Publicado em: 5 de dezembro de 2025
Minha amiga Adriana esteve por alguns dias na cidade e, quando voltou ao RJ, escreveu aqui no Facebook não ter encontrado vários locais de sua memória, engolidos pelo dia a dia, transformados em outros cenários. Terminou dizendo que Belém é a cidade impossível. Compreendo. Quando moramos fora, temos imensas saudades da cidade que, de algum jeito, nos pertenceu. Onde fomos felizes, vivemos momentos marcantes. Quando voltamos, queremos encontrá-los, novamente, o que é bem difícil. Cidades são organismos vivos, pulsantes, expostos ao dia a dia estressante e mudanças constantes, pelos mais diversos motivos. É claro que determinados lugares, em função de sua importância, como símbolos, devem, no mínimo, ser preservados e ostentarem a sua beleza com manutenção. Mas a passagem do tempo é inexorável. Todos dias vêm e partem habitantes, mudam as idéias para melhor ou para pior. Quem são os donos das cidades? O povo que reage ao estresse das cidades grandes pichando, jogando lixo em locais inadequados, arquitetos que substituem casarões por prédio de arquitetura influenciada por projetos mais indicados a outras cidades construídas em áreas de clima diferente, autoridades desleixadas, enfim, quem são os donos da cidade? Eu, sem nenhuma capacidade técnica, gostaria que em vez de BRTs, tivéssemos metrô por superfície, para o ir e vir de habitantes cujo número é crescente. Gostaria que o transporte marítimo, urbano, funcionasse muito bem. Tenho saudade de ir a Mosqueiro no “Presidente Vargas”, por exemplo. Está certo, já estava por aqui antes desse boom populacional. Hoje, as cidades deveriam ser administradas por técnicos talentosos, bons profissionais, ao invés de políticos. Esses, poderiam continuar sendo os chefes, digamos assim, mas montariam equipes técnicas para essa administração. As pessoas que moram fora, a maioria em grandes centros urbanos, que por si só também têm problemas, quando voltam à cidade, agora, de seus sonhos, sofrem a ausência de suas memórias, ao mesmo tempo que desejem os serviços de um centro mais desenvolvido. As obras feitas pelos governantes para receber a COP 30, foram bem recebidas. Antes, torcíamos o nariz, naquela de dizer que nada ficaria pronto. Quase todas ficaram, e ficaram lotadas nos dias do evento. E estão lotadas. As pessoas precisam de cenário novo, para aliviar as tensões do cotidiano. Assim, paraenses que retornaram também podem ter ficado contentes com as reformas. Minha cidade é Belém. Nasci e vivo aqui. Pago preço alto por morar longe dos grandes centros. Somos insulares. Damos nosso jeito. A Amazônia é a maior parte do Brasil. Podíamos ser um país. O nordeste, outro. Toda minha obra teatral e literária refere-se à Belém. Passo alguns dias fora e já quero voltar. Mesmo com todas as queixas. Aqui é minha terra, minha casa, meu chão, como diz Adalcinda naquela música, que tem melodia de meu pai. Belém, minha cidade. Sou dono da minha cidade. Desta Belém. Já considerei convites para morar fora. E deixar de ser dono? Ser sempre um visitante? Me disseram “mas você está lá, né? Não é de lá”. Respondi que na próxima ida levaria meu cocar e as flexas. Por motivos profissionais ou mesmo por mera e normalíssima vontade, vou para aquelas bandas, pagando caro, mas vou para voltar. Agora na COP houve uma boa demonstração de amor pela cidade. Precisamos ser ainda mais bairristas. Donos da cidade, do Estado. Belém é a melhor cidade porque é a nossa cidade e pronto. Quente, com moradores festeiros, desequilíbrio entre classes, dividida entre Remo e Paysandu, diferenças partidárias, insegurança, pobreza e riqueza, mas é Belém, a nossa cidade. Reinaldo Silva vai lançar brevemente um livro excelente sobre nossa história, nossos grandes nomes, acontecimentos, vitórias e derrotas. Quem não sabe quem é, é o quê? Quem somos nós?
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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