua colmeia: o egoísmo individual escalado para o planeta, gerando benefícios públicos como vacinas, internet e expectativa de vida estendida. Mas o preço é o colapso da biosfera, onde o “benefício” se revela uma ilusão termodinâmica. A crítica indígena, encarnada em Kopenawa e Krenak, oferece o contraponto vital: o Antropoceno não é o triunfo da humanidade, mas sua alienação da Terra. Kopenawa descreve o “céu que cai” como a retaliação dos espíritos enfurecidos pela ganância; Krenak, como o “adiamento” possível através da reconexão com o sagrado. Em Belo Monte ou Mariana, vemos essa colisão: barragens e minas, frutos da lógica mandevilliana de extração para o “progresso”, destroem rios e comunidades, revelando que o vício privado das elites globais gera não benefícios, mas deslocamentos e toxinas. A reciprocidade amazônica, por outro lado, propõe uma economia de limites: o manejo Yanomami mostra que a sustentabilidade emerge da moderação, não da aceleração. Se Mandeville nos ensina a gerir paixões para a riqueza, Krenak e Kopenawa nos ensinam a ritualizá-las para a sobrevivência — uma poética da contenção onde o desejo é domado pelo respeito ao ciclo vital.
Como observa Isleide Fontenelle, essa engrenagem de paixões que sustenta o mercado agora colide com a finitude da Terra. Expandindo essa reflexão, consideremos as implicações para o neoliberalismo moderno, herdeiro direto de Mandeville através de Friedrich Hayek. Hayek elogia a “ordem espontânea” do mercado como um cosmos auto-organizado, onde o interesse próprio coordena o conhecimento disperso mais eficientemente que qualquer plano central. Essa visão ecoa a colmeia: milhões de abelhas vaidosas, sem coordenação consciente, constroem maravilhas. No entanto, no Antropoceno, essa espontaneidade revela-se patogênica: os preços que sinalizam eficiência ignoram externalidades como emissões de carbono ou perda de solos, perpetuando o extrativismo. Kopenawa, com sua denúncia da “fumaça do metal”, expõe essa falha: o mercado não vê os espíritos que mantêm o equilíbrio, tratando a floresta como externalidade a ser internalizada via créditos de carbono — uma farsa mandevilliana onde o vício ambiental é “compensado” por mais comércio. Krenak, por sua vez, subverte o individualismo ao propor subjetividades plurais: o humano não é átomo egoísta, mas nó em uma rede de relações, onde o “eu” só existe no “nós” com o rio e a montanha. Essa cosmopolítica indígena desafia o neoliberalismo ao questionar sua premissa antropológica: se o desejo é infinito, o planeta finito colapsa; se o desejo é relacional e limitado, surge espaço para o equilíbrio.
Essa dialética entre vício produtivo e reciprocidade sustentável não é abstrata; ela pulsa nas veias do presente, desde os salões de Davos até as roças Yanomami. No Fórum Econômico Mundial, bilionários debatem “capitalismo consciente” — uma tentativa de humanizar a colmeia mandevilliana com métricas ESG que prometem alinhar lucro com planeta. Mas, como critica Krenak, isso é mera cosmética: o desejo de acumular permanece intocado, e o “bem-estar” é quantificado em dólares, não em harmonia vital. Em contraste, o Sumaq Kawsay dos povos andinos reconhece a “Pachamama” como sujeito de direitos, invertendo a lógica: a economia serve à vida, não o contrário. Exemplos concretos abundam: os Ashaninka no Peru manejam a ayahuasca não como commodity narcótica, mas como ponte ritual para o equilíbrio comunitário, gerando renda sem esgotar a floresta. Kopenawa, em sua luta contra garimpeiros ilegais, personifica essa resistência: o mercúrio da mineração, subproduto do luxo global, envenena rios e corpos, ecoando a “fumaça” que Mandeville ignorava em sua colmeia europeia. Esses pensadores indígenas não romantizam o passado; eles oferecem uma tecnologia ontológica para o futuro — uma poética da moderação onde o desejo é canalizado para o florescimento coletivo, não para o colapso.
No cerne dessa tensão reside uma questão ética profunda: pode a colmeia mandevilliana evoluir para uma floresta recíproca, ou estamos condenados à queda do céu? Mandeville nos alerta para o perigo da virtude absoluta — uma estagnação que ignora a complexidade humana. Mas Krenak e Kopenawa nos advertem para o perigo do vício absoluto — uma aceleração que ignora a complexidade planetária. A resposta, talvez, esteja na hibridização: integrar a eficiência da ordem espontânea com a sabedoria da suficiência. Imagine economias onde o PIB é medido não por crescimento, mas por “índice de reciprocidade” — tempo para relações humanas e não-humanas, redução de desigualdades, preservação de biomas. Projetos como o Parque Indígena do Xingu, defendido por Krenak, ilustram isso: territórios demarcados não como reservas, mas como centros de manejo sustentável, onde o turismo ecológico e a agrofloresta geram renda sem predar. No entanto, o obstáculo é o mesmo que Mandeville identificava: o moralismo hipócrita das elites, que clamam por sustentabilidade enquanto subsidiam fósseis. Kopenawa, com sua voz profética, nos lembra que o céu não cai por acaso; ele desaba sob o peso da cobiça não contida.
Essa síntese inspiradora — vícios como sementes de ruína, reciprocidade como raiz de renascimento — é um convite ao leitor a uma reflexão pessoal. Em um mundo de telas que alimentam vaidades efêmeras, onde o desejo por mais nos afasta do essencial, a fábula de Mandeville e as vozes amazônicas nos chamam a uma pausa contemplativa. Talvez a verdadeira liberdade não seja perseguir o luxo infinito, mas dançar com o rio, como Krenak sugere, reconhecendo que somos, afinal, parte da colmeia viva da Terra. Só assim, adiando o fim que o Antropoceno profetiza, poderemos tecer um futuro onde o zumbido da vida não cesse, mas harmonize com o sussurro das folhas.

NOTA DE RODAPÉ: Esta reflexão brota do solo fértil cultivado pela generosidade intelectual e pela agudeza crítica da Profa. Dra. Isleide Arruda Fontenelle, cujas investigações fundamentais em seu livro Cultura do Consumo (2017) e em seu artigo Dilemas éticos na cultura do consumo (2023) foram bússolas essenciais para navegar entre as paixões mandevillianas e os abismos do Antropoceno aqui delineados. A ela, que transformou a sala de aula em um território onde o ato de pensar é um exercício de sensibilidade e compromisso ético com a vida, dedico esta singela homenagem.




* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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