Publicado em: 27 de março de 2026
A obra de Lélia Gonzalez é um campo de reflexão complexo, haja vista que recusa simplificações. Sua escrita nasce da necessidade e da urgência histórica de compreender a diversidade do Brasil a partir de quem foi sistematicamente silenciado. Filósofa, antropóloga, Gonzalez descreve a realidade social brasileira e vai além, reinterpreta, propondo categorias próprias que deslocam o olhar eurocêntrico ainda dominante nas ciências humanas.
Um dos pontos centrais de seu pensamento está na crítica à ideia de uma identidade nacional homogênea. Lélia Gonzalez desmonta o mito da democracia racial ao mostrar que ele funciona como um mecanismo ideológico que encobre desigualdades profundas.
Nesse sentido, sua reflexão dialoga com autores como Frantz Fanon, ao evidenciar como o racismo estrutura subjetividades e relações sociais, ainda que sob formas aparentemente sutis.
É n
esse horizonte que surge sua noção de uma identidade afro-latino-americana. Para a autora, não se trata de uma identidade fixa. É um processo histórico marcado pela violência da diáspora africana. A migração forçada de milhões de africanos pelo tráfico negreiro deslocou corpos e, fragmentou culturas, línguas e sistemas de pertencimento. O que ela propõe é um movimento de recomposição, uma tomada crítica dessas bases identitárias apagadas.
Esse pensamento, no entanto, não deve ser romantizado. Gonzalez não busca um retorno idealizado à África, suas ideias buscam compreender como elementos africanos foram recriados nas Américas. Em seus textos, ela insiste que a cultura negra no Brasil e na América Latina é constitutiva. Está na língua, na religiosidade, na música, nas formas de sociabilidade e resistência.
Um trecho emblemático de sua reflexão aparece quando afirma: “A cultura negra não é um dado marginal na formação brasileira; ela é central, embora constantemente negada”. Essa afirmação desloca o eixo interpretativo tradicional e exige uma revisão das narrativas históricas que privilegiam matrizes europeias. Ao pensar essa identidade afro-latino-americana, Gonzalez articula uma dimensão política. Reconhecer essas raízes como um exercício cultural e como enfrentamento ao racismo estrutural. Trata-se de recuperar a instância histórica de povos que foram reduzidos à condição de objeto no processo colonial.
Outro conceito fundamental em sua obra é o de “pretoguês”. Com essa ideia, Gonzalez implode com a noção de que o português falado no Brasil seria uma simples derivação do modelo europeu. Para ela, a língua brasileira é profundamente marcada por contribuições africanas, tanto no vocabulário quanto na sintaxe e na sonoridade.
Ela escreve: “O que se fala no Brasil não é português; é pretoguês”. Essa formulação, ao mesmo tempo provocativa e rigorosa, evidencia como a língua carrega marcas da experiência histórica da escravidão e da resistência cultural negra. O pretoguês revela outra lógica linguística, que desafia normas gramaticais impostas como universais.
Essa noção tem implicações profundas. Ao reconhecer o pretoguês, Gonzalez legitima formas de fala historicamente estigmatizadas. Aquilo que muitas vezes é tratado como “erro” passa a ser entendido como expressão legítima de uma história e de uma identidade coletiva. Aqui, sua reflexão se aproxima de debates contemporâneos da sociolinguística.
Além disso, o conceito de pretoguês também pode ser lido como uma crítica à violência simbólica presente na padronização linguística. Ao impor uma norma culta baseada em referências europeias, o sistema educacional contribui para a exclusão de sujeitos que não se reconhecem nesse modelo. Gonzalez, portanto, antecipa discussões que hoje são centrais no campo da educação linguística. Outro aspecto importante de seu pensamento é a intersecção entre raça e gênero. Gonzalez evidencia como as mulheres negras ocupam uma posição específica na estrutura social, marcada por múltiplas formas de opressão. Sua análise antecipa o que mais tarde seria amplamente discutido como interseccionalidade, embora ela já atuasse com essa lógica de forma bastante consistente. Em textos como “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, ela afirma que a mulher negra é frequentemente reduzida a estereótipos que a desumanizam. A figura da “mulata” e da “doméstica” são exemplos de como o imaginário social constrói papéis limitadores. Sua crítica é apenas descritiva e profundamente ética e política.
Ao longo de sua obra, Gonzalez também propõe uma valorização das formas de resistência cultural. Religiões de matriz africana, como o candomblé, e práticas culturais populares são vistas como espaços de preservação e reinvenção identitária. Esses espaços funcionam como territórios de resistência frente à lógica colonial.
Sua contribuição, portanto, não se limita ao campo acadêmico. Ela oferece ferramentas conceituais para repensar a sociedade brasileira de maneira mais justa e inclusiva. Sua escrita é atravessada por uma preocupação pedagógica, no sentido mais profundo do termo: ensinar a ver o que foi historicamente ocultado.
Lélia Gonzalez nos desloca, obriga a abandonar certezas confortáveis e a encarar a complexidade da formação social brasileira. Sua ideia de uma identidade afro-latino-americana e o conceito de pretoguês são categorias analíticas e além disso, são convites à reconstrução crítica da memória e da linguagem, abrindo caminhos para uma compreensão mais plural de quem somos.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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