Publicado em: 24 de agosto de 2025
As vezes pode parecer bairrismo de um professor que labuta no ensino da Literatura produzida na Amazônia e perceber a maioria dos estudantes tanto do ensino médio até os últimos anos de graduação desconhecem os escritores amazônico.
A literatura produzida na amazônica, historicamente, tem sido marcada por um duplo movimento: de um lado, a afirmação de sua identidade cultural, mítica e territorial; de outro, o enfrentamento de um apagamento sistemático produzido pelo cânone nacional, quase sempre centralizado no eixo Rio–São Paulo. Nesse cenário, a obra Terra de Icamiaba (1931), do escritor paraense Abguar Bastos (1902–1995), emerge como uma contribuição estética singular e como manifesto literário que dialoga com o Modernismo, ao mesmo tempo em que se afirma contra suas hegemonias sulistas.
Terra de Icamiaba é uma obra de difícil enquadramento em apenas um gênero, pois articula romance, epopeia e mito em um híbrido narrativo que reflete a própria multiplicidade da Amazônia. Abguar Bastos inscreve-se na linha de escritores que buscaram repensar a identidade nacional a partir da região.
A narrativa se coloca como fundacional: pretende recuperar uma memória indígena apagada e ressignificá-la sob a chave modernista, em consonância com a busca por uma linguagem literária brasileira, recusando a dependência estética dos padrões europeus ou do filtro cultural paulista. Aqui, o mito não é apenas ornamento literário; é força estruturante da obra, configurando uma poética de resistência amazônica.
Desta forma, Bastos propõe a Literatura como perspectiva amazônica para o Modernismo brasileiro.
Tal movimento, inaugurado oficialmente em 1922, concentrou-se no Sudeste, especialmente em São Paulo, tendo como marcos Paulicéia Desvairada (Mário de Andrade) e o Manifesto Antropófago (Oswald de Andrade). No entanto, para autores como Abguar Bastos, esse movimento, embora renovador, reproduziu práticas centralizadoras e silenciou expressões culturais principalmente no Nordeste e Norte brasileiro, onde por vezes já se discutia esse novo pensamento estético, basta lembra a poesia “ Arte Nova” em 1920 de Bruno de Menezes.
“Eu quero uma Arte original…
Dai esta insatisfação na minha Musa
Ansias de ineditismo que eu não vi e o vulgo
Material inda não usa (…)
Gloriosa uma Arte que os ideais renova
Razão da causa porque eu me requinto
Na extravagancia de uma imagem nova!”
Nossos escritores atualizavam as discussões sobre a nova feitura poética mesmo antes da semana de 1922. As discussões se acirravam nos jornais, na vida boemia de Belém.
Em Terra de Icamiaba, Bastos propõe um modernismo a partir da Amazônia. Com um olhar avesso ao europeu como fonte de legitimação, ele olha para os rios, as florestas, os mitos e os povos originários. O espaço amazônico não é cenário exótico, como fora tratado por escritores viajantes do século XIX, é uma matriz estética, política e identitária. Essa escolha reconfigura a literatura brasileira, pois desloca o centro da produção cultural para um espaço historicamente marginalizado.
Ao propor uma literatura amazônica de caráter autônomo, que não se subordinava às diretrizes modernistas paulistas, Bastos evidenciou o abismo cultural e político que separava a Amazônia do restante do país. Enquanto o Modernismo paulista defendia a “antropofagia cultural” como apropriação crítica das culturas estrangeiras, Bastos reivindicava uma afirmação das raízes indígenas e amazônicas como núcleo de uma literatura nacional. Essa divergência evidenciava as diferentes visões estéticas e a luta contra a invisibilidade imposta aos escritores da região amazônica no cânone literário nacional.
A obra de Abguar Bastos, assim como de outros escritores amazônicos (Bruno de Menezes, Dalcídio Jurandir, Inglês de Sousa, Eneida de Moraes, Silvia Helena Tocantins, Lindanor Celina, entre outros), raramente ocupa o mesmo espaço na historiografia da literatura brasileira ou mesmo em cursos de graduação em Letras ou nos ensinos básicos. Essa invisibilidade revela o processo histórico de exclusão de produções locais, em especial da Amazônia, vistas muitas vezes como folclóricas ou secundárias.
Contudo, Terra de Icamiaba mostra que a literatura amazônica dialogar com a literatura brasileira e com as grandes obras modernistas. Sua relevância na capacidade de universalizar uma experiência local, apresentando uma estética que nasce dos rios, das lendas e do cotidiano amazônico.
Terra de Icamiaba nos faz compreender que o Modernismo não se fez resume apenas em São Paulo. Abguar Bastos construiu um projeto literário insurgente, que recoloca a Amazônia no centro da produção cultural brasileira, questiona o monopólio do Sudeste e amplia o repertório estético do Modernismo.
Para estudantes de ensino superior, o estudo dessa obra é fundamental para repensar a literatura brasileira em sua pluralidade, e, compreender como a Amazônia se impõe como espaço criador, e não como periferia cultural.
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Sugestão de leitura complementar
BASTOS, Abguar. Terra de Icamiaba. 1933.
JURANDIR, Dalcídio. Chove nos campos de Cachoeira.
MENEZES, Bruno de. Batuque.
SOUSA, Inglês de. O Missionário.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil (para contextualizar o Modernismo).
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