Publicado em: 14 de fevereiro de 2026
Em um mundo interconectado, os escândalos que emergem em diferentes cantos do globo frequentemente parecem eventos isolados, frutos de circunstâncias locais. Contudo, ao se observar com mais atenção, um fio condutor se revela, conectando a fraude financeira de um banco no Brasil à rede de abuso sexual de um magnata nos Estados Unidos e o comportamento em geral do que se acostumou chamar de “playboy” quando assume a coordenação de qualquer coisa, à revelia do significado público que possua.
Vamos partir da análise das coincidentes entre o escândalo do Banco Master e o Caso Epstein que, embora aparentemente distintos em sua natureza, são manifestações de uma mesma patologia: a hipocrisia moral de uma elite que, movida por um pragmatismo predatório, se julga acima do bem e do mal, abrindo perigosas fendas no tecido social por onde o crime organizado prospera.
Uso o termo “patologia”, não por me sentir um pato diante destes fatos, mas aqui uso a palavra em seu sentido científico, desde Rudolf Virchow(1821-1902) que introduziu o uso moderno como o estudo das doenças ou sofrimentos dos seres humanos. Embebido do sentido liberal individualista, Rudolf se alinhava com os que entendem ser uma doença aquilo que faz mal ao indivíduo, inclusive seu próprio comportamento e escolhas, como resultante de sua razão, emoção e psiquê, como a psicologia tem aprofundado, concluindo que há uma mão dupla entre indivíduos e seus ambientes.
No Brasil, o caso do Banco Master expõe um roteiro de ganância onde a fronteira entre o lícito e o ilícito se torna turva não por ignorância mas por estratégia, a partir de uma concepção de mundo de que o sucesso se constrói a partir de privilégios e não de direitos. A instituição, que cresceu exponencialmente sob a promessa de rendimentos extraordinários, utilizou-se de manobras contábeis e da emissão de títulos sem lastro para construir um castelo de cartas bilionário, tal como seu ambiente funciona há séculos. O que torna o caso emblemático não é apenas a fraude em si, mas as conexões que a sustentavam. Investigações revelaram contratos milionários com escritórios de advocacia ligados a altas autoridades do judiciário, do legislativo e até do Planalto, desde 2018, há uma rede que protege esquemas, algo normal.
Do outro lado do equador, o Caso Epstein revela a face mais sombria dessa mesma arrogância. Jeffrey Epstein, um financista com acesso irrestrito aos círculos mais poderosos do planeta, orquestrou uma rede internacional de tráfico e abuso sexual de menores. Sua infame “ilha da fantasia” e seu “Lolita Express” não eram segredos, mas sim destinos frequentados por príncipes, ex-presidentes, bilionários e acadêmicos de renome. A hipocrisia é gritante: figuras que publicamente defendiam valores morais participavam, direta ou indiretamente, de um esquema de exploração sexual humana.
A análise das biografias de seus protagonistas, Daniel Vorcaro e Jeffrey Epstein, revela um paralelo intrigante no papel social que ambos desempenharam. Vorcaro, herdeiro de um império imobiliário, partiu de uma base de riqueza familiar para uma ascensão meteórica no mercado financeiro, marcada por uma agressividade e ostentação que hipnotizavam parte da elite econômica e política. Seus jatos, festas de milhões de reais e imóveis cinematográficos não eram apenas luxo, mas ferramentas para construir uma aura de sucesso inquestionável, um escudo para suas operações fraudulentas. Epstein, por sua vez, partiu de uma origem mais modesta como professor de matemática, mas rapidamente dominou os códigos da alta finança, vendendo-se como um gênio financeiro para os super-ricos. Ele usou essa fachada para construir um círculo de poder que ia muito além do dinheiro, oferecendo acesso a um mundo de prazeres ilícitos e poder velado.
Ambos, cada um à sua maneira, funcionaram como parasitas sociais mandados, mestres em explorar as vaidades, a ganância e os desejos ocultos das elites, mas não perceberam que o ambiente os usava e qdo chegaram ao limite, foram descartados. Vorcaro oferecia o atalho para a riqueza fácil; Epstein, o acesso ao poder/prazer sem consequências. Mas eles não eram da parte superior da elite que os descartou para continuar no controle. Foram estimulados em sua arrogância, como tantos outros, para manter quem faz o trabalho sujo da desigualdade, Eike Batista que o diga. Trata-se de uma elite que se impõe como superior nas relações pessoais e nos negócios, com relações complexas e sofisticadas que alcançam a psiquê da Sociedade para manter a principal base de seu poder, o fetiche do dinheiro. Como diz o cientista israelense Yuval Harari, a maior abstração criada até hoje na humanidade, segundo ele, maior até do que a de Deus.
Mas o central é entender que poder não é uma coisa, um objeto, apesar de ter vários símbolos, mas é uma relação. Exerce poder quem tem aquilo que o outro quer. Daí a estratégia de fazer o outro querer o que se inventa ter. O dinheiro cumpre este papel. Por dinheiro se fazem leis, por dinheiro julgam como inocente, por dinheiro se ajoelham, por dinheiro falam o que o outro quer, por dinheiro se deitam, por dinheiro se levantam cedo. Como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, “No Capitalismo o dinheiro compra tudo, até amor sincero”. E assim se aparta riqueza de qualidade de vida, o que só se constrói coletivamente. Reduzindo seu significado a poder de compra de coisas e a influência amoral que lhes conferem o direito de operar sob um código de conduta particular, imune às leis que regem o cidadão comum.
Esta lógica perversa já tem registrado o crescimento do Crime Organizado nas instituições estruturantes da Sociedade. “Se paga bem, que mal tem”. A história da Colômbia serve como um alerta sombrio sobre as consequências desse pragmatismo. Durante as décadas de 1980 e 1990, a disposição de setores das elites econômica e política em fazer negócios com o narcotráfico, em nome do lucro rápido e da manutenção do poder, permitiu que cartéis como o de Medellín se infiltrassem em todas as esferas do Estado e da sociedade. A ascensão das “narco-elites” demonstrou como a busca pelo ganho imediato e individual, sem considerar as implicações éticas e sociais, cria um vácuo que é rapidamente preenchido pelo crime organizado. A violência endêmica que assolou o país por décadas foi o preço pago por essa aliança e fusão, um abismo que tragou gerações inteiras.
Em meio a esse cenário desolador, a experiência da Ciudad Juárez, segunda maior cidade do México, surge como um farol de esperança. A cidade, que já foi considerada a mais violenta do mundo, com taxas de homicídio aterrorizantes, demonstrou que é possível reverter a espiral da violência. A transformação não veio apenas pela força policial, mas principalmente por uma articulação profunda da sociedade civil, com vários empresários importantes da cidade entre as lideranças mobilizadoras.
O que ocorreu em Juárez foi a aplicação da inteligência da solidariedade. A comunidade, reunindo empresários e lideranças sociais, exigiram o alinhamento dos governos ocupando as mídias. Entenderam que a única forma de diminuir os espaços do crime organizado era ocupá-los com oportunidades e dignidade, negócios com regras claras e transparentes para todos. Investimentos maciços, públicos e privados, foram feitos em educação, esporte, empreendedorismo popular e cultura, criando centros comunitários, parques e programas que ofereciam aos jovens uma alternativa ao recrutamento pelas gangues. Ao construir um senso de pertencimento e um horizonte de futuro, a sociedade de Juárez enfraqueceu a base social do crime.
E por aqui??? A experiência de La ciudad Juarez foi a base da criação das Usinas da Paz, maior e mais importante obra do Governo Helder, que vários participaram da elaboração liderada por Ricardo Ballestreri, como eu, que estava na SEAP(Sec de Administração Penitenciária). Mas não tivemos aqui o debate social em torno da necessidade do pacto pela transparência nos negócios e decisões políticas.
Como exemplo da necessidade de avançarmos nesta pauta, vejo o perfil e o comportamento de alguns dirigentes de Remo e Paysandu diante dos desafios que enfrentamos enquanto Sociedade. Um, importante herdeiro, quando viu o Paysandu cair para a Série C, virou o beiço e saiu batendo o pé, como se nada tivesse a ver com o resultado. Toda força aos dirigentes que assumiram. No Remo, a luta fratricida campeia, exatamente por ter chegado à série A. Nos dois casos, as principais referências de gestão são particulares e não o sentido público que faz milhares de torcedores fazerem qualquer coisa por seu clube. E se usássemos este poder para fazer o bem? Uso nossos clubes de futebol pelo que de público simbolizam com eloquência e dizer que a patologia do “poder playboy” também está em nós.
Os escândalos do Banco Master e de Jeffrey Epstein, e a lição histórica da Colômbia, nos mostram que a miopia do egoísmo é uma força destrutiva. A busca incessante pelo ganho imediato e individual, desprovida de empatia e responsabilidade coletiva, não apenas corrompe indivíduos, mas cria abismos ao desenvolvimento sustentável e à paz social.
Ciudad Juárez, por outro lado, ilumina o caminho a seguir. A verdadeira riqueza de uma nação não está na fortuna acumulada por poucos, mas na dignidade compartilhada por todos. Sem a inteligência da solidariedade, que nos permite ver além de nossos interesses imediatos e reconhecer nossa humanidade comum, continuaremos a construir um mundo onde a hipocrisia floresce e a violência encontra terreno fértil. A dignidade, para ser real, precisa ser um direito na prática exercido por todos e todas.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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