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De namoros, eu nunca sabia muito. Ignorante da sua forma convencional, fazia o que podia fazer, misturando afeto, forma, olhar, atenção, desatenção, desejo, sabedoria pré-socrática e tabelas periódicas.

Meu pai sempre me aconselhava:

“Dissipa-te, precisas, por Deus, de dissipação! Um rapaz não sobrevive sem dissipação!”.

Minha mãe, por sua vez, sempre me aconselhava:                                                                                              

“Não te compromete com as aparências”.

Minha avó, a dona Nida, a seu turno, sempre me referia:

“São todas umas fingidas, que querem te agarrar, te amarrar, e tu não sejas tonto, viste? Tu que não me sejas tonto!”.

Houve mesmo contratos de casamento e idealizações de uniões (elocubrações) convenientes das quais até me envergonho de falar, mas escapando de tais intentos (que, prometo, um dia conto, sem mau provento), iniciei minha vida amorosa, com a precariedade permitida e imposta por nossa cultura.

Considerei que devia namorar e que deveria, por necessário, entremear essas relações mais duradouras por afetos passageiros, intercorrenciais. E, evidentemente, tudo deu errado – como necessário, para que todos sejamos seres inteligentes.

Afinal, as coisas do afeto se misturam e rodopiam, no começo das galáxias, com pulsões centrífugas, antes de, caso possível, pertencerem-se a órbitas centrípetas.

Ocorreu de, sem saber namorar, namorar sem namorar, a minha vizinha no Mosqueiro (e, por ciúmes de sua irmã, namorá-la também). Um namoro (o primeiro deles, na verdade um quase-namoro) que durou anos, produzindo uma possível literatura que nunca ousarei fazer – até por que, nunca entendi por quê, até hoje ela parece ter raiva de mim. Na sequência, ocorreu-me ter aventuras na boate Matapi, no igual Mosqueiro, e de convolar afetos sapientes, posteriormente, com uma moça generosa que, maviosa, deu-se conta de mim. Igualmente ocorreu de cambiar afetos, beijos e certas derivas do bom senso com moças próximas, bem como, para escândalo de minha avó, a onipresente dona Nida, que sabia até daquilo que meu anjo da guarda nem desconfiava (coitado, ele é lerdo até hoje), de que eu tive uma paixão transubstancial pela esposa de um amigo de meu pai, uns vinte anos mais nova que seu marido, embora mais velha uns dez anos do que eu, que não se concretizou senão por suas mãos e por minha boca impaciente.

Porém, daqui partimos às namoradas, à fase da crença em afetos como companheiras duradouras, à despeito de todas as dificuldades que a falta de uma boa educação sexual, senão ao menos de um pouco de filosofia grega, nos impõe. Acreditando que ter namoradas seria o caminho evidente, normal e conceitual, passei a seguí-lo, sem ver opções maiores ao amor convencional. Juro que tentei aprender o amor, mas, como sabem, estamos aqui falando das pobres experiências de um rapaz magrelo, branquelo, aburguesadelo e formado nas mais vãs (in)sensibilidades ocidentais – mas educado na ética de saber o outro, a outra, e de respeitá-la. Ou melhor, de sabê-la, de tentar tentar entendê-la.

A primeira namorada, era um namoro secreto, na farmácia do seu pai e na varanda da sua casa. Havia a necessidade de cenários e de um pouco de encenação. Ela falava francês e apertava a minha mão. Mas de repente foi-se embora, levada por algum disco voador e depois de muito tempo, sem nenhuma emoção, telefonou – e comentou que me amou.

A segunda namorada era evanescente e bela, e poderia ter sido muito mais amada, mas nossa relação foi mal contratuada: a gente namorava sem saber, porque sentávamos juntos na escola, líamos os mesmos livros (García Marques – sobretudo O Amor nos Tempos do Cólera; Graciliano Ramos – sobretudo Alexandre e Outros Herois; e um pouquinho de Proust) e ouvíamos as mesmas músicas (Buarque, Mozart…). E, junto com isso, a gente se pegava. Sem conhecer as delicadezas do amor, creio que nos ferimos, talvez por estupor, talvez pela ausência das ciências do amor, ou – mais provavelmente – na insciência das palavras.

A terceira namorada tinha a virtude da amizade sincera, sem o que o amor não se faz, mas tinha toda uma vida a viver, antes de, eventualmente, poder se dedicar a mim. Ela demorou demais e eu percebi que, mais absurdo do que não passar minha vida ao lado dela era o absurdo de passar a vida sem poder confiar nela. Provavelmente eu gostava dela bem mais do que ela de mim e, assim por assim, foi necessário que ela traísse a amizade – com o que o amor se desfaz e tudo, para todo o sempre, ganha fim.

A quarta namorada não sabia que era minha namorada. Hoje, acho que era meio doida, porque me namorava quando queria, quando lhe dava na telha – geralmente às três da manhã, ou, até, às três e meia da manhã, quando me telefonava – e me acordava para dizer qualquer coisa que se parecia com a ideia de que me amava, embora restassem dúvidas.

A quinta namorada tocava piano, era linda, inteligente e sabia de coisas que até hoje não aprendi. Mas era inteligente demais para mim, e não consegui acompanhar todas as chamas, dramas e gramas que cresciam no pasto que, poeta pequeno que sou (desculpem pelo mau êxito), nunca vi.

A sexta namorada era comovente, com um coração talvez demente, mas residia à muitas órbitas de mim. Não era o fato da notícia ou o abstrato da carícia, que nos prendiam a nós, mas talvez um mercado, um estamim ou, ainda, a pólvora de um festim.

A sétima namorada, essa, eu nunca entendi. Desta vez era ela que namorava comigo sem que eu namorasse com ela. Mas ela me ensinou um monte de coisas da vida, dentre úteis e inúteis. E, por alguma razão que não compreendo, num vão intento, até tentou me matar.

A oitava namorada tinha marido, e dizia que era infeliz. Dava um trabalho infernal, e demandava um esforço paranormal para qualquer ato consubstancial que me provasse que amar tinha sentido.

Depois dessa daí decidi que não precisava, mais, namorar. Precisava, apenas, de evanescência, de meias-namoradas, de ficar por ficar e de estar por estar. Coisa mais cansativa era namorar! Coisa mais improdutiva e corrosiva… Coisa que não combinava, precisamente, com a ideia de amar.

Decidi que, na chama da vida, na trama do tempo e da ferida, a gente está por estar. Vieram festas e ocorrências, algumas intermitências, namoros de pouquinhos dias ou de pouquinhas horas que supunham marcar – marcar na memória do esquecimento, a ausência, o pão, o tomento, de algum dia, sequer, lembrar.

Sempre poeta menor (insisto nessa condição, que me favorece e exime de responsabilidades substanciais), desisti-me de fazer poesias ou de escrever crônicas para cada uma delas (me desculpem, mas tenho que escrever também artigos científicos, que pagam meu salário…) Embora todas elas merecessem, crônicas, poemas e até, quem lhes sabe, sentenças de afeto. Escritos de desejar poder ser e, ainda amigo, quem sabe até, amigo de cada uma delas.

Amigo – porque o sou, por respeito, e com profundo respeito, pelas experiências de mundo partilhadas.

Fui um menino feliz e, amigo do Rei de Pasargada, tive a ilusão de que escolheria – na cama do meu desejo, ou no diálogo com um realejo – a companheira que, talvez, eu quiz.

Porém, como se faz, nenhum menino vira rapaz se, na espera de ser homem, algum dia, não decida a sorte que lhe apraz.

Dentre uma e outra namorada houve pessoas amadas, na evasão – ou na pervasão – de um momento. Algumas dessas namoradas retornaram – umas, por um momento. Outras, num vão intento – e todas elas se foram. E todas se foram no tempo que se desfaz. E, no entanto, houve um momento, em que percebi – e percebi porque percebi – que havia encontrado alguém, senão perfeita, ao menos idealmente rarefeita – que, no fulgor da vida imperfeita, à quem eu poderia, seja na ilusão de uma raiz, seja voltando a ser um aprendiz, declinar, por afeto, à minha cerviz e, amigo ainda do Rei de Pasargada, estar estando, só ficando, só gostando, só namorando, longamente, tranquilamente e duradouramente e preguiçosamente namorando.

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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