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Fotos: Jaime Souzza
O passado da Belém da Belle Époque é
redivivo no casarão na esquina do Boulevard Castilhos França com a Av.
Presidente Vargas, berço de uma Belém rica e requintada, cuja memória durante
décadas foi lançada ao limbo. A grande surpresa é que os donos do Point do Açaí
– que eu não conhecia -, responsáveis pela revitalização magnífica do local,
não são arquitetos, nem historiadores ou artistas plásticos, mas cidadãos com
uma consciência admirável.
Logo na entrada, o pé direito duplo, a
enorme parede deixando em evidência a estrutura de pedra, as coleções de
relógios de parede antigos, os ladrilhos hidráulicos, azulejos portugueses,
cerâmicas e porcelanas criam a atmosfera mágica que envolve o visitante. No
segundo e terceiro andares, as escadas trabalhadas e os salões com os assoalhos
e mesas de pau amarelo e acapu, com as janelas debruçadas para a praça Pedro
Teixeira, o rio, o casarão da CDP e a Estação das Docas, descortinam uma
paisagem deslumbrante, com nuanças diferentes conforme a luz do sol ou o brilho
da lua.
Um dos donos, Nazareno Alves, corroborado
pelos testemunhos dos empresários de gastronomia e do trade local presentes na inauguração, contou que começou vendendo
açaí com peixe frito em sua própria casa, na Cidade Velha, onde havia uma só
mesa com cadeiras de plástico. Empreendedor nato, de uma ousadia incomum, pediu
e obteve o apoio de seu amigo e compadre Manuel Dominguez Henriques Jr., o dono
da Portinha, célebre e premiada pelas
esfihas de pato com tucupi e de camarão, embrulhadinhos de tomate seco com
mussarela de búfala e castanha-do-pará, pãezinhos com presunto de peru, palmito
e jambu, folhados recheados de pupunha e linguiça defumada e outras delícias
regionais. Juntos, garimparam as belíssimas peças que compõem a decoração e
madeiras de demolição para recompor os estragos causados pelo abandono ao
prédio histórico. Literalmente, juntaram do lixo o rico acervo, o que me
lembrou a comovente atitude do grande Vicente Salles, que recolheu todas as
preciosidades jogadas fora em “limpeza
do Theatro da Paz.

O mínimo que a prefeitura e o governo do Estado
podem e devem fazer, agora, é manter limpa e segura a redondeza, que inclui
outro importante espaço cultural, o Sesc Boulevard. Imaginem o que significa
para a auto-estima dos belemenses e o aproveitamento turístico poder caminhar
sem sobressaltos, a qualquer hora do dia e da noite, da escadinha do cais do
porto, pelo boulevard e a praça Pedro Teixeira, apreciar de um lado o casario
centenário e do outro a Estação das Docas, o rio e os barquinhos pô-pô-pô, o complexo
dos Mercedários, o Ver-O-Peso, o Forte do Castelo, a Casa das 11 Janelas, a
Catedral da Sé, o Museu de Arte Sacra e a Igreja de Santo Alexandre.
E poder tomar açaí com farinha de
tapioca, degustar pirarucu, tambaqui, filhote, pescada branca e amarela,
camarão. Carne de gado, de búfalo, carne seca, frita, cozida, assada. E ainda alimentar
a alma com tanta beleza num espaço gastronômico-cultural como o Point do Açaí.
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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