Publicado em: 24 de agosto de 2025
A bondade é um tema central da filosofia. No domínio da ética, que examina os princípios morais que guiam o comportamento humano, a bondade é interpretada como uma virtude moral e um ideal. A ética pretende responder a questões acerca do que é o certo a fazer e de como devemos viver nossas vidas. A bondade é, no campo da ética, um princípio orientador para a tomada de decisões e para a conduta moralmente correta. Ninguém se torna bom por acaso, mas por escolha e prática, dizia Aristóteles, para ensinar que a bondade é prática, exercício e escolha consciente.
Esta semana, perdemos para o mundo espiritual, o magistrado americano Frank Caprio, que foi considerado em vida, no exercício da magistratura, o maior juiz do mundo ou o juiz mais gentil do mundo. A reputação do doutor Frank era uma resposta à forma como conduzia seu trabalho de magistrado em Rhode Island, em virtude da sua abordagem única e profundamente humana dos casos levados à sua apreciação no tribunal, como amplamente repercutido em reportagens jornalísticas e nas redes sociais.
O magistrado atuou como juiz-chefe do Tribunal Municipal de Providence, Rhode Island, por quase quatro décadas, até a sua aposentadoria em 2023. Conheci o trabalho de Frank Caprio assistindo ao programa de televisão Caught in Providence, transmitido no YouTube, que reproduzia suas sessões de julgamentos de pequenas infrações, como multas de trânsito.
A primeira audiência que assisti, presidida por Frank Caprio, tinha como objeto uma infração de trânsito cometida por uma jovem brasileira. Deixo o link abaixo de um short do vídeo. Na audiência, conduzida com muita prudência, empatia e humanidade, o magistrado ouve atentamente a justificativa da infratora sobre sua conduta e explica que as leis, nos Estados Unidos, têm uma forma de aplicação específica. Ocorrem momentos espirituosos de interação entre ambos.
No direito, a hermenêutica da aplicação das leis tem desafios muito pontuais. Os principais desafios dizem respeito à interpretação e à aplicação dos princípios jurídicos, que são normas de conteúdo muito amplo e que desafiam a inteligência do intérprete e aplicador das normas. Frank Caprio, além de lançar mão dos princípios jurídicos, conduzia seus julgamentos por outros modais deontológicos universais e por regras facultativas de humildade e de gentileza, de uso incomum pelos magistrados.
Compaixão e empatia: Caprio era reconhecido por ouvir atentamente as histórias das pessoas que compareciam ao seu tribunal, levando em conta suas circunstâncias pessoais, como dificuldades financeiras, luto ou problemas de saúde. Em vez de aplicar a lei de forma rígida, ele frequentemente buscava soluções justas e humanas, como cancelar multas para pessoas em situações vulneráveis ou oferecer alternativas criativas, como pedir a estudantes que prometessem continuar seus estudos em troca de alívio de penalidades. Por exemplo, ele isentou uma mulher de multas de US$ 400 após ouvir sobre o assassinato do seu filho, demonstrando sensibilidade às suas circunstâncias.
Bom humor e leveza: Caprio conduzia suas audiências com um senso de humor bondoso, leve e característico, o que tornava o ambiente do tribunal menos intimidador e mais humano. Ele frequentemente envolvia as crianças no julgamento dos seus pais, chamando-as para ajudar a julgá-los de forma lúdica e didática, o que gerava momentos emocionantes e engraçados, amplamente compartilhados nas redes sociais. Pesquisem! Vídeos de casos como o de Victor Colella, um idoso de 96 anos, multado por excesso de velocidade, ao levar o filho doente ao médico, alcançaram mais de 200 milhões de visualizações e até hoje são muito consultados no YouTube.
Os vídeos de Caught in Providence são muito interessantes e, curiosamente, viralizaram na internet, acumulando bilhões de visualizações em plataformas como YouTube e Facebook: uma resposta positiva da sociedade à abordagem jurídica de Caprio, que contrasta com a imagem estereotipada que temos de magistrados frios e severos, mostrando que a justiça pode ser exercida com bondade e prudência.
Ele conquistou milhões de seguidores, incluindo muitos brasileiros, que o elogiavam por sua humanidade, humildade, inteligência emocional e empatia.
Caprio era filho de um imigrante italiano, que trabalhava como leiteiro. Ele aprendeu com o pai a importância da compaixão, de ajudar famílias em dificuldade, mesmo quando sua própria família enfrentava adversidades. Ele atribuía sua abordagem judicial a esses ensinamentos, afirmando: “Eu não uso um distintivo por baixo da toga. Eu uso um coração por baixo da toga”. De fato, Caprio conseguia equilibrar o peso do cérebro e do coração em suas decisões, tornando seu ofício eficiente e pedagógico.
Além do seu trabalho como juiz, Caprio foi um defensor da educação e da justiça social, criando bolsas de estudo em nome do seu pai e participando de iniciativas comunitárias. Sua morte, em 20 de agosto de 2025, aos 88 anos, devido a um câncer de pâncreas, gerou comoção global, com tributos como o do governador de Rhode Island, Dan McKee, que destacou seu impacto como um símbolo de empatia no tribunal.
O título de maior juiz do mundo é subjetivo e carinhoso, mas reflete o impacto de Frank Caprio, um filho de imigrantes pobres na América, em redefinir a percepção social da justiça, mostrando que autoridade, magistratura e compaixão, podem coexistir sem conflitos. Ele inspirou pessoas ao redor do mundo, incluindo o Brasil, onde era amplamente admirado, como visto em comentários de seus espectadores nas redes sociais, por onde seu legado é transmitido.
Descanse em paz, grande mestre! Jamais esqueceremos o seu legado!
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